CATEDRAL: Sinos em silêncio

Instalados no final da década de 30 no alto da igreja Sagrado Coração de Jesus, sinos não soam desde 2010. Projeto de restauração do imóvel, inclui retorno do funcionamento das peças

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Atualizado há 7 anos

Os três sinos ficam na torre, mas estão quietos desde 2010, aproximadamente (Fotos: Mariana Honesko).
Os três sinos ficam na torre, mas estão quietos desde 2010, aproximadamente (Fotos: Mariana Honesko).

Por estarem calados há tanto tempo, passam despercebidos. Há quem não saiba sobre eles, tampouco, de sua existência. Mas estão ali. No alto da torre da Catedral Sagrado Coração de Jesus, estão instalados três sinos, de bronze.

E não é nada recente: conforme os arquivos do Livro Tombo, confirmados pelo Livro Caixa e mais recentemente na obra de Ulysses Sebben, Catedral Sagrado Coração de Jesus, com cem anos de história, a colocação das peças aconteceu em 1938.

No Vale do Iguaçu, na área central, outras duas igrejas também mantém a tradição de tocar o sino ao longo do dia. Na Matriz, por exemplo, o toque acontece sempre às 8, ao meio-dia e às 18 horas. Na Luterana, às 7, igualmente ao meio-dia e no final de tarde, às 18. Todos os sinos são acionados de maneira automática

Os sinos, também conforme os documentos, foram produzidos na empresa Bromberg, instituição europeia que se instalou em São Paulo. “No dia 5 de outubro de 1938, os sinos foram inaugurados pelo Frei Poliparpo. Eles estão ali até hoje. A tradição da igreja católica diz que cada sino é dedicado a um santo”, explica o pároco da Catedral, o padre Silvano.

Os sinos, batizados como Santa Maria (o maior deles), Santo Antônio (o médio) e São José (o menor), já funcionaram. Na época da instalação, eles avisavam o horário das missas, a chegada do bispo. Depois, acompanham o ritmo das cidades, informando alguns dos principais horários do dia. No final dos anos 90, os sinos funcionavam de maneira eletrônico (antes, eram ativados por cordas, manualmente). A sala de controles ainda existe. Ela fica nos fundos da igreja, à esquerda de quem entra na Catedral pela porta principal.

Os sinos existem desde o século V e foram especialmente usados na Idade Média. Eram particularmente usados nas comunidades monásticas para chamar os monges, que, durante o dia, se espalhavam por diversos locais dos mosteiros no cuidado de suas atividades. Mais tarde, foi ficando comum ouvi-los também nas igrejas paroquiais, convidando a comunidade para as celebrações

Aproximadamente desde 2010, porém, estão calados, mas devem voltar a ser badalados com o fim da reforma na Catedral. “Temos muito o que fazer ainda, mas no dia da reinauguração, quando estivermos num espaço bom de restauração, vamos tentar reativar os sinos, para que nossa população volte a ouvi-los”, ambiciona o religioso.

Padre Silvano: expectativa é de brindar o fim das obras com o som dos sinos
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No lugar de som, oração

A igreja Matriz trocou o som dos sinos pela execução da adaptação feita pelo compositor alemão, Gounod, da Ave Maria, uma das composições mais famosas em todo o mundo

Para a igreja católica, os sinos são figuras importantes. Eles nasceram da necessidade que havia no passado: ora da falta de relógios ora da incerteza sobre a chegada de um padre para celebrar uma missa em uma comunidade. “O sino era a maneira de se comunicar. Se tocava a primeira vez uma hora antes da missa, depois meia hora antes e finalmente na hora do início da missa. Assim, quem tivesse num raio de quatro ou cinco quilômetros, poderia ir à celebração”, explica Silvano. “A famosa torre de Pisa, aquela inclinada, era uma torre para os sinos. Temos ainda em Aparecida, uma torre de sinos a parte. Normalmente os sinos têm uma nota musical, cada um tem uma e agora com a modernidade, muitas paroquias optaram por acionar eles de maneira eletrônica”, afirma.

Comunicação de longa distância

O badalar dos sinos dizem muito. Ainda é comum, especialmente no interior das cidades, o uso do mecanismo para notificar o falecimento de alguém importante, a chegada de um religioso ou até um casamento. E até quem está longe, é avisado. Em Dorizzon, o som dos sinos da igreja ucraniana pode ser ouvido por até dez quilômetros, em linha reta, conforme o padre Silvano

Na igreja Luterana, badalar apenas depois de decisão judicial

Entre os anos de 2014 e 2015, os três sinos da Igreja Luterana, em Porto União, ficaram em silêncio. Como mostrou O Comércio na ocasião, depois de meses em “jejum” e de uma batalha na Justiça que começou ainda em 2003, o badalar poderá ser novamente ouvido na comunidade em 11 de maio de 2015.

Conforme o presidente na época da comunidade luterana, Nelson Valdir Carpinski, o som dos sinos não será tão alto (mote de todo o processo), porém, passível de boa audição. O ajuste foi necessário desde que uma ação civil pública exigiu a checagem dos decibéis e o efeito sonoro na vizinhança. “Desde 2003, várias medições foram feitas e a da Fatma (Fundação do Meio Ambiente), inclusive, mencionou que os decibéis estavam até abaixo do que a Lei permitia”, lembrou Carpinski. Em 2014, a Justiça local exigiu uma retificação dos sinos, com prazos. “Fizemos novas medições, em todos os horários que tocávamos o sino e o processo foi extinguido”, sorriu. “Podemos agora tocar o sino às 7 horas da manhã e em todos os outros horários”, completou.

O pivô da discussão envolvendo os sinos da Igreja Luterana tinha as batidas das 7 horas da manhã como maior reclamação. De acordo com a redação da ação civil, o som era muito alto, o que incomodava o sono de quem ainda repousava. Com a interdição judicial, os demais horários do sino – meio-dia, 18 horas e dias festivos – também foram calados.

Os sinos da igreja Luterana são de 1957. Durante 58 anos, o som deles jamais havia sido interrompido. Os pedais que acionavam o mecanismo foram substituídos em 2001, pela automação do aparelho. No alto da torre da igreja, os três sinos, cuja gravação em alemão falam de fé, amor e esperança, lembram os horários de pico e os dias de festa.

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