FEMINICÍDIO: Tiros e suicídio na Estação União

Homem mata ex-companheira a tiros e comete suicídio em seguida. Na semana onde a morte de Juliana Graupamann completa um ano, mais um crime de gênero é registrado No Vale do Iguaçu

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Atualizado há 7 anos

(Foto: Pixabay).
(Foto: Pixabay).

Parece uma grande e trágica ironia do destino. No mês em que se lembra o combate ao suicídio, um homem tira a própria vida, em um espetáculo de horror, aberto ao público. Antes, tira a vida da ex-esposa, Rosane Aparecia Guis, 31, uma mulher que com ele tinha três filhos, todos, ainda criança. Ironia na data de novo: na véspera do primeiro ano de Juliana Graupmann, vítima igualmente do ex-companheiro, a morte violenta, de gênero, mais um feminicídio para as estatísticas policiais do Vale do Iguaçu.

Rosane foi assassinada pelo ex-companheiro, Anderson, que se matou em seguida
Rosane foi assassinada pelo ex-companheiro, Anderson, que se matou em seguida

E é do Vale mesmo, já que o corpo do homem, identificado pela polícia como Anderson Kuroski, caiu nos limites das duas cidades, muito próximo da linha férrea, um dos maiores marcos de separação de União da Vitória e Porto União.

Anderson Kuroski
Anderson Kuroski

Contudo, a história é de todo mundo, de todos que assistiram à cena, de quem a soube pela rede social de quem por aqui, conhece um pouco mais da trajetória do casal que, sem querer, tiveram a festa em homenagem ao Dia do Gaúcho (lembrado no dia 20) como palco.

Conforme apurou a reportagem até o final da edição, Rosane estava na festa, a segunda edição da Festa do Gaúcho, a trabalho. Prestadora de serviços para a Capimar, ela distribuiu simpatia aos visitantes do stand da empresa, além de chimarrão, bebida típica dos gaúchos e carro-chefe da Capimar. Exemplar, Rosane era vista com carinho pelos funcionários e pelos patrões. “Sempre muito querida e profissional. Trabalhava há pouco tempo, mas já era amiga de toda equipe. Por morar perto de nossa empresa, seu pai e irmão também já trabalharam conosco anteriormente. Então sempre foi uma família muito querida, colaboradora”, descreve a administradora da empesa, Elizabete Capeleti. “Sempre foi uma moça trabalhadeira, muito preocupada com os filhos, em dar o melhor que podia”.

O caminho de Rosane e de Anderson, embora diferente por conta de uma medida protetiva (eles estavam separados desde dezembro de 2018), voltou a se cruzar no final da noite do sábado, 14. Nem os pedidos de ajuda gravados por ela em uma mensagem via aplicativo, foram rápidos o suficiente para salvá-la. No áudio, que chegou à reportagem também via aplicativo, Rosane pedia socorro. “O Anderson está atrás de mim. Alguém e ajude pelo amor de Deus. O Anderson está correndo atrás de mim!”, disse, nervosa, nas mensagens (a reportagem não conseguiu saber para quem o pedido teria sido enviado).

Anderson, presente na festa, encontrou Rosane. Embora não se saiba até o momento se houve discussão, o fato concreto é de que o homem armado com um revolver .38 (havia mais uma pistola .6,35 no carro dele, conforme a Polícia apurou), atirou, três vezes. O homem não tinha posse nem porte de arma, conforme a Polícia Civil.

O quarto tiro, ouvido longe, quebrando o ritmo da festa e assustando aos moradores vizinhos, foi em sua própria cabeça. Anderson morreu na hora. Rosane, foi levada vida para atendimento médico, mas faleceu a caminho do hospital.

Conforme relatos dos vizinhos da Estação União, moradores dos prédios próximos, foi possível ouvir gritos de susto, de ordem, confusão e medo. Era o fim de uma história e mais um número entrando nas estatísticas de segurança do Vale do Iguaçu.

Os corpos foram sepultados nessa segunda-feira, 16. Os filhos do casal, crianças com 7, 9 e 13 anos de idade, estão na casa dos avós, com quem Rosane já estava morando desde o final do ano passado, na comunidade de Rio Vermelho, no interior de União da Vitória.

(Gráfico: Graffo).
(Gráfico: Graffo).
Festa continuou

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Criticada pela comunidade, especialmente pela rede social, a organização da Festa do Gaúcho optou por dar sequência ao evento no domingo, dia seguinte ao crime, já que não se tratou de uma briga generalizada, antes, uma discussão do casal. A justificativa está na Nota Oficial enviada à imprensa (leia na integra, no quadro).

