Bairro São Pedro brinda seus 50 anos

Comunidade celebra autonomia mas não perde essência

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Atualizado há 13 anos

Por Mariana Honesko

Ele é o mais populoso bairro de Porto União. Por seu coração uma avenida simples, que carrega o nome de João Pessoa, centenas de caminhões transportam riqueza e fazem da comunidade o elo entre duas das principais rodovias nacionais. No sábado, 7, o Bairro São Pedro comemora meio século de vida em um ritmo acelerado de desenvolvimento.

Em 50 anos, muito mudou. No entanto, os moradores conseguem manter o mesmo espírito de trabalho, de harmonia e de união, condições comuns às primeiras famílias que escolheram o local para ser feliz. O bairro é referência em organização e tem na Festa da Fogueira seu maior cartão-postal. Comunidade de progresso, com ferramentas para criação dos filhos e para o trabalho, o São Pedro respira progresso.

Memórias debruçadas no portão

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Ihor Andrukiu é um dos mais antigos moradores e vê da pracinha a transformação do Bairro (Mariana Honesko/Jornal O Comércio)

Se para os moradores das áreas mais baixas de União da Vitória e Porto União a enchente de 1983 foi sinônimo de tragédia, para o Bairro São Pedro as cheias garantiram visibilidade. Quem conta é o aposentado Ihor Andrukiu, um dos primeiros moradores da comunidade. “Para nós a enchente foi a salvação”, sorri, aos 76 anos. Seu “Ivo”, como é popularmente conhecido, debruça-se sobre o portão de sua casa e vê com calma os passos da comunidade.

Ao bairro, chegou muito antes da enchente. “Foi em 1960”, conta. Com a esposa, Iraci Bohrer, de 73 anos, Ivo se casou e criou sua família. Todos seus seis filhos são também filhos do Bairro São Pedro. Ao olhar para o passado, os olhos do casal perdem-se no túnel do saudosismo. “Era tudo mato. Onde tem o colégio (Germano Wagenfuhr), a turma caçava saracura”, conta Ivo. “E não tinha água nem luz. Era tudo escuro”, completa Iraci. A vida à base do lampião e da água de poço, não fez o casal mudar de endereço: o “Tócos” continuava sendo um bom lugar.

O tempo passou e a vontade de ajudar no desenvolvimento do bairro tornou seu Ivo uma referência. O reconhecimento chegou até a Assembléia Legislativa de Santa Catarina que, em 2012, entregou ao aposentado uma Menção Honrosa “por sua importante contribuição para a história de Porto União”. O município também valorizou a participação do aposentando e há pouco tempo deu ao recém-criado Posto de Saúde – o segundo no bairro – o nome de sua mãe, Ana Andrukiu. Com sorriso largo e olhos brilhantes, Ivo garante que o Bairro São Pedro é seu lugar. “Daqui não saio mais”, sorri.

Por dentro do Bairro São Pedro

O que começou com a escolha das famílias Aquino, Meyer, Friedrich, Wolf, algumas das primeiras que escolheram o bairro para morar, logo ganhou dimensão maior. Hoje, o São Pedro é escolha de cerca de oito mil habitantes. A geografia também prova que o crescimento exigiu mudanças. O mato transformou-se em ruas e avenidas e ao longo do tempo ganhou novos anexos. É o caso, por exemplo, do Jardim Novo Mundo e da criação dos bairros Cidade Nova e São Francisco. Antes, toda essa extensão pertencia ao Bairro São Pedro. A comunidade é dona dos mais valiosos terrenos e imóveis. Um dos maiores estabelecimentos de ensino de Porto União também fica no bairro: o Germano Wagenfuhr, que no dia 27 também completa 50 anos de fundação. A comunidade também é sede do quartel da Polícia Militar e de uma série de estabelecimentos comerciais que, juntos, garantem independência ao bairro. Sozinho, ele é capaz de gerir seu pagamento de contas, sistema de segurança, compras de vestuário e de itens alimentícios.

Impulso que veio das prateleiras

Para a comunidade, a construção de uma unidade da rede Glória de supermercados contribuiu com o progresso do local. Há 20 anos na Avenida João Pessoa, o complexo puxou o desenvolvimento e atraiu novos investidores para a região que crescia de maneira tímida. “Aqui é um lugar bom, alto, longe da enchente. Acreditamos que poderia dar certo”, sorri o empresário Adilson Wengerkiewicz, proprietário da rede.

Quando escolheu o bairro para ser sede de mais uma unidade, o empresário encontrou vários terrenos vazios e uma área com preço bastante aquém do mercado negociado hoje. A aposta deu bons resultados. “O mercado chamou o desenvolvimento”, avalia. Entre um gole e outro de café, a dona-de-casa Nádia Rulf concorda com a avaliação de Wengerkiewicz. Quando escolheu o bairro para morar, há 16 anos, conhecia quase todos os moradores pelo nome. Hoje, essa identificação é bem mais difícil. “Quando chegamos havia poucos moradores e muitos terrenos vazios. Hoje, o bairro cresceu tanto que infelizmente pensamos em nos mudar”, lamenta.

O barulho mencionado por Nádia é uma referencia ao movimento de caminhões na João Pessoa. Para os moradores, esta é maior – e talvez única – deficiência do bairro. O tráfego intenso é motivo de estudo na Administração Municipal e Estadual. Contornos e rotas alternativas são estudadas mas, ainda, os traços resumem-se ao papel.

E que venha mais uma Festa da Fogueira!

Ao longo de seus 77 anos de realização, o evento garantiu a colocação do São Pedro no mapa do turismo nacional e até internacional. Não raro, suas edições trouxeram para o alto de Porto União moradores do Chile, da Alemanha, da Bolívia e da Argentina. “Vem gente de todo o Brasil também”, conta sorrindo Alceu Jung, o “Brasa”, um dos principais organizadores da festa.

