Artigo: O que eu penso acerca das manifestações?

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Atualizado há 13 anos

Por Douglas Marques

A total confiança de certas pessoas em milagres instantâneos parece ser inversamente proporcional ao tempo e neurônios gastos na análise da situação. Isso explica não só a adesão massiva às tais manifestações como suas reivindicações evidentemente difusas. Não, não sou contra as manifestações, sou, sim, contra manifestações inconscientes.

Poder-se-ia dizer (como, aliás, muitos competentes cientistas sociais têm dito) que os primeiros protestos, liderados por partidos de extrema-esquerda (PSOL, PSTU, etc.), foram apenas a gota d’água para uma população que observava calada, em uma espécie de paroxismo de indignação, as tantas atrocidades que assolam o país, e que o estopim aceso no dia 13 (catalisado pela infeliz ação da PM) apenas encontrou um barril que vinha enchendo-se há anos. De tal modo que a explosão permitiu, finalmente, a liberação catártica de uma mobilização em prol do progresso do país nunca dantes vista. Muito bonito, mas, permita-me discordar um instante.

Oras, dizer que antes o brasileiro não verbalizava sua indignação contra a corrupção e outras causas não menos pungentes é, no mínimo, fingir-se de amnésico. Curiosamente, e não sem razão, o povo brasileiro é um dos que mais critica o próprio país. Nota-se nessas críticas diárias, seja on ou offline, o amplo uso da ironia (inclusive, está agora circulando, nas redes sociais, uma imagem bastante criativa acerca da tal “cura gay”. Uma mão segura um comprimido, o texto diz: “Gay? Benegay”). Claro que também há os mais sérios, os revoltados, os extremistas, os condescendentes, os conscientes, os apáticos, os catastróficos, etc., o fato é que, de uma forma ou de outra, o brasileiro costuma verbalizar sua revolta e, geralmente, com criatividade.

“Ah, mas agora ele foi para as ruas! Isso é uma prova de que podemos nos mobilizar para mudar a situação atual.”, diz um otimista neo-revolucionário, como se isso fosse algo inédito na história do país. Essa mobilização nacional não é novidade (a despeito das proporções), ela apenas reforça algo que já sabíamos: o povo brasileiro é facilmente “mobilizável”. Vide as torcidas organizadas, passeatas disso e daquilo etc.

Não que isso seja negativo, não é negativo. O problema é supor que manifestações coletivas podem tomar o lugar de reflexões individuais. O problema é pensar que se pode mudar, aos berros (ou só por andar), toda uma complexa estrutura que beneficia a corrupção. O problema é imaginar que se podem ignorar conhecimentos de economia, história e política antes de sair às ruas. O problema é julgar que não somos nós também partes intrínsecas do problema nacional (afinal, estão lá nossos representantes). O problema é pensar que se está mudando o país sem nem ao menos tentar mudar primeiro a cidade, o bairro, a rua em que vive. O problema, enfim, é se iludir com euforias coletivas e agir feito um chipanzé lunático.

O resultado? Agressões de todos os lados, falta de foco, partidos se aproveitando para fazerem propaganda, políticos contratando publicitários (Oi, Dilma), formadores de opinião mudando freneticamente de opinião (ao gosto do público), e mais um restante de fatos que só gera, e só pode gerar, sensação de desilusão e impotência.

A intenção é justa, sem dúvida, mas essa energia de modificação pode, fatalmente, dissipar-se em ilusões momentâneas. Mudar exige, além de vontade, tempo e passos conscientes.

douglas

 

 

Douglas Marques é estudante de Jornalismo

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