Festa continuou no domingo: evento teve minuto de silêncio
Festa continuou no domingo: evento teve minuto de silêncio

 

Segurança dos eventos

O palco para o crime despertou uma discussão maior a respeito da realização dos eventos em espaços públicos. Ainda que episódios violentos não tenham exatamente um formato para acontecer, a presença de uma pessoa armada em um ambiente frequentando por gente de todas as idades e, a maioria, bem-intencionadas, gera desconforto nestes primeiros dias após o episódio. Na verdade, algumas entidades já sinalizaram a possibilidade de ajustes na dinâmica das festas futuras.

A reportagem conversou sobre isso com a equipe da prefeitura de Porto União sobre a Festa do Xixo, um dos maiores eventos públicos realizados justamente na Estação União (e na Praça Hercílio Luz), onde a Festa do Gaúcho também aconteceu. Conforme informou a assessoria de comunicação, antes de toda a definição da festa, uma reunião com todos os envolvidos é feita. “No caso da Festa do Xixo, por exemplo, realizamos a primeira reunião com as secretárias da prefeitura, ainda em junho (a festa é em dezembro) juntamente com a Policia Militar, Bombeiros e o organizador, que é a Associação Comercial. Nela, os militares especificam todas as normas de segurança a serem seguidas e nós cumprimos”.

Ainda de acordo com a assessoria, sem a contratação de segurança para o evento, o alvará da Polícia Civil para a realização da festa sequer é expedido. Contudo, nem a Festa do Xixo nem outro evento realizado em espaços públicos, oferecem revista, por exemplo, ou outro tipo de coibição.

Um profissional que trabalha com segurança particular e que pediu para não ser identificado, comentou com a reportagem que o ideal seria um segurança para cada cem pessoas. Conforme ele, deveria ser presença obrigatória nos eventos, a segurança privada, independente de policiamento.

Em alguns casos, contudo, talvez nem um efetivo grande poderia coibir ações rápidas e premeditas, por exemplo. Para o segurança, esse é o caso do episódio do final de semana: rápido e certeiro, é provável que o final da história não tivesse nem uma vírgula modificada.


 

NOTA NA ÍNTEGRA

A coordenação da festa do Dia do Gaúcho esclarece que o ocorrido na noite de ontem nas dependências de nossas estruturas tratou-se de um crime passional e não uma briga generalizada como vem sendo divulgado nas redes sociais. Nos consternamos com a perda de um de nossos apoiadores de uma forma tão violenta estamos a disposição da família para o que esteja a nosso alcance. Comunicamos que a festa seguirá com sua programação normal mais em luto em sinal de respeito a colaboradora e a família. Desde já agradecemos aqueles estão nos apoiando para passar este momento difícil a todos.


Crime passional

Muito se comentou na rede social sobre o uso da palavra ‘passional’ nas matérias jornalísticas sobre o crime. Contudo, do ponto de vista técnico e jurídico, a aplicação está correta. É que conforme o universo jurídico, crime passional é classificado assim quando envolve relacionamento ou aquele que teve uma motivação emocional. O crime passional não figura no Código Penal Brasileiro, mas é tipificado como Feminicídio, crime incluído em 2015 no documento (que é de 1940). Essa tipificação pode aumentar a pena do homicídio em até um terço se o crime for contra uma mulher gravida, se acontecer na frente dos filos ou se for contra menor de 14 anos, maior de 60 ou contra mulheres com alguma deficiência.


Combate à violência

Na quinta-feira, 19, acontece o V Seminário Regional de Combate a Violência Contra as Mulheres. As atividades serão desenvolvidas durante o dia todo, das 8h30 às 17 horas, no Centro Universitário Vale do Iguaçu (Uniguaçu). O foco desta edição do Seminário é ‘Mulheres, impacto e organização e o papel da juventude no enfrentamento às violências’.  Os participantes ganharão certificado de dez horas complementares e a inscrição, que é gratuita, pode ser feita pelo site da Uniguaçu.

O evento é organizado pelo Instituto Rosas do Contestado e pelo Coletivo Mais que Amélias. Segundo Thays Bieberbach, historiadora e representante de ambas organizações, o evento dá a oportunidade para entidades, instituições e também para o poder público debater o problema cultural da violência contra a mulher e, assim, pensar em alternativas para mudar essa realidade.

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