Zíper nos lábios
Por Renan Machado
A vantagem de se trabalhar com bons profissionais, desde cedo, é que enquanto se erra muito se aprende. Vivenciei isso por vezes (e vivencio). Um dos homens que faz parte de meu convívio profissional, um jornalista, costuma dizer: “sou contra qualquer tipo de censura”. Penso comigo: se censura fosse boa, vetava todo tipo de baboseira que surge nas mídias, cenário musical, literário e cinematográfico; até mesmo no boca-a-boca da gente. Mas não. A censura mostra sua cara, exclusivamente, quando a informação contraria “maiores interesses”. Isso porque muitas das baboseiras vendem bem; atraem patrocinadores e admiradores alienados.
Comumente, na sociedade contemporânea, a censura aparece quando alguém decide falar a verdade. Isso porque a verdade dói: em ouvidos e bolsos de alguns que, pretensiosamente, acreditam na ingenuidade generalizada do povo. Para evitar maiores incômodos, a solução encontrada é amestrar a gente toda e trancafia-la em gaiolas sob as vistas daqueles que aprontam maracutaias a torto e direito. O entretenimento fajuto é o carro-chefe dos produtos concebidos pela indústria cultural. Ao passo que arrecada receitas absurdas para os cofres de quem o produz, afasta os olhares dos principais interessados daquilo que acontece debaixo dos panos. Aqui, na realidade.
Porém, voltando à marmita: nessa semana presenciei dois casos de censura, noticiados pela mídia. O primeiro, dado pela BBC Brasil, referia-se a um jornalista tailandês condenado a 11 anos de prisão por opor-se ao regime monárquico do País. “Ora, repreensão política é coisa do passado”, alguns diriam. Qual o quê. Prova esta que anda mais do que na moda. SomyotPrueksakasemsuk publicou, em março de 2010, dois artigos assinados com um pseudônimo que criticavam a monarquia. A poeira baixou, mas o assunto veio à tona novamente pela militância do jornalista em favor da mudança da “LèseMajesté”, lei que “imune” o rei e a família real de críticas públicas e pune quem as faça. É mole? Claro, ONGs em prol dos direitos humanos do mundo inteiro pronunciaram-se recriminando a condenação. Mas e o que fazer? Intervir na política tailandesa e devolver a liberdade (física e de expressão) ao jornalista. Imagina: questões diplomáticas seriam a justificativa para não fazê-lo.
O segundo caso proveio do universo cultural, direto da China, no online da Revista Rolling Stone. A viagem, longa dirigido pelo trio de peso Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski, teve 40 minutos, de um total de 172, vetados pela Administração Estatal Chinesa para Rádio, Cinema e Televisão (SARFT), órgão que fiscaliza o que pode e não pode ser exibido no País. A censura teria excluído as cenas de nudez contidas no original. Muitos aprovam. Outros chamam de hipocrisia. Os civis chineses, por sua vez, dão graças à pirataria: milhares de downloads da versão original já foram registrados.
Até quando a censura se arrastará é impossível dizer. Possivelmente para sempre, oscilando entre níveis críticos e brandos (e ainda assim preocupantes). O importante é que não sirva para intimidar: quem viveu a ditadura hei de concordar: zíper nos lábios nunca mais.