
Embora esteja evoluindo, o assunto ‘acessibilidade’ ainda é uma barreira no Vale do Iguaçu. É quem nem todos os ambientes, nem todas as calçadas, estão preparadas para atender quem está em uma cadeira de rodas, quem empurra um carrinho de bebê, quem tem mais idade ou alguma dificuldade para se locomover. Ainda há pedras no caminho.
Sobre o assunto, o jovem advogado Sthefan Andrey Willens, cadeirante desde os 16 anos, falou para a CBN Vale do Iguaçu. A entrevista foi ao ar na sexta, 16, (veja quadro), no programa ‘CBN Tarde de Notícias’. “Todas as pessoas que tem alguma dificuldade precisam de acessibilidade. Na nossa região, ela está sendo deixada de lado. É algo difícil para a gente trabalhar hoje em dia”, afirma.
Willens, embora tenha bastante autonomia, precisa de ajuda para determinadas situações. Por isso, todo acesso adquado é bem-vindo. “Sinceramente, hoje, a acessibilidade não é a das melhores nas nossas cidades. Temos rampas altas demais, rampas que dão em bueiros. As calçadas são difíceis, tem muitas quebradas, sem acesso. Isso eu vejo não só por eu ser cadeirante, mas tenho amigos que não conseguem nem passear com o filho, no carrinho, porque o carrinho trepida nos buracos”, aponta. “Ainda é precário, falta muito”, completa.
Nas adaptações, o advogado cita como exemplo positivo, por exemplo, o Fórum de União da Vitória, que tem acesso para o primeiro piso (embora o Tribunal do Júri só tenha escadas); a prefeitura de União da Vitória, que tem rampa e elevador e todos os hospitais. “A Promotoria Pública também, hoje, possui acesso. É um órgão acessível para todos”, sorri.
Avançar é preciso
Quem tem dificuldade para se locomover, poderia fazer um chekin list de como seria uma cidade acessível. Na entrevista, Willens deu a receita que molda todo este conceito. “Entendo como acessibilidade, quando você faz com quem alguém que tem dificuldades, consiga fazer o que ser quer sozinho, sem ajuda”, explica.
O advogado sentiu na pele, em duas ocasiões marcantes, o impacto do efeito contrário disso. “Uma vez, no primeiro ano de faculdade, quando o professor nos levou para assistir uma sessão na Câmara de Vereadores em Porto União. Tinha um elevador que não funcionava. Um funcionário nos disse que eu poderia ouvir a sessão do primeiro piso, sem subir. Aquilo causou uma revolta geral. Meus amigos subiram, me ergueram, e eu assisti a sessão. Fiquei bem chocado”, conta. Outro episódio foi na Rodoviária de União da Vitória. “Eu queria chamar um taxi e ele disse que não me levaria porque a cadeira poderia sujar o carro dele. Me senti um fardo, uma pessoa inútil”, lamenta.
Câmara de Vereadores
As duas Câmaras de Vereadores, de União da Vitória e Porto União, ficam no centro da cidade. A de União da Vitória, na Praça Alvir Riesemberg, e a de Porto União, na Praça Hercílio Luz, no prédio da Estação União. Igualmente, as sessões das duas acontecem no segundo andar. Em Porto União, as dificuldades de acesso já foram motivo de muito debate, inclusive porque um dos vereadores, eleito em 2016, é cadeirante.
Em Porto União, já está em estudo a descida do plenário, para o primeiro piso, ou a adequação dos ambientes. Para esta segunda ação, os vereadores dependem de autorização da Fundação Catarinense de Cultura, já que o imóvel é tombado. “Contratamos projeto arquitetônico, conforme nos foi orientado e também buscamos orientação dos Bombeiros, para realizar tudo em conformidade com a Legislação Federal e as normas de segurança”, explica o presidente da Casa, Christian Martins. “A ideia principal seria descer o plenário. Isso não foi possível por falta de espaço e uma coluna de sustentação que não pode ser interferida em hipótese alguma”, confirma. Há alguns anos, os vereadores também pensam na mudança de endereço da Câmara.
Na Câmara de União da Vitória, as obras de acessibilidade foram feitas na legislatura anterior, o que já mudou muito o aspecto do imóvel. Na frente do órgão tem duas vagas especiais no trânsito, as rampas foram melhoradas e para o acesso ao plenário tem elevador. Para quem é surdo, a Câmara investiu também na contratação de uma intérprete na área de Libras, a Língua Brasileira de Sinais. “Toda sessão plenária temos nossos colaboradores na recepção, para receber qualquer pessoa que precise usar o elevador. Temos uma porta de vidro que fica fechada, mas sempre tem um atendente para dar atenção. Isso foi algo pensado também para dar essa acessibilidade”, afirma o presidente da Casa, Almires Bughay.
Advogado sofreu acidente aos 16 anos
“A idade da loucura, onde as pessoas querem fazer coisas perigosas. Corria de motocross, tive uma lesão na coluna. Perdi meu chão, foi difícil de assimilar. Tudo mudou. Tive que aprender a viver, foi um período bem difícil para a família, para os amigos. Até o andar de cadeira era algo muito difícil. Naquele mesmo ano, em 2009, fui para o Hospital Sara Kubitschek, em Brasília, um hospital de referência para pessoas que sofreram alguma lesão medular. É um hospital público, não gastei R$ 1 para ir até lá fazer o tratamento. O hospital me mostrou como viver de novo: desde calçar um sapato, a trocar a roupa, a tomar um banho, me alimentar. Isso me tornou independente, o que foi muito bom. A vida mudou. Aprendi muito, consegui fazer o que eu não conseguia. Foi um recomeço”.
Nota da Redação
O advogado teve dificuldades para chegar até a emissora. Apenas na calçada do Grupo Verde Vale, onde fica a CBN, teve mais conforto. A emissora, que fica no centro de União da Vtiória, está em um ambiente acessível, com rampas antiderrapantes e portas largas, que permitem a passagem de cadeiras de rodas, por exemplo.
Entrevista
Quer ouvir o bate-papo completo? Basta acessar a página do Portal www.vvale/cbnvaledoiguaçu, e procurar pelo tema. É bem fácil e está acessível de forma gratuita.
MP se manifesta
Tão logo a entrevista foi colocada no ar na Rádio CBN Vale do Iguaçu, o Ministério Público (MP) de Porto União se manifestou. Uma equipe procurou diretamente o advogado para que, juntos, conversem mais sobre o tema. Além disso, o MP quer fazer um levantamento das irregularidades e, depois disso, notificar os proprietários e a prefeitura.