O evento, mais antigo do que a criação oficial do Bairro, não perdeu sua originalidade. “Ela começou tímida, pequena, mas foi crescendo e hoje é enorme”, avalia Brasa. A queima e a altura da fogueira impressionam. Neste ano, ela já está com mais de 40 metros e, por ironia do destino, não foi acessa na festa realizada em julho. “Pela primeira vez isso não aconteceu. Parece que era para que ela fosse acessa mesmo justamente no dia da festa de 50 anos do bairro”, comenta o organizador.

E foi. A programação definiu  a queima da Fogueira para às 20 horas de sábado. Essa não é a única coincidência. A festa e a queima ocorrem justamente no dia em que a Igreja São Pedro e São Paulo comemora seis anos desde que se tornou paróquia. Na ocasião, a comunidade católica, maioria absoluta no bairro, celebrou sua independência e garantiu, com o título, atenção à sua e às comunidades mais isoladas. A festa de logo mais prepara ainda uma homenagem especial aos descendentes do prefeito que criou oficialmente o bairro. “Procuramos alguns familiares do prefeito Salustiano e eles ficaram bem felizes em serem homenageados”, conta Brasa. Natural de Icaré (SC), Brasa é um dos tantos que adotaram o São Pedro com o coração. “Moro no Cidade Nova mas meu coração está lá em cima”, garante.

Sinhana Bita, audácia em favor da fé

Pouco se sabe sobre a história de dona Ana Maria da Maia Pereira, a Sinhana Bita. Seu estilo de vida pouco convencional ou pouco aprovado pela sociedade, ainda é um tabu entre os mais velhos. Therezinha Wolff, entusiasta da cultura da cidade, é uma das poucas que fala sobre as atitudes e até defende a postura da mulher que teria ajudado na “construção” do bairro. “Ela trouxe de São Paulo uma das imagens de Bom Jesus de Iguape e reunia na casa dela os vizinhos, faziam procissões”, conta.

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Álbum pessoal de Renato e Rose Ruschel: registro do Bairro ainda com seu antigo nome

Sua casa estaria perto de onde hoje está a paróquia. Teria sido lá também que um pavilhão foi construído e que com o dinheiro dos “fandangos” organizados por Sinhá, a primeira capela da comunidade erguida. O comportamento alegre e as promoções sempre festivas a rotularam como uma mulher de “vida fácil”.

Uma das provas de sua participação na história foi encontrada há alguns anos. Na igreja, a famosa imagem do Bom Jesus estava esquecida. Para Sinhá, um marco foi construído e justamente no dia de sua inauguração, a imagem que trouxe na pequena bagagem, foi entronizada. “O nome do bairro carrega a questão da festa, que é realizada quando São Pedro é lembrado. Mas, vejo que o mais correto seria colocar o nome da imagem que Sinhana Bita trouxe”, sorri Therezinha.

O destino de Sinhana Bita não é conhecido. Não há informações sobre seus passos, mudanças, viagens, amores e falecimento. No imaginário da comunidade, dona Ana Maria é figura lendária.

Uma fogueira esculpida no coração

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77 anos de Fogueira do São Pedro (Bruna Kobus/Jornal O Comércio)

Não há como separar o Bairro São Pedro da fogueira que há 77 anos queima no alto da comunidade. É com carinho que os mais saudosistas lembram das primeiras festas, das primeiras brasas, das arapucas que o acendimento causava e das engenhocas criadas para aliviar o trabalho dos acendedores.

O historiador Eloy Tonon, na obra “Saga da família Ruschel”, dá destaque para um destes episódios. “No ano de 1965, quando o acendedor, senhor Pedro Baum, subiu para acendê-la, sofreu queimaduras”, diz, em partes, o texto da página 97. Renato Ruschel, genro do então presidente da comissão da igreja, José Maria Araújo, lembra com nitidez de quando teve a ideia para criar um novo sistema de acendimento. “Falei com o meu cunhado para mudarmos o sistema. Assim, em 1966, foi idealizado um sistema com carretilha, na qual uma tocha encharcada com gasolina era içada até a ponta da fogueira”, conta Ruschel, um dos homenageados pelo livro.

A montagem da fogueira não era fácil e dependia essencialmente da vontade dos voluntários. “Aquelas varas, tínhamos que puxar com cavalos por dentro do bairro”, lembra o fotógrafo Engelbert Schwab, que aos 82 anos ainda lembra o nome da marca da lata de azeite – Mazola – usada como dispositivo para acendimento.

Para Ruschel a fogueira e suas nuances foram merecedores da eternidade. Uma de suas obras na pintura ficou tão conhecida que até ilustrou a capa de catálogos de telefone. O Bairro São Pedro aparece ainda em outras obras. Ruschel assina ainda a pintura da primeira casa comercial e a igreja que antecedeu a construção da atual paróquia. Com os olhos marejados, revela seu álbum pessoal de fotografias e se surpreende ao ver seus próprios registros. Em um deles, sua esposa, Roselina de Araújo, aparece no então “Tócos”.

Os registros mostram ainda Frei Germano e Frei Alceu, em um registro feito em 9 de março de1963. “Esses missionários eram do Rio Grande do Sul. Foram eles que sugeriram para que o nome do bairro fosse São Pedro”, sorri. Seu sogro, motivado pela ideia, recolheu assinaturas de quem também era favorável ao projeto. A lista foi entregue para o então vereador, Abílio Heiss, que apresentou o projeto na Câmara de Vereadores. Em agosto de 1963, o prefeito Salustiano Costa Junior assina o Decreto que faz a vontade dos moradores.

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