UNIFORME ESCOLAR: Quanto mais justo, melhor?

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Atualizado há 7 anos

(Foto: Mariana Honesko).
(Foto: Mariana Honesko).

Até bem pouco tempo, uniforme de meninos e meninas eram iguais. Aliás, se um aluno ia sem uniforme para a escola – ou sem uma das peças, pelo menos – a escola dispunha de um “guarda-roupa” nos achados e perdidos para situações de esquecimento. Era comum ver menino com uma jaqueta que já foi usada por uma menina. E vice-versa. O uniforme, até aproximadamente uns dez anos, cumpria seu papel: uniformiza os alunos, tornando todos iguais.

Mas, com o tempo, essa universalização vem sofrendo alterações. E as malharias precisaram se adaptar, criando moldes mais enxutos e versáteis. No Vale do Iguaçu, contudo, três das empresas que trabalham com a confecção de uniformes ouvidas pela reportagem, explicam que toda alteração, para acontecer, precisa da aprovação da direção dos estabelecimentos de ensino. Na verdade, são eles que enviam os modelos de uniforme para as empresas. Mas, é inevitável pequenas infrações.

Elas são praticadas especialmente pelas meninas, apoiadas maciçamente pelas mães ou responsáveis, e envolvem o tamanho da peça: quanto mais justo, melhor. Conforme as equipes das malharias, a procura pela calça legging, que é um modelo mais colocado ao corpo, é especialmente comum entre as adolescentes, mas já aparece entre os pedidos das crianças, meninas de oito, nove, dez anos, que preferem a versão ao modelo mais largo, de corte reto. “Eles querem deixar o uniforme sempre mais estiloso”, contam colaboradores das empresas. Na tentativa de manter um pouco da uniformização, as malharias se recusam a tirar o cós das calças ou de costurar jaquetas, moletons e camisetas, muito curtas. Pelo menos o bumbum, está coberto.

Entre os meninos, existe uma maior flexibilidade, embora isso também venha mudando. Alguns, também preferem calças justas, com punhos nos tornozelos. Mas, se não é padrão da escola, as malharias não cortam o modelo. O encontro de peças diferente, contudo, acontece. É que de maneira paralela, quem compra um uniforme na malharia e não gosta, encontra nas costureiras uma alternativa. Sem ter uma hierarquia, as profissionais acabam atendendo ao pedido – e deixando muito menos pano, na manga e nas pernas.

É polêmico

“Em 1990, eu não tinha a menor ideia de que a culpa não era minha. Estava abaixada na mesa de uma colega, tentando fazer algum exercício de educação artística, matemática, ou seja, lá o que fosse, quando senti a mão de outro colega no meu corpo. Uma vez só, firme — ele só retirou a mão quando me virei assustada. Um momento que deve ter durado menos de um segundo. Tem quase 30 anos, mas eu lembro exatamente do incômodo e do mal-estar”. O texto, de Luciana Bugni, colunista da Universa, do grupo UOL, é uma narração que foca na “culpa” das meninas, por usar isso ou aquilo na escola. “A culpa não é delas”, defende.

Atual e feminista, o discurso da colunista é concreto, mas não incentiva, ainda, um relaxamento de conduta por parte dos diretores e pedagogos escolares. Para eles, usar a roupa adequada – e isso vale para meninos e meninas – é fundamental. Se há uma falta de respeito, mesmo com uma legging e uma mochila na mão, o problema não é exatamente a roupa, antes, o caráter de cada um.

Só que nem sempre é fácil encontrar esse equilíbrio. “Percebo que o uniforme ainda é uma barreira a ser quebrada, pois muitas vezes, existe uma resistência ao uso, justamente pelo fato de deixar todos iguais. Entretanto, alguns alunos, não somente meninas, preferem calcas e camisetas mais justas que delineiam mais o formato corporal”, avalia a pedagoga, Rafaela Dal Bó, que atua em União da Vitória. “Não acreditamos que as meninas precisam “se cuidar” para não chamar atenção dos meninos. Entendemos que não é a roupa que estabelece questões de respeito. Isso está mais associado aos valores que são incutidos nos sujeitos, tanto provindos da família quanto do ambiente escolar”.

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Nem todo mundo gosta

Apesar de ser uma tendência, encurtar o uniforme não é unanimidade. É que do mesmo jeito que há meninas e meninos que gostam de mostrar o corpo, há os que não gostam, justamente por conta desse momento de transformação, onde os seios e bumbuns crescem, onde a mudança fica evidente. Por timidez, roupas largas se tornam esconderijos perfeitos.

“Existem meninas que justamente, preferem roupas mais largas, que não querem mostrar curvas, ser vistas, não querem chamar a atenção. Tudo depende do que essa menina entende sobre a imagem dela. Tem muita a ver com a autoestima. Não é a maioria que vai usar roupa apertada. Isso depende muito”, avalia a psicóloga, Daniele Janiewski.

Debater o estilo de roupa, para a profissional, não fica apenas no gênero feminino. Os meninos também vêm mostrando mais. “É muito olhado para a forma como as mulheres se comportam, de uma maneira geral. Pouco se comenta sobre os homens. Eles usam regatas cavadas, para mostrar os músculos, por exemplo. Nada é falado sobre eles. Muito mais rotuladas são as meninas. Os homens se vestem como quiserem e não vira pauta”.

Daniele defende uma revolução de pensamento, onde a roupa não define caráter – tampouco, podem ser alvos de julgamento.

“Por muito tempo vivemos em um mundo onde roupas mais sexys era sinônimo de vulgaridade. Estamos caminhando para um outro momento. Não é isso. Significa uma estima muito boa, de quem está feliz consigo mesmo”, defende.

TODOS IGUAIS

Os uniformes escolares começaram a ser utilizados por volta de 1890 pelos estudantes da Escola Normal, responsável pela formação de professores. As escolas mais tradicionais passaram a adotar o uniforme, de fato, somente na década de 20. Já as demais, na década de 30. Conforme mostram artigos sobre o assunto, a roupa, padrão, tem origem militar, mas ganhou, como tempo, outras formas e objetivos.

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