FURACÃO IRMA: “As orações foram fundamentais”, agradece projetista do Vale

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Atualizado há 9 anos

Literalmente, ele esteve no olho do furacão. Embora já tenha visto muito, superado outro tanto, e sobrevivido à tudo, certamente o que vivenciou no Caribe, jamais sairá da mente do projetista de União da Vitória, Marcus Vinicius de Alcântara Pereira, 49. Ele é um dos trabalhadores brasileiros que estevam na região, durante a passagem do furacão Irma, por motivos profissionais. Ao Brasil, chegou na quarta, 13. Desembarcou primeiro em Curitiba e finalmente, voltou para casa, em União.

Na quarta-feira, 14, ele esteve nos estúdios da CBN Vale do Iguaçu. Pereira estava trabalhando há 20 dias na Ilha de Anegada, com uma equipe de cinco pessoas. O grupo se abrigou em uma igreja, na Ilha Tortola, onde ficaram por uma semana. No local, outros 60 também buscavam proteção.

Nos microfones da emissora, o projetista contou o que viu, o que fez, e como teve sanidade par escapar ileso de um dos mais devastadores fenômenos climáticos já registrados naquela região.  Na semana passada, entre os dias 9 e 10, o furacão matou mais de 60 pessoas no Caribe e nos Estados Unidos. “Uma colabora nossa em Blumenau havia já falado sobre o furacão para a gente. Mas lá, os nativos da ilha, que já tinham passado por outras situações assim, disseram que não era tanto assim. Mas, quando eu vi a imagem de satélite que ela nos mandou, imediatamente tomei a decisão de evacuar a ilha. Percebi que o problema seria um baita problema e não só uma tempestade”, conta.

Isso aconteceu, de fato. O projetista e outros colegas deixaram anegada com um barco enviado pelo governo de Tortola. Eles foram exceções: enraizados, a maioria dos moradores não deixou o local. “Uma ilha de 250 habitantes, 117 ficaram”, conta. Já em Tortola, foram recepcionados por um outro grupo que levou os trabalhadores até à igreja, um ‘santo abrigo’, como o projetista. “Na primeira noite estávamos em 12 pessoas. Todo mundo apreensivo, mas sem se dar conta da intensidade. Na terça de manhã, chegou para nós a informação que o furacão passaria na quarta, na potência máxima. Na terça, foi chegando mais pessoas. Foram nos preparando para quarta, para a hora da verdade. Até então, não estava uma colônia de férias, mas a gente estava tranquilo”, lembra.

Na quarta, Pereira fez o último contato com sua família no Brasil. Foi por volta das 10 horas, quando começaram as primeiras rajadas de vento. “Eu tranquilizei eles mas avisei que ficaríamos sem comunicação e não sabíamos quando falaríamos novamente. De fato, foi o que aconteceu”, recorda. “As rajadas de vento tornaram-se mais fortes e às 15 horas, o furacão chegou ao seu pico máximo. A coisa ficou assustadora”, completa.

Embora o momento era de bastante tensão, o projetista conta que apenas seu grupo ficou mais preocupado. É que ele era o único estrangeiro; os demais abrigados, já conheciam, de certa forma, o efeito deste tipo de fenômeno. Durante a passagem do furacão, a igreja sofreu apenas pequenos danos – pequenos na comparação com o efeito do furacão em outros locais: telhas foram arrancadas, alguns vidros quebrados. “Gosto muito de ver filmes relacionados à história real. Acho que no fundo eu me preparava para uma situação dessas”, afirma.

O tempo todo, o pensamento era na família. O projetista tinha especialmente no coração o afeto de sua mãe, moradora de União da Vitória. “A primeira coisa foi realmente fortalecer os laços com a família”, sorri. Em momento nenhum, maus pensamentos dominaram as atitudes de Pereira. Seguro e como bom projetista que é, se certificou, assim que chegou ao abrigo, a resistência do ambiente. Certo de que o prédio resistiria, jamais pensou o contrário.

Resgate

Depois do furacão, chegava a hora de levantar os estragos. E o fenômeno não poupou ninguém: até o Corpo de Bombeiros e o posto policial havia sido destruído. A única forma de se comunicar a partir de então, era através da internet. O primeiro ponto próximo ficava à quatro quilômetros. “Todo mundo correu para lá. Centenas de pessoas estavam lá. Foi aí que conseguimos dar as primeiras informações. Por estarmos emocionados com o que vivemos neste trajeto, do abrigo até o ponto da internet, isso vai pesando. Eu não perdi nada, mas você via que as pessoas perderam tudo”, conta.

A falta de informação dificultou até mesmo o retorno para casa. “Recebemos a informação de que a FAB (Força Área Brasileira) iria recolher os brasileiros, isso e aquilo. Mas isso não se concretizou”, afirma. Novas informações chegavam, mas, como eram confusas, assustava ainda mais. “A gente ficou sabendo que o aeroporto do Exército Britânico não permitiria o pouso de pequenas aeronaves. Isso nos assustou porque não víamos outra forma de sair de lá. Mas formos até o aeroporto, que acabou recebendo os primeiros aviões. O resgate em si se deu na segunda-feira, através de um voo fretado. Saímos às 16h30 de Tortola, para Porto Rico. De lá, passamos a noite em San Juan”, detalha. Em San Juan, inicialmente, enfrentaram uma certa austeridade das autoridades. “No meio da madrugada, nos acordaram aos berros, algo totalmente desnecessário. Gerou uma desconfiança ali. Mas, com a graça de Deus, pegamos um avião para o Panamá e a coisa fluiu. Chegamos em Curitiba com toda a família nos recebendo. Foi só alegria”, sorri.

O projetista garante que o coração está no Caribe. Apesar do pouco tempo convivendo com desconhecidos no abrigo e também com os nativos das ilhas, garante que formou elos eternos ali. “Quando chegamos há cinco meses atrás em Tortola não conhecíamos ninguém. Saímos agora com uma família de no mínimo, 76 pessoas”, diz, emocionado. “As orações foram fundamentais para nos manter fortes”, encerra.

Fotos: Acervo de Marcus Vinicius de Alcântara Pereira

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