“Estamos focados em modernizar a gestão”

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Atualizado há 9 anos

Vicente Augusto Caropreso
Vicente Augusto Caropreso

Natural de Blumenau, Vicente Augusto Caropreso é médico neurologista há quase 40 anos. Serviu como tenente-médico no 23° Batalhão de Infantaria de Blumenau e logo depois se transferiu para Jaraguá do Sul, onde reside e exerce sua profissão desde 1984. Entre 1997 e 1999, atuou como vereador do município.

Foi deputado federal por Santa Catarina de 1999 a 2003 e em 2014 foi eleito deputado estadual. Na Assembleia Legislativa, foi presidente das Comissão de Proteção dos Direitos da Criança e do Adolescente e vice-presidente da Comissão de Saúde. Também foi membro das comissões de Prevenção e Combate às Drogas e de Proteção Civil. Em 16 de janeiro, licenciou-se do Legislativo para assumir o cargo de secretário de Estado da Saúde (SES).

Nesta entrevista exclusiva que concedeu à Coluna Pelo Estado, Caropreso fala dos muitos desafios que enfrenta para dar conta de todas as tarefas de uma das mais complexas secretarias. Ao final, fala um pouco sobre política e, em um tom quase enigmático, afirma que tem medo de aventureiros: “Não acredito em milagreiros. Tenho receio das confusões que poderemos viver com milagreiros que surgem do nada. Não sou radical e não gosto de radicalismos. A divulgação a esmo de mentiras e o radicalismo têm dominado as mídias sociais. Receio o que possa vir daí. Se não nos entendermos, os aventureiros vão se instalar. Estamos vivendo a pior fase do país, com justiceiros surgindo e conquistando seguidores”.

Leia a íntegra da entrevista em centraldediarios.com.br

[PeloEstado] – Que balanço faz desses nove meses à frente da SES?

Vicente Caropreso – A Secretaria de Estado da Saúde lida com um bem que não tem preço, mas promover saúde tem custos. Eu lido com uma situação surreal: a Constituição de 1988 deu direitos irrestritos, ou seja, são infinitas as demandas para um orçamento definido. Esse é um dos grandes desafios para qualquer um que sentar nesta cadeira. Encontrei aqui uma realidade completamente diferente da que vivemos em Jaraguá do Sul, que não tem uma presença tão forte ou essencial do Estado de Santa Catarina. Quando tem, são doações de órgãos estaduais ou federais, raros e fruto do prestígio de uma pessoa ou de outra que consegue aportar recursos, principalmente hospitais.

[PE] – Que realidade o senhor encontrou?

Caropreso – Aqui é totalmente diferente. Existem municípios e regiões em que a Saúde é completamente bancada pelo Estado, em seus três níveis (municipal, estadual e federal). O pensamento do empresariado e das pessoas é completamente diferente daquele que eu conhecia. Isso vai solidificando cada vez mais a impressão de que são três os níveis da saúde pública, mas só dá certo quando entra um quarto nível: o envolvimento da comunidade, do setor empresarial e do voluntariado. Aí sim as coisas vão bem. E isso é muito importante, porque as pessoas precisam saber quanto custa manter um hospital público, uma organiza- ção social (OS). E a repercussão desses custos para o orçamento de uma cidade! Existem municípios que verdadeiramente investem em saúde e outros que nada fazem, que viram as costas.

[PE] – Do que está falando?

Caropreso – Vou dar um exemplo – Florianópolis e São José. São municípios que recebem um grande aporte de recursos do Estado, porque ali estão as maiores estruturas hospitalares estaduais. Essas prefeituras gastam o mínimo na saúde, de uma maneira controversa com Jaraguá, Blumenau e outros municípios, onde não tem a participação tão intensiva do Estado. Há casos em que as prefeituras precisam aplicar o dobro do que é previsto em saúde, porque têm que manter plantão de UTI, de emergência e urgência. Essa situação é muito criticada, em Jaraguá do Sul, minha cidade, mas também em muitas outras que já percorri. Cobram a distribuição equitativa dos recursos da saúde. Sem o efetivo envolvimento das comunidades nas administrações hospitalares, cobrando e pressionando, esse quadro não mudará.

[PE] – Que outros desafios enfrenta no dia a dia da Secretaria?

Caropreso – O corporativismo e a dificuldade de gerenciamento dessas grandes unidades hospitalares são o meu maior desafio como secretário. Por causa da complexidade. Pequenos hospitais são mais fáceis de administrar, mas hospitais que fazem desde conserto de uma topada no dedo até um transplante de medula óssea… é muita coisa para gerenciar. E esses hospitais da rede pública estadual, que são 13, não têm praticamente nenhuma autonomia e ainda sofrem com a pouquíssima participação da comunidade. Alguns têm conselhos de voluntários que ajudam nos momentos mais críticos, entretanto, são exceção e não regra. Sozinhos, essas 13 unidades absorvem R$ 1,1 bilhão por ano de um orçamento geral de R$ 3,2 bilhões. Por outro lado, junto com as cinco unidades mantidas pelo Estado por meio de organizações sociais, totalizando 18 hospitais, cobrem 28% da população. O restante é atendido por hospitais filantrópicos, terceirizados, privados, municipais. Isso cria uma grande chiadeira, porque todo mundo gostaria de ter alguns equipamentos de ponta bancados pelo Estado ou remuneração por serviços muito melhor. E aí vem outro grande problema…

[PE] – Qual?

