
Cinquenta anos de história. Não é à toa que o encerramento das atividades deixa o coração dos fregueses já com saudades; o dos funcionários ansiosos e o dos proprietários, cheios de emoção. Mas é o fim de um longo ciclo, de muitas conquistas, de muitas narrativas, de amizades em torno do cafezinho, da fome saciada com um misto-quente. A Padaria D’Glória, no coração da Avenida Manoel Ribas, encerra hoje, suas atividades.
A decisão é recente, tomada oficialmente no dia 1º, mas que vinha sendo avaliada há aproximadamente quatro anos. Colocando os “pingos nos is” e avaliando prós e contras, a família Frost, que administrava o empreendimento há 25 anos, numa herança da matriarca, Irene Maria Hirzinger, decidiu pelo ponto final. Não foi fácil, garantem eles, porém, consciente.
“Eu e a Adriana, minha esposa, estamos à frente da padaria há 25 anos. A decisão foi minha e dela. Sentamos, conversamos bastante. Já estávamos falando muito com a equipe da loja que vai entrar aqui, conversamos, acertamos os negócios. Temos que pensar um pouco na própria família. Foi isso o que nos ajudou. Vai ser daqui para melhor. O ciclo da vida muda e o nosso vai mudar agora”, conta, emocionado, o empresário, Gerson Frost. O espaço onde funciona a padaria será administrado pelos empresários da Casa Estrela.
A padaria fica em um cantinho especial da cidade – e no coração de muita, muita gente. Quem nunca tomou um café no copo de vidro, comeu um pastel frito na hora ou pediu um pão na chapa, que atire a primeira pedra. Mais do que alimentar, a D’Glória garantiu os pãezinhos quentinhos na casa de inúmeras famílias e foi palco para centenas de discussões sobre o futuro do Vale do Iguaçu.
Conhecida como a “boca maldita” (leia sobre isso no quadro) de União da Vitória, a padaria concentrava, especialmente aos sábados, políticos, pescadores, candidatos, enfim, grupos dos mais váriados níveis, condições e opiniões, para jogar conversa fora. “O pessoal apelidou como ‘boca maldita’. Sábado é uma muvuca, uma bagunça gostosa, até com desavenças na calçada. Aqui se fala de tudo, mas sempre o que prevaleceu foi a amizade”, diz o empresário.
O encerramento é, de fato, o fim. Neste momento, a família não sinaliza interesse em abrir um novo empreendimento comercial, tampouco, no ramo de panificação. Gerson e Adriana pensam em mudanças, inclusive, de endereço. A ideia iria ao encontro da demanda dos filhos, que concluem em breve seus estudos. Para deixar tudo em dia, a família Frost organizou o remanejamento dos funcionários, que devem ser absorvidos pelas empresas dos irmãos, ambos, donos de padarias no Vale do Iguaçu. Ainda assim, se trata de uma despedida e como tal, mexe com as emoções. Os colaboradores, no trabalho do penúltimo dia da padaria, quando a reportagem esteve no espaço, atendiam os fregueses secando as lágrimas.
BOCA MALDITA
É uma confraria em Curitiba e por conta do contexto, é associado aos locais em que seus membros se encontram para discutirem os assuntos do momento
Na página final, gratidão
Irene, que herdou do pai a vocação para os negócios de panificação, não conteve as lágrimas ao conversar com a reportagem. Menina, cresceu atrás do balcão, mexendo nas receitas, no leite, nos pães. Cresceu, casou, criou seus filhos como foi criada: dento da padaria.
Para ela, que não estava integralmente presente na gestão da D’Glória mas fundou o empreendimento, a despedida já deixa saudade – e gratidão. Irene defende o amor, sentimento que construiu a história de 50 anos de casa. “Eu só agradeço. Agradeço muito ao nosso bom Pai. Foi meio século de trabalho. Temos fregueses de todo tipo, toda raça, de toda classe social. Tudo isso vai deixar saudade. Agradeço porque tive tudo isso. Se não fossem eles, não estaríamos aqui. Eles escreveram a história bonita junto com a gente”, emociona-se. “Temos muita história boa. Até deveríamos escrever um livro, para eternizar essa história. Só nos resta agradecer”.

Que tal um café?
Se você ainda não tomou um cafezinho na padaria D’Glória, anime-se e corra para lá. Hoje, quarta, as portas do espaço ficam abertas até o início da noite. É o último dia de funcionamento da empresa e por isso, tudo por ali, estará com um sabor especial. A padaria fica no início da canaleta, em frente ao banco Santander.
Cenários que mudam
A saída da padaria na Manoel Ribas integra um conjunto de alterações rápidas, que toda a estrutura do centro de União da Vitória vem vivenciando. A mais recente, foi a demolição do Casarão da Gisa, já quase na rua Matos Costa, em Porto União.
Há alguns anos, a saída do também popular ‘café da Rosa’, o quiosque bem próximo ao sinaleiro, marcou os mais saudosistas. Ainda no contexto café, o enceramento das atividades da Kalef também deixou esse mercado com uma lacuna. Quem é mais velho vai lembrar ainda mais: todas essas estruturas ficavam sobre o calçadão. Você lembra?