Profa. Marilucia Flenik, Dra.
Minha motivação de fundo é participar do espaço democrático, visando um mundo onde as pessoas de boa vontade possam predominar. Nessa época do despertar da população brasileira para a realidade de sermos uma nação livre, cabe refletir acerca do cidadão capaz de atuar no espaço público, e realmente contribuir para melhorar a política que se pratica no Brasil.
Voltar às origens dos conceitos auxilia na compreensão dos fenômenos, esclarecendo-se a relação entre a palavra e a “coisa” nomeada. Sócrates, que viveu na antiga Atenas, que criara a democracia direta, nos ensinou o princípio da não contradição como a origem da Moral e da Ética.
O surgimento da consciência moral se dá mediante o diálogo da pessoa consigo mesma. Afirmava o filósofo que o medo da contradição vem do fato de que qualquer um de nós, “sendo um”, pode ao mesmo tempo falar consigo mesmo como se fosse dois.
Eis aí o surgimento da consciência moral, metaforicamente, uma verdadeira testemunha interior que julga, vigia, condena, como alguém que acompanha a pessoa como a própria sombra. Por que não devo mentir, furtar, ou cometer outros atos ilícitos? Porque eu não quero viver com um mentiroso, um ladrão ou um assassino. Pode ninguém descobrir, mas a pessoa sabe, no interior de sua consciência, que cometeu o ato ilícito.
Sócrates no diálogo Gorgias afirmou que “é melhor sofrer o mal do que o cometer” e “eu preferiria que minha lira ou um coro por mim dirigido desafinasse e produzisse ruído desarmônico, e preferiria que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, viesse a entrar em desacordo comigo mesmo e a contradizer-me.”
O mais importante é a veracidade que implica sempre estar de acordo consigo mesmo. O princípio da não contradição é a origem não apenas da lógica, mas sobretudo da ética. Representa a possibilidade de aparecer não apenas para os outros mas para si próprio, o que permite uma tomada de posição perante os problemas do mundo.
Tal questão é da maior relevância política, pois o diálogo de mim comigo mesmo é a primeira condição do pensamento, que deixa de ser prerrogativa apenas dos filósofos, para ser qualidade também dos cidadãos. É a garantia do bom funcionamento da polis, pois a veracidade, ser fidedigno consigo mesmo implica no respeito as regras de comportamento por convicção própria e não por simples medo da punição da lei ou do castigo religioso.
Sócrates acreditou que a virtude pudesse emergir desse diálogo que examina o que se entende por piedade, justiça, coragem. Ele acreditou que pensar, examinar as questões, poderia tornar as pessoas conscientes de tais virtudes e viver uma vida mais plena e bela.
Infelizmente os atenienses acharam a atividade de pensar criticamente subversiva, pois, segundo eles, desestabilizava a Cidade, especialmente os jovens. Logo, condenaram Sócrates à morte pela cicuta. Ele não questionou o julgamento da Cidade, em atitude coerente de respeito às suas leis. Foi instado a fugir e não o fez, aceitando a morte pacificamente, a significar que “o homem é um ser pensante e atuante em um – isto é, alguém cujos pensamentos acompanham invariável e inevitavelmente seus atos -, é o que aperfeiçoa homens e cidadãos.” (ARENDT, Hannah. Filosofia e Política. In: A Dignidade da Política.) Eis a grandeza do exemplo de Sócrates. Ser coerente até o fim, com o sacrifício da própria vida, se necessário, mas nunca se contradizer. Passar pelo mundo deixando a sua marca, sendo que as palavras e os atos atestam a boa conduta. Eis a integridade da pessoa capaz de atuar no espaço democrático.