
Leodoro Portela da Luz acabou de completar 80 anos. Mas não parece. Dono de uma simplicidade única, é um homem franzino, com sorriso fácil, muito fácil. Sabe contar histórias, usando detalhes precisos, do tempo de rapaz. Conquistou sabedoria com a vida, sabendo aproveitar o tempo, os minutos de cada dia, o gosto do alimento que vem da terra, do suor do trabalho.
Entre uma machadada e outra na lenha, Leodoro senta na varanda de casa, no interior de União da Vitória, na comunidade de Rio Vermelho. Se acomoda com a esposa, Júlia Chelenz da Luz, com quem compartilha a vida de casado há 56 anos. Eles criaram sozinhos, no mato, com poucos recursos, sete filhos. Era uma União da Vitória diferente, longínqua, quase inacreditável. Leodoro gosta de uma boa prosa, faz questão de contar coisas ‘daquele tempo’. “Nasci na Serra da Esperança, em União da Vitória, mas fui registrado em Paulo Frontin, porque era difícil chegar na cidade. Não tinha acesso. Da Serra para União não tinha como chegar”, conta.
Aos poucos, a família de Leodoro, por dentro das “picadas”, pequenos caminhos dentro da vegetação, foram chegando e criando raízes em Rio Vermelho. “Entrei na aula já com 12 anos, quando o prefeito, José Cleto, colocou uma escola aqui. A professora era Nair Rodrigues, que veio de Cruz Machado para dar aula. Deram uma sala, começamos a estudar. Na mesma turma tinha rapaz de 20 anos. Começamos no ‘a, e, i, o, u’”, sorri, sem esquecer do nome de ninguém. Na escola, conheceu a esposa. Foi paixão a primeira vista. Juntos, casaram e construíram uma família.
Era uma época difícil, onde o transporte era feito todo com os cavalos e carroças. Só para se ter ideia, hoje, o mesmo percurso, de Rio Vermelho até o centro de União da Vitória, de carro, leva cerca de 25 minutos. Na época do casal recém-casado – e antes também – o trecho era feito no lombo dos animais, em cerca de quatro horas. “Quando a gente ia para a cidade, era de cavalo, pegava a BR 476 e ia pela Ponte do Arco. A gente saia com a carroça carregada às 4 da madrugada e a gente vendia a produção. Tinha o ‘Gordo e o Magro’, na Professora Amazília, ou na dona Maria Schwartz. Vendíamos galinha viva, porco vivo”, conta Leodoro.
Na época, União era praticamente uma vila, sem asfalto ou calçamento. “Só terra. A primeira bodega foi ali onde era o Marcus Magazin. O Gabriel Niemes era mais pra gente. Tinha a Casa Branca, que depois virou a loja Flor da Vitória. Era só carroça. Não tinha poste, pouca casa, só terra”, lembra. Desse tempo, Júlia também gosta de falar. Conforme ela, os cavalos ficavam amarrados, para se alimentar – o “trato” dos animais era levado de casa também – e o casal podia fazer seus negócios e até visitar amigos e familiares. “Deixava a carroça cheia de coisa na rua. Podia tomar chimarrão que ninguém mexia. Ficava lá”, conta. Essas “viagens” para União da Vitória aconteciam sempre uma vez por mês, quando era preciso fazer compras ou negociar os produtos da roça.
A distância também obrigou o casal a se adaptar. No aspecto de saúde, por exemplo, Leodoro e Júlia aprenderam a usar as plantas como remédios. Em casos mais graves, não pensavam duas vezes: era hora de arrumar a carroça. “Em União da Vitória, depois, abriu uma farmácia do tal de Emilio Santana. Ele abriu um negócio tipo do Samu de hoje. Os doentes eram levados lá e ficavam em observação. Ele curava”, relembra Leodoro. Hoje, tem transporte coletivo todos os dias, com ônibus passando em frente da casa.
