O presidente Michel Temer vai atravessar os dias mais incertos de toda a sua carreira política. Terá de se defender de irregularidades como corrupção passiva, formação de quadrilha e prevaricação. Em outra frente de batalha, terá de enfrentar o julgamento pelo TSE, que pode desqualificar a chapa, encabeçada pela presidente cassada, Dilma Rousseff, vencedora das eleições de 2014.
Travando a Lava Jato
No caso do terremoto político iniciado na tarde de quarta-feira, 17, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciou que o presidente Michel Temer e o senador afastado Aécio Neves articularam para impedir o avanço da Lava Jato. A afirmação está explicita na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Edson Fachin que mandou iniciar um inquérito para investigar Temer, Aécio e o deputado paranaense afastado, Rodrigo Rocha Loures do PMDB, que está relacionado ao acordo de delação de executivos da JBS. A decisão foi divulgada ontem.
No pedido para investigar Temer e Aécio, a procuradoria afirma que o senador teria “organizado uma forma de impedir que as investigações [da Lava Jato] avançassem por meio da indicação de delegados que conduziriam os inquéritos, direcionando as distribuições.”
O presidente Michel Temer afirmou na tarde desta quinta-feira (18) no Palácio do Planalto que não teme delação e que não renunciará. Ele afirmou que nunca autorizou que se pagasse a alguém para ficar calado. “Em nenhum momento autorizei que pagasse a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém”, declarou.
Perda de apoio
Ao decidir permanecer no cargo de presidente da República Michel Temer sabe que ainda terá muitos obstáculos para enfrentar na tentativa de manter sua base de apoio. Menos de 24 horas depois da revelação das denúncias, apresentadas pelos donos da JBS, Temer enfrentou na quinta-feira, 18a perda de apoio de partidos no Congresso Nacional, pedidos de demissão de ministros e oito requerimentos de impeachment na Câmara dos Deputados. Mas conseguiu conter, ao menos no primeiro momento, uma debandada da base aliada.
Pitacos ilustres
Desde quarta-feira, começou uma espécie de julgamento informal de Michel Temer, pela língua afiada de ilustres, políticos ou não. Além da oposição que tenta apagar os rastros da corrupção envolvendo o líder de esquerda e ex-presidente Lula, alguns depoimentos convenientes começaram a pipocar, atraídos pelos holofotes. Um deles, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa disse ontem, que os brasileiros devem se mobilizar para pedir a renúncia imediata do presidente Michel Temer.
O líder do Democratas (DEM), senador Ronaldo Caiado, afirma que Temer não se sustenta mais no poder e a saída lógica é a renúncia. A afirmação é compartilhada pela líder do Rede Sustentabilidade, Marina Silva. A bancada do PPS na Câmara defende a renúncia do presidente Michel Temer e a convocação de eleições diretas para Presidência da República. Até agora Temer perdeu apoio de pelo menos quatro pequenos partidos, com cerca de 56 deputados. Governistas dizem que não há sangria.
O ministro da Cultura, Roberto Freire, entregou o cargo depois de se reunir com seu partido, o PPS, que abandonou a base do governo. Em avaliação: o PSB pediu que Coelho Filho deixe as Minas e Energia. O PSDB voltou atrás e permanece no governo.
Comissão de Valores Mobiliários investiga JBS
No início da tarde de ontem, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) divulgou que instaurou três processos administrativos em uma semana para investigar o frigorífico JBS. As informações sobre o conteúdo das investigações não foram reveladas pela CVM. Os processos foram instaurados nos dias 12, 17 e 18 de maio e investigam “notícias, fatos relevantes e comunicados” da JBS. O comércio apurou as informações junto ao site da CVM.
Há rumores no mercado financeiro, de registros no sistema de negociação de câmbio de uma operação atípica de compra de dólares muito próxima do fechamento do mercado na quarta-feira, 17. A operação chamou a atenção do mercado por ser um volume elevado em dia sem motivações para um movimento de compra, quando o dólar estava em trajetória de queda com a melhora das perspectivas para a economia.
Horas depois da operação, foi divulgada informação de que os executivos da JBS fecharam um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público. As delações teriam acusações contra o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves. Os mercados financeiros entraram em pânico na quinta-feira, 18. O dólar disparou e fechou em alta de 8,15%, cotado a R$ 3,389, a maior valorização diária em 18 anos.