VALE DO IGUAÇU: Tentativas de suicídio preocupam autoridades de segurança

Só neste ano foram registradas 19, e um caso consumado em União da Vitória

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Atualizado há 7 anos

(Foto: Mariana Honesko).
(Foto: Mariana Honesko).

Tristeza, melancolia, silêncio e um desejo de acabar com tudo. As atitudes extremas como a tentativa de suicídio, são reflexos de vários fatores, entre eles a depressão, o bullying, a sexualidade ou a estrutura [ou a falta dela] familiar. Em tempos de conexões sem fronteiras pelas redes sociais, a solidão está cada vez mais presente pela falta de contato humano. A maior preocupação segundo especialistas é identificar e prevenir casos de tentativas ou consumação de suicídios.

O Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de União da Vitória é referência no atendimento de casos de tentativa de suicídio. A maioria dos casos exige acompanhamento profissional. O enfermeiro e coordenador da unidade, Vinicius Karpavicius da Luz, destaca que é possível identificar preventivamente casos potenciais desta natureza. “O corpo por si só fala, ele dá sinais. É claro que não são todos possíveis de se prever. É igual um terremoto: você sabe que vai acontecer, mas não sabe aonde. Mas existem alguns sinais que o corpo dá, e as pessoas ao redor podem observar”, explica.

Um deles é o isolamento do convívio familiar, social, na escola, e no trabalho. “Há casos que a pessoa não quer mais trabalhar”, comenta.

Acompanhado disso, não raro, vem o envolvimento com o álcool, drogas, e, em certos casos, a automutilação. Para Vinícius até o clima influencia. “Vivemos em uma região em que o sol não está presente constantemente. Esse clima acinzentado, também contribui para a depressão, que é umas das causas mais fortes de tentativas ou suicídios consumados”, afirma. “É a velha história: ‘mente vazia, oficina do diabo’. Quando a pessoa não consegue exteriorizar seus pensamentos e acaba ficando introspectiva e começa a ter pensamentos de acabar com seu sofrimento tirando a própria vida”.

Normalmente quem procura o Caps é algum familiar, amigo, namorado, alguém da igreja, ou da própria escola da pessoa. “Ela por si só não procura atendimento, alguém vai encaminhá-la até nós”, enfatiza o coordenador.

Conforme a assistente social do Ambulatório de Saúde Mental, Márcia Beatriz Leal Gasino Ribas, a maioria dos casos é de pessoas em período de transição, na entrada da adolescência, por exemplo, ou aqueles que saem da vida adulta para a terceira idade. “Essas mudanças na vida podem ocasionar um desequilíbrio. Por isso existe essa proposta de ajuda nesta hora. Há a questão hormonal, dos adolescentes que entram na fase adulta e dos adultos que entram na velhice, é quando os hormônios vêm, no caso dos jovens ou quando vão embora, no caso dos idosos”, explica.

A juventude

Um fato importante apontado por Márcia Beatriz, é que as cidades do Vale do Iguaçu, oferecem poucas em opções de diversão saudável para os jovens. “Se tivéssemos mais diversão, arte para crianças, adolescentes e adultos, poderíamos estar protegendo essas pessoas com relação a pensamentos depressivos. As cidades oferecem pouco desse tipo de qualidade de vida, da alegria de viver. Os pais vivem sobrecarregados e as vezes não podem dar a atenção necessária para os jovens e idosos”, opina.

Questões como o bullying também são abordadas como fatores de contribuem à tentativa de suicídio. “É um fator agravante até para a consumação de um ato extremo. As pessoas de uma maneira geral trocam o contato olho no olho, as amizades pelas amizades virtuais. É um paradoxo: a pessoa tem milhares de ‘amigos virtuais’, mas não conversa com seu vizinho ou com seus colegas de escola”, diz Márcia.

Os profissionais do Caps recomendam que as famílias prestem mais atenção na linguagem corporal e nas atitudes de seus. “Na menor alteração, procure o Caps, ou acompanhamento psicológico, para prevenir”, alertam.

Os casos

Apenas neste ano, pelo menos 19 pessoas já tentaram tirar a própria vida em União da Vitória. Os dados são do Corpo de Bombeiros local. Do total, apenas seis ocorrências não foram registradas nas três pontes Machado da Costa, a Ponte de Ferro, Domício Scaramella e Interventor Manoel Ribas (a Ponte dos Arcos). No ano, houve um ato consumado de suicídio.

Em 2018, foram registrados 29 casos de tentativas ou de consumação do ato. Três pessoas tiraram a própria vida na cidade.

