
Embora as estatísticas mudem com o tempo, o consumo de drogas ainda é algo preocupante, tanto do ponto de vista da segurança quanto na esfera de saúde pública. Não muda também o primeiro passo de entrada neste caminho que, por vezes, não tem volta: o álcool continua sendo o produto que abre portas para as demais drogas. A bebida, lícita, vendida em qualquer esquina, pode despertar em pessoas com tendências à dependência, a vontade de ir além. Este foi um dos eixos abordados em um evento específico sobre o tema, realizado no auditório da OAB de União da Vitória, para lembrar o dia 26 de junho, Dia Mundial de Combate às Drogas.
O encontro que colocou no mesmo ambiente profissionais dos mais diferentes segmentos, teve uma conclusão comum: a bebida, vendida livremente – a Lei impõe o limite de 18 anos – é, de fato, o pivô de qualquer ação que se faça para reverter o cenário onde os usuários são protagonistas. Os profissionais avaliam que a compra de bebida, por ser fácil e barata, abre caminhos. O resultado pode ser desastroso. Sincero e bastante enfático, o delegado da 4ª SDP de União da Vitória, Douglas Carlos de Possebon e Freitas, disse que acha o combate difícil até mesmo, sem esperança. “Estamos combatendo especialmente a droga ilícita mas o álcool é tão maléfico quanto a maconha, por exemplo”, disse. “O combate às drogas é a prevenção. Você tem que falar o tempo todo que a droga faz mal para que a pessoa não experimente”, completa.
Salete Venâncio, que há anos está à frente da Associação de Apoio para Dependentes do Álcool e outras drogas (Adad), com sede em União da Vitória, mobilizou o encontro da noite de terça, 26. Ela também concorda com o delegado de União da Vitória, e aponta o álcool como estopim. “Dificilmente, eu diria, 0,1%, quem usa droga sem ter usado primeiro o álcool. Ele é o condutor, infelizmente”, afirma.
O usuário
No encontro, a médica Margarete Olivo, foi a palestrante principal. Ela afirmou que o uso de drogas é uma patologia e precisa ser tratada como saúde e segurança pública. “No enfrentamento das drogas é preciso trabalhar com estas duas perspectivas, com a diminuição da oferta e da procura”, afirmou.
De maneira assustadora, o perfil do usuário vem mudando. Por exemplo, na região do Vale do Iguaçu, a Clínica HJ, em União da Vitória – uma das referências regionais no tratamento deste tipo de doença – registra situações de atendimento até de crianças com menos de dez anos já envolvidas com o uso de entorpecentes. O dado foi mencionando, inclusive, na sessão de segunda-feira, 25, da Câmara de Vereadores do município. “A droga está aí e cada dia que passa o número de usuários aumenta muito. No HJ, temos crianças com nove, dez anos, que já estão fazendo uso”, confirma Salete. O usuário não está apenas entre os mais pobres. A droga penetra em ambientes mais sofisticados, embora os casos entre os mais ricos sejam velados.
Não é à toa que conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), as drogas causam cerca de meio milhão de mortes anuais. “É importante discutir o tema, porque ele é sonegado na sociedade, ainda. Para problemas complexos, precisamos de soluções mais precisas e dialogadas”, defende o juiz da Vara da Infância e Juventude de União da Vitória, Carlos Mattioli.
Pelo mundo
Em 2016, cerca de 5% da população adulta, ou 250 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos, usou pelo menos uma droga em 2014, de acordo com o último Relatório Mundial sobre Drogas divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). O relatório (veja o quadro) sugere que o número de pessoas que apresentam transtornos relacionados ao consumo de drogas aumentou desproporcionalmente pela primeira vez em seis anos. Existem hoje mais de 29 milhões de pessoas dentro dessa categoria — em comparação aos 27 milhões divulgados anteriormente.
Além disso, cerca de 12 milhões de pessoas usam drogas injetáveis e 14% destes vivem com HIV. Esses dados revelam que o impacto do uso de drogas na saúde continua preocupante.
Enquanto a mortalidade relacionada ao uso de drogas manteve-se estável em todo o mundo, em 2014 ainda havia cerca de 207 mil mortes relatadas: um número inaceitavelmente elevado de mortes que teriam sido evitadas se intervenções adequadas fossem tomadas.
Cerca de um terço destas mortes ocorreram por overdose. A taxa de mortalidade por overdose é bem mais alta entre egressos que recentemente saíram do sistema prisional, se comparada com a população em geral.
O consumo de heroína – e as mortes por overdose relacionadas – parece ter aumentado drasticamente em alguns países da América do Norte e Europa Ocidental e Central.
A maconha, por sua vez, continua sendo a droga mais usada ao redor do mundo. Dados de 2014 mostram que cerca de 183 milhões de pessoas fizeram uso da droga naquele ano.
O relatório também destaca a associação entre o uso de drogas e uma maior vulnerabilidade às doenças sexualmente transmissíveis. Por exemplo, a ligação entre o uso de estimulantes – entre eles, as novas substâncias psicoativas que não estão sob controle internacional – por via injetável e não injetável e sexo desprotegido, o que pode resultar em uma maior vulnerabilidade à infecção pelo HIV.
Em geral, homens são três vezes mais propensos a usar maconha, cocaína ou anfetaminas, enquanto mulheres estão mais inclinadas a fazer uso de tranquilizantes não receitados. Diferenças de gênero no uso de drogas são mais atribuídas a oportunidades sociais de uso e menos a homens ou mulheres serem mais ou menos suscetíveis ou vulneráveis ao seu uso. Apesar de mais homens usarem drogas do que mulheres, o impacto do uso é maior nas mulheres do que nos homens, porque as mulheres tendem à falta de acesso à prestação de cuidados continuados na dependência do uso de drogas.
No contexto familiar, parceiras e filhos de usuários de drogas são também mais propensos a serem vítimas de violência relacionada ao uso de droga. Ainda que muitos estudos mostrem uma maior prevalência do uso de drogas entre pessoas jovens do que em adultos, a divisão de gênero não se mostra mais tão presente.