Rufem os tambores. Lancem os rolos de papel colorido e rasguem os pacotes de confete. O Carnaval chegou. A folia tem início hoje, sexta-feira, a fim de abrir concorrência ao Cartas da Província. Por gentileza, ignorem a pretensão. Desde guri senti-me atraído pela tradição do carnaval.
Não digo que seja por conta do sangue que corre em minhas veias. Sangue vermelho, com uma pitadinha, diz minha mãe, de África (o pezinho na senzala: intitula, sem preconceito, minha genitora). Encanta o ritmo do samba-enredo. Os surdos, de primeira, segunda e terceira, marcam o ritmo, alternados. As caixas-de-guerra vibram, junto dos tamborins e chocalhos, em consenso com o repinique a puxar o bloco. Uma beleza.
Muita gente, por outro lado, avessa-se à folia. Consideram um martírio. As escolas, o samba, representam um espetáculo do grotesco. Não são apreciadores de tal manifestação, que é cultura brasileira. Respeito a esses. Estão em seu pleno direito: de tapar os ouvidos e buscar refúgio nas colinas pelos cinco dias de festa.
Mas aos que gostam: desde 2009 passo o carnaval em Porto União da Vitória, sem exceção. Não faltei um ano sequer. Entre diversão, brindemos aos sorrisos. Da maioridade para cá, cerveja gelada é acompanhante indispensável. Mas o interessante vem de outra observação: como o espírito de carnaval toma conta das pessoas.
É engraçado. Festa, temos o ano inteiro. As mais variadas, para todos os gostos. Mas o carnaval tem um “plus a mais” (diria a professora Nilma, quando extrapolava na redundância bilíngue na esperança de alguém perceber e corrigi-la sem escrúpulos). Os foliões costumam dizer: “vou me guardar para o carnaval”. Músicas (composições brasileiras, há de se ressaltar), lembram o costume. O carnaval é esperado, e muito, por muita gente.
Das vantagens, os males. Gente que passa dos limites não falta. Na ânsia de aproveitar aqueles raros dias de folia ao máximo, esquecem que são de carne e osso. Os efeitos não tardam. Portanto é sempre interessante lembrar: é tênue a linha entre curtição e irresponsabilidade.
Porém, como o Cartas não é pai de ninguém, que siga o baile. O carnaval chegou e a alegria tomará conta das ruas. Assim como a solidão é importante para manter uma mente sã, compartilhar de abraços e gargalhadas altas como a lua não é pecado. Que abram alas para o espetáculo.
E que o samba corra até findar a festança. Todo carnaval tem seu fim, para as lamentações inconsoláveis dos foliões. Na próxima semana a prosa do Cartas da Província será outra. O carnaval terá adormecido, as baquetas serão baixadas e a rotina voltará ao habitual. Como ano passado. E como ano que vem. Carnaval em presença não falha.