O comandante do Corpo de Bombeiros de Porto União, capitão Marcos Luciano Colla, diz que é difícil fazer uma estatística mais precisa no município. Ele afirma que como as cidades são vizinhas, pessoas de Porto União usam as pontes de União da vitória para tentar o ato extremo. “Não temos um código específico para suicídio ou tentativa que pudéssemos pesquisar. O que temos é um código de ocorrências psiquiátricas relacionados aos casos de tentativas de suicídios, neste caso, temos 19 casos em 2018 e 11 casos em 2019. Os suicídios se enquadram em Óbitos no local junto com outras ocorrências não tem como aferir com certeza”, justifica.

O comandante interino do 27º Batalhão de Polícia Militar (PM) de União da Vitória, capitão Juvêncio, diz que a corporação dá o primeiro atendimento, ou presta apoio ao Corpo de Bombeiros nestes casos, mobilizado policiais e viaturas até o encerramento dessas ocorrências.

Não é raro, segundo ele, tirar a viatura de um local para atender aos casos de pessoas que ameaçam saltar de qualquer uma das três pontes. “Sempre temos que isolar o local, colocar policiais para conversar com as vítimas e garantir que os bombeiros tenham segurança e calma para fazer seu trabalho”, explica.

Da mesma forma, a PM de Porto União atua. São mobilizados homens e carros, há o isolamento do local e muitas vezes são os próprios policiais que imobilizam os envolvidos. As ocorrências nas duas corporações são identificadas como “apoio a outras corporações”.


“A vida é muito rápida e as vezes, o daqui há pouco pode ser tarde demais”


Perfil

Um grito de socorro. É assim que especialistas como os voluntários do Grupo União Pró Vida (UPV) costumam denominar os casos de tentativa de suicídio. No Vale do Iguaçu, a estrutura atende em média 60 pessoas, boa parte delas, com tendências suicidas.

Jonas, 75, voluntário no Centro de Valorização à Vida (CVV) Rio de Janeiro desde 1980 e atuando desde 2004 no Vale do Iguaçu, conta que o União Pró Vida promove palestras nas escolas e nesses eventos identificam adolescentes com tendências.

Muitas meninas e meninos com pouca idade procuram os palestrantes antes ou durante as palestras para conversar, contar que se automutilam, pensam em acabar com a própria vida e relatam casos de tristeza profunda. E os motivos para os atos extremos são muitos: desde abusos sexuais, violência familiar, drogas, bullying e dificuldades de se ajustar no atual conceito de sociedade.

Ainda segundo o especialista da entidade, a maioria das pessoas que pensam ou tentam o suicídio são adolescentes ou jovens em idade escolar fundamental ou médio, até a faixa de 30 anos. Jonas conta ainda que os homens consumam o ato com mais facilidade pela força física. Por outro lado, as mulheres, são as que tentam mais vezes.

Caps, Cras e UPV

União da Vitória, Porto União e os municípios que compõe a regiões possuem estruturas como os Caps, onde o usuário recebe atendimento próximo da família com assistência multiprofissional e cuidado terapêutico conforme o quadro de saúde de cada paciente.

Nesses locais também há possibilidade de acolhimento noturno e/ou cuidado contínuo em situações de maior complexidade.

Já o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) é a porta de entrada da Assistência Social. É um local público, localizado prioritariamente em áreas de maior vulnerabilidade social, onde são oferecidos os serviços de Assistência Social, com o objetivo de fortalecer a convivência com a família e com a comunidade.

O UPV é da família do Centro de Valorização à Vida (CVV), mas, remodelado. Ele é mais flexível quanto aos horários, por exemplo, e não exige a realização intensa de cursos de capacitação.

O potencial menor em número de voluntários, também motivou a alteração. São pessoas que, pensando na saúde mental de um desconhecido, doam um gesto simples, esquecido na correria do dia a dia: ouvir. “A vida é muito rápida e as vezes, o daqui há pouco pode ser tarde demais”, lembra Jonas.

Atualmente, a estrutura tem menos do que precisa. De 2017 a 2019, atuaram 30 voluntários. Hoje são poucos com a especialização necessária.  Pelo menos cinco novos participantes estão em fase final de formação, e a entidade ainda anuncia cursos de “Escutatório”, com 3 horas/aula para treinar pessoas para aprender escutar e interagir com os interessados.

Houve uma lacuna, entre 2004 a 2009, quando o CVV deixou de funcionar, até o nascimento do UPV.

Serviço

Para contatar o UPV, basta ir até o terminal Rodoviário de Porto União, no piso superior ou ainda usar o telefone fixo 3523 7217 e o WhatsApp, pelo número 99138 1647 em qualquer horário.

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