Caropreso – O custo, que é muito menor nos filantrópicos, me resolve mais do que um custo muito maior dos hospitais da rede pública e de OSs, que também são bancadas pelo público. Por isso estamos focados em modernizar a gestão, rever os contratos de gestão e implantar, pela primeira vez na Secretaria, o gerenciamento de todos os números produzidos pelos hospitais do Estado. Hoje, através do programa We Know (Nós Sabemos), temos controle sobre o tempo que uma pessoa ficou internada no pronto-socorro, quais as vagas de uma UTI, o tempo para o atendimento de uma pessoa em um pronto-socorro, quem é o médico e qual a sua produção, estoque de materiais e medicamentos, inclusive indicando a data de vencimento.

[PE] – No que esse controle ajuda?

Caropreso – Garante uma perspectiva boa de, pela primeira vez, fazermos um orçamento real. Estamos aplicando o sistema We Know há cinco meses e já economizamos, mantendo o mesmo nível de atendimento, R$ 50 milhões, em insumos, comprando melhor, contendo desperdício, controlando horas -extras. Por incrível que pareça, isso nunca tinha acontecido na Secretaria antes. E fizemos outros cortes. Reduzimos em 50% o nú- mero de terceirizados em funções não relacionadas à atividade fim, a prestação de serviços à população. O contrato, que era de R$ 4,5 milhões por mês, caiu para R$ 3 milhões. Sem perda das condições de trabalho. O Estado tem que cortar dentro da sua própria carne.

[PE] – Qual a sua meta como secretário da Saúde?

Caropreso – Deixar a área bem mais organizada e com uma polí- tica definida, processos que sejam mantidos independentemente de quem esteja secretário. Algumas coisas eu vou resolver, mas em um ano, não se pode resolver tudo. Temos situações agudas que exigem rápida solução, como transformar mais unidades próprias em OSs. Já estamos fazendo estudo de viabilidade técnica e financeira, para logo podermos tomar a decisão. A primeira deve ser a unidade de Ibirama e a segunda, a de Lages. Hospitais públicos estaduais, hoje administrados diretamente pelo Estado. As vantagens dessa mudança são a redução de custos com recursos humanos e a celeridade na compra ou manutenção de equipamentos, infraestrutura. No mínimo, é possível reduzir em 20% o custo. Mas tudo será feito de forma muito cautelosa para não haver prejuízo aos serviços prestados. A equação é lógica – atender mais pessoas com a mesma quantidade de recursos.

[PE] – Como o senhor está se sentindo dentro do governo? Fica até o prazo final para a desincompatibilização?

Caropreso – Política é como o céu, num momento está carregado de nuvens e noutro, limpo como céu de brigadeiro. Tudo vai depender do encaminhamento de várias situações. Politicamente, tenho um limite para suportar fatos negativos que possam afetar minha imagem, minha trajetória. Vamos ver como ficarão os repasses para a Saúde, que vão me dar condições de honrar os compromissos assumidos, sem sofrer mais constrangimentos. Nos primeiros quatro meses aqui, passamos por situações bastantes críticas. Meu relacionamento com o governador Colombo é muito bom. Só o que eu preciso é que me repassem, mensalmente, o que a Constitui- ção determina. Sem isso, vivemos situações de desgaste. Bilateral.

[PE] – Quais as suas pretensões para 2018?

Caropreso – Sou um pré-candidato à reeleição como deputado estadual. Está havendo alguma pressão para que eu concorra à Câmara dos Deputados. Vamos definir de acordo com o andar da carruagem. O importante é terminar bem o desafio na Secretaria.

[PE] – O senhor receia respingos do PSDB nacional na campanha estadual do ano que vem?

Caropreso – Todos os partidos tiveram problemas. O PT, o PSD, o PP, o PMDB… e o PSDB também, pelo suposto envolvimento do nosso presidente, o senador Aécio Neves. A grande tarefa do ano que vem não vai ser pedir voto, mas convencer o eleitor a sair de casa para votar. A política é um ato contínuo. É preciso estar muito bem, com a cabeça muito tranquila, para saber fazer essa ciência que é a política; tem que deixar muito claro quais as suas intenções, comprovar a sua biografia e trabalhar bastante. Não acredito em milagreiro. Tenho receio das confusões que poderemos viver com milagreiros que surgem do nada. Não sou radical e não gosto de radicalismos. A divulgação a esmo de mentiras e o radicalismo têm dominado as mídias sociais. Receio o que possa vir daí. Se não nos entendermos, os aventureiros vão se instalar. Estamos vivendo a pior fase do país, com justiceiros surgindo e conquistando seguidores.

[PE] – Que partidos o senhor prefere que estejam em aliança com o PSDB em 2018?

Caropreso – A minha preferência é que tenhamos a cabeça de chapa. Ponto (risos).

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