Confesso que se for para encontrar algo, tenho predileção pelos dinheiros perdidos em bolsos de roupa. Aposto que o leitor amigo já teve tal felicidade. Apanhar o casacão de inverno, com calafrios antecipados pelo frio da rua, e, num resvalar de dedos, descobrir a nota dobradinha. Alegria maior caso seja de cinquenta pratas pra cima.
Hoje mesmo, pouco antes de aqui sentar para escrever o Cartas desta sexta-feira, vi uma charge intitulada “pequenos prazeres da vida”. Encontrar dinheiro nos bolsos estava na lista. Porém, papéis avulsos de outra natureza podem também ser interessantes. A predileção adequa-se. Ainda da mais recente revolução tecnológica que ameaça a existência de materiais impressos, jornais, revistas e demais periódicos seguem na resistência. Por falar em prediletos, uma confissão a mais: não vejo comparação entre ler um texto no impresso e na tela de um computador. Que seja hábito antiquado, saudosismo, quiçá nostalgia (ainda que eu não tenha navegado pelos anos de ouro do impresso). O rótulo é de quem rotula. Mas a questão é que gosto e não largo a papelada. Explico com um exemplo: uma tipografia criada para tal impresso é proposital. Este texto, impresso pelo jornal O Comércio, nesta fonte, tem um propósito fundamental que envolve desde a dinâmica da leitura à disposição dos elementos na página. Caso você, leitor, faça a leitura do Cartas da Província no computador, a história é outra. Lhe é possível “copiar” o texto, jogar no Word e alterar fonte, tamanho, cor e etecetera. Critiquem: essa flexibilidade não me agrada.
A discussão do impresso, porém, fica para outra hora. É apenas uma premissa para justificar um prazer que tive nessa semana. Em visita à casa do meu pai, decidi vasculhar uma papelada que residia num dos armários de meu quarto. Lá encontrei recortes de revista em quadrinhos, trabalhos escolares do “pré” e afins. Em meio àquela miscelânea, duas coisas chamaram-se atenção. Dois periódicos. Jornais antigos. Puxei-os do emaranhado. Um pecado não conferir.
O primeiro datava de 13 de janeiro de 2000. A primeira quinzena do Novo Milênio. Logo na terceira página, uma matéria sobre tecnologia: quais seriam as tendências após a ameaça do bug. Preparei as risadas. A reportagem discutia o pontapé inicial no uso de internet em aparelhos celulares. Segundo o texto, Nokia e Motorola seriam as pioneiras. Para isso, contudo, era aguardada a chegada da tecnologia GSM no Brasil, que possibilitaria acesso à rede por meio do celular numa velocidade de 64 Kbps. Piada se posta em paralelo ao serviço 3G atual (quando funciona conforme o prometido). Em mais de uma década, a tecnologia evolui em “anos de cachorro”.
O segundo periódico era um exemplar da primeira edição do jornal Gazeta do Povo. Dia 3 de janeiro de 1919. O papel em tom pastel estava plastificado. Não resisti e tirei-o do invólucro. Li. Quem conhece sabe: uma nota de capa anuncia a candidatura de Ruy Barbosa à Presidência. Um editorial esclarece a proposta do jornal. Na contracapa, classificados ilustrados. Uma beleza. Talvez você, leitor amigo, não tenha tal deslumbre. Gosto é gosto. Mas, sem pieguice, reafirmo: papéis avulsos: um dos grandes prazeres da vida.