Só que nem sempre dava tempo de chegar na cidade. Foi por isso que apenas a partir do quarto parto, que os filhos nasceram no hospital. Um deles, inclusive, nasceu na estrada, na carroça. “Não tinha luz, tudo no escuro. A Maria Ivonete nasceu na estrada”, sorri Júlia. “Na época, não tinha pré-natal, nada. Não tinha nem dinheiro para comprar fralda. Era sofrido. Mas todos cresceram bem, com saúde”, completa. Para tomar conta das crianças – e ajudar até no parto de alguns – Júlia contava com a ajuda de sua mãe, uma parteira de mão cheia.
Na época da juventude, nem tudo era só trabalho. Já sabendo aproveitar o melhor da vida, o casal se divertia. Antes, contudo, conversava com Deus, embora ficar mais perto Dele também era complicado. A igreja mais próxima ficava na comunidade de São José, distante cerca de dez quilômetros da casa deles. Para estar presentes às missas, todo mês, se organizavam. “Saíamos cedo, caminhando umas duas horas e meia. A catequese foi lá. Saia de madrugada para pegar a catequese às 8 horas”, conta Leodoro. “Mas tinha festa, tinha baile. A gente ia nos bailes”, (risos), completa.
E desse tempo, Leodoro lembra como se fosse ontem, do ‘Chimango Doce’. Era um momento dentro da festa, onde as mulheres ‘menos favorecidas de beleza’ tinham a chance de tirar um homem para dançar (na época, apenas os homens escolhiam com quem dançar). “O dono da casa invertia. Ele pegava um lenço do bolso e dava seis marcas (músicas) de Chimango para elas escolherem alguém. E daí, era Chimango Doce. Tinha que pagar umas balas e uma gasosa. Quem não tinha dinheiro, corria lá pra fora na hora que anunciavam”, ri Leodoro.
Boa saúde
A memória boa, o riso fácil e o jeito tranquilo de encarar os desafios da vida podem estar associados com os hábitos de alimentação do casal. Eles não usam, por exemplo, óleo vegetal para o preparo das refeições. Na verdade, o produto é substituto por banha de porco, iguaria presente em praticamente tudo o que é feito na cozinha. “Óleo só para salada. A gente usa a banha em tudo o que é coisa. Com certeza é a melhor coisa. A banha é muito bom. O leite e o toucinho de porco diz que mata. Eu só como gordura e estou bem. Fiz exame de tudo e não tenho nada”, orgulha-se Leodoro.
Além de um câncer na boca – já curado – apenas um outro episódio, há mais de 20 anos, está no registro de saúde do agricultor. Só que, contrariando todas as explicações, ele garante que foi justamente durante o ‘apagão’ que teve por alguns dias, após um AVC, que “remoçou”. “Fui dormir numa quarta e só acordei segunda-feira, três horas da tarde. Não vi nada. Depois daquele negócio eu virei piá. Tudo o que eu vivi de criança me veio tudo de novo. Parece que a gente tem que meio que morrer para viver de novo”, ensina. Hoje, bem vivo e agora com a companheira, Leodoro reserva todos os dias um tempinho para o sono depois do almoço. “Almoço e descanso um pouco”, conta.
O Coronel Amazonas
Leodoro tem intimidade com o assunto e, quando era mais jovem, teve contado com o fundador de União da Vitória (veja mais no quadro). Na verdade, segundo o agricultor, o terreno onde mora e outros alqueires próximos, foram comprados do Coronel. “Ele tinha uma morada aqui. Uns diziam que ele era ruim. Eu via ele como um pai. Todo mundo plantava e colhia no terreno dele”, pontua. Em um episódio em que nega ser o coadjuvante, Leodoro conta que o Coronel foi “manso”. “A criação dele incomodava e um dia acharam que eu tinha cortado a crina de um dos cavalos dele. Mas nem fui eu”, sorri.