PÁSCOA: Para ucranianos, benção dos alimentos é o ponto alto da comemoração

No Vale do Iguaçu, cerca de mil famílias descentes da etnia lembram, em todos os detalhes, de uma das datas mais importantes da fé cristã

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Atualizado há 9 anos

Quem tem no sangue a descendência europeia, de modo geral, vive com mais intensidade as datas marcantes do ano. É com intensidade e com detalhes que surgem maneiras de ficar mais próximo do País de origem dos pais ou dos avós.

Na região do Vale do Iguaçu, a celebração da Páscoa, uma das datas mais importantes para os cristãos, também é enaltecida entre os fiéis, inclusive da igreja ucraniana. São famílias que vivem a Quaresma, fazem mais dias de jejum, que bordam as cascas de ovos, que sentem na data e em cada pedacinho dela, o renascimento de Cristo. Tudo, ao melhor modo étnico de ser. “A igreja ucraniana do Brasil é também católica. Ela é diferente nos costumes e tradições. Uma das grandes diferenças é na celebração pascal”, explica o pároco da igreja São Brasilio Magno, de União da Vitória, padre Josafá Firmann.

Ao longo dos 40 dias da Quaresma, por exemplo, os ucranianos fazem a via sacra e, nas celebrações, os falecidos são lembrados com mais intensidade. “Também, a gente procura fazer o jejum e a penitência nas quartas e nas sextas-feiras. A igreja latina é apenas na primeira semana e na Semana Santa. Nós, é toda a semana, duas vezes”, observa. Seguindo o calendário gregoriano, como a igreja católica latina, a Páscoa cai na mesma data: 1º de abril. “Na Ucraniana, o calendário é o Juliano e dá, por isso, duas semanas depois a celebração da Páscoa”, lembra o padre.

Conforme o pároco, há na região do Vale do Iguaçu, envolvendo algumas cidades próximas, cerca de mil famílias com ligações ucranianas que ainda mantém o ritual da Páscoa.

Benção dos alimentos

O tradicional gesto da ‘cesta de Páscoa’ realizado no Domingo de Páscoa, que também ocorre na Igreja Católica Latina, retrata um dos pontos altos das celebrações entre os ucranianos. A cesta de Páscoa é igual, mas os ucranianos colocam muito mais itens dentro dela. Um deles é essencial: a Paská, um pão especial, preparado com levedura doce, rico em ovos e manteiga, decorado com uma trança de massa e uma cruz no centro, que lembra a Paixão de Cristo. “Este pão simboliza Cristo, que é o verdadeiro pão para os cristãos. Este pão é sempre redondo. Na cesta vai também a pêssanka, que foi preparada na Páscoa. Ele simboliza a vida nova. Vai ainda o pão doce, a babka, sal, manteiga e requeijão”, detalha o padre. No Brasil, alimentos típicos do País também são incluídos. Isso abrange o chocolate e até carnes. A cesta abençoada é para o café da manhã, mas na verdade, acaba se tornando um grande banquete.

Para a família de Vilson Kotviski, moradora de União da Vitória, a benção dos alimentos é, sem dúvida, algo muito especial. “Acho que esta é uma das partes mais marcantes, pois são alimentos para consumir no café da manhã da Páscoa. Então criamos o ambiente, com os aromas e sabores que nos remetem à nossa infância, e é isso que nossos filhos sempre lembrarão da Páscoa”, conta Vilson.

Chocolate

Sim, o doce também tem sua vez na celebração dos ucranianos. Tanto que na benção dos alimentos, o ovo de Páscoa, de chocolate, também é incluído. Padre Josafá, entendendo o efeito lúdico da iguaria para os baixinhos, é simples neste entendimento. “Claro que na Catequese a gente trabalha outros valores, mas o chocolate acaba entrando. É algo imprescindível para as crianças. É ovo também tem o mesmo simbolismo, mas é doce, feito de chocolate”, sorri.

Pêssankas

O ovo pintado é de origem eslava e uma das maiores tradições do povo ucraniano e que na Páscoa, acaba ganhando mais visibilidade. “A palavra pysaty, para pêssanka significa escrever. Então são ovos escritos nas mais variadas formas. São ovos coloridos, com os mais diversos traços”, ressalta o religioso. Na data, é costume entre a comunidade ucraniana, dar o ovo decorado como presente. A arte tem milhares de anos, quando os ovos eram preparados para presentear divindades, no início da Primavera. Com a chegada do Cristianismo, a pêssanka passou a simbolizar a Páscoa e a ressurreição de Cristo. “As tradições ucranianas são vivenciadas de forma muito natural, desde as celebrações litúrgicas da nossa igreja, até as celebrações mais íntimas realizadas em família. Nossos filhos fazem suas próprias pêssankas”, explica Kotviski.

A arte chegou ao Brasil pelos imigrantes ucranianos e, especialmente no Paraná, se desenvolveu, onde, segundo a Representação Central Ucraniano-Brasileira, está a maior concentração de descendentes ucranianos do País. Dos quase 500 mil descendentes ucranianos espalhados, cerca 400 mil residem no estado. Apenas em Curitiba, são 55 mil e o maior percentual está em Prudentópolis, onde fazem parte de 75% da população. Os traços nos ovos, que podem ser de qualquer ave, são feitos com cera de abelha derretida e a pintura é feita por etapas. A gema e a clara são retiradas delicadamente através de uma seringa.

 

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