Por Andréa Leonora – CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários
Mais de 10 mil visitantes, entre estudantes, empresários e interessados em geral, devem passar pela etapa estadual da Olimpíada do Conhecimento 2013, promovida pelo Senai-SC, em Lages, desde o início da semana. Ontem seriam divulgados os resultados que indicarão os estudantes que seguem para a etapa nacional, agendada para o ano que vem, em Belo Horizonte (MG). Em 2015, os melhores desta nova etapa estarão no Torneio Internacional de Educação Profissional, WorldSkills, promovido pelo International Vocation Training Organization (IVTO), com cerca de 60 países participantes e que pela primeira vez vai acontecer na América Latina, mais especificamente em São Paulo.
Os resultados da Olimpíada do Conhecimento 2013 foram divulgados na noite de ontem, mas talvez em nenhum outro momento a expressão “o importante não é ganhar, é competir” tenha aplicação tão honesta. Os próprios organizadores fazem questão de destacar isso e os competidores acabam imbuídos desse espírito.
Tudo impressiona nesta sexta edição da Olimpíada do Conhecimento em Santa Catarina, a começar pelos números: são 190 estudantes de 28 cidades disputando posições em 39 diferentes ocupações durante quase 100 horas e observados por 171 professores-avaliadores. Diariamente, além de lanches, foram servidas 1.080 refeições. Para realizar não só a Olimpíada, mas também a Mostra Inova, que apresentou 13 projetos, os organizadores conseguiram o apoio e o patrocínio de 30 empresas, entre elas líderes nacionais e multinacionais em seus segmentos.
A faixa-etária dos competidores vai dos 15 aos 21 anos, todos escolhidos pelo desempenho em suas próprias unidades. E um critério fundamental: comprometimento. É que a partir da escolha feita, cada competidor aceita encarar uma rotina puxada de treinamentos, sempre conciliando com o próprio curso técnico-profissionalizante do Senai, com as aulas do Ensino Médio ou até com as aulas em cursos universitários. O único dia de descanso é o domingo.
O presidente do Sistema Federação das Indústrias (Fiesc), Glauco José Côrte, disse no ato de abertura do evento que existe um grande espaço para o Brasil crescer nessa modalidade de ensino. Ele lembrou que, enquanto na Alemanha e no Chile o índice de jovens matriculados em escolas técnicas e profissionalizantes está perto dos 50% e na Argentina chega a quase 40%, no Brasil mal passa dos 10%. “Aqui está parte do formidável banco de talentos que temos nas escolas do Senai de Santa Catarina. Este é um momento importante para a indústria de Santa Catarina, porque o evento mostra a valorização da formação técnica e profissionalizante. Países como a França, Alemanha e Estados Unidos se desenvolveram a partir de investimentos pesados e qualificados na capacitação do nível intermediário. Queremos fazer o mesmo em Santa Catarina”, afirmou, reforçando que até o ano que vem às escolas do Senai-SC passarão a ter capacidade para 180 mil matrículas no ano, o dobro em relação a 2012. Com um detalhe: o índice de empregabilidade dos egressos do Senai-SC passa dos 90%.
Segundo Côrte, o governo federal também está cumprindo seu papel, com destaque para o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), em parte executado pelo próprio Senai. “Juntos, governo federal, governo estadual, municípios e entidades como o Senai, podemos promover um salto importante na qualificação dos jovens e dos trabalhadores, para melhorar o processo de inovação da indústria brasileira e ampliar a condição de competitividade.” O presidente da Fiesc explicou que todos os setores industriais estão exigindo mais dos trabalhadores e observou que há uma maior procura na área automobilística, motivada pela instalação da GM, pela vinda da BMW e da Sinotruk, e pela possibilidade de vinda da Mercedes Benz e da Land Rover para o estado.
Muitas histórias
Passar pelos diferentes ambientes da Olimpíada do Conhecimento é ter oportunidade de contato com jovens absolutamente concentrados e com professores-avaliadores rigorosos, mas, ao mesmo tempo, atenciosos. Dois exemplos disso:
Um dos competidores de Costura Industrial saiu do espaço da prova para almoçar e esqueceu-se de tirar a fita métrica do pescoço. A avaliadora não chamou sua atenção, mas anotou o deslize. Questionada sobre o motivo, respondeu sem tirar os olhos dos demais competidores: “Segurança e organização”.
Por outro lado, no banheiro feminino uma competidora da mesma modalidade, aos prantos, era incentivada pela professora-avaliadora: “Para de chorar, levanta essa cabeça e volta. Você sabe fazer e vai fazer”.
Sem dúvida, a Olimpíada do Conhecimento é um mosaico de pessoas, hist¬-órias e muitos planos.
Capítulo 1 – O consciente
Andrei Belegante é avaliador líder na ocupação Robótica Móvel. Entrou para o Senai de Joinville aos 14 anos, no curso Técnico em Automação Industrial. Hoje, aos 22 anos, está na sexta fase do curso de Engenharia Elétrica na Udesc. Poderia estar na oitava fase, reconhece, mas boa parte de seu tempo é dedicado ao treinamento para a Olimpíada do Conhecimento.
Ele sabe o valor desse treinamento. Em 2008, representou o estado na primeira etapa nacional que teve esta modalidade. Ganhou e foi classificado para a etapa internacional, formando com Kledson Alves a primeira dupla de Robótica Móvel a participar do WorldSkills representando o Brasil. Na competição, realizada no Canadá em 2009, conquistou o quinto lugar.
Contratado pelo próprio Senai em 2010, participou do treinamento da segunda dupla de Robótica a representar o país lá fora, formada por André Peripolli e Leandro Machado, que em 2011 também conquistaram a quinta colocação. Para a etapa estadual de 2013, Andrei e André treinaram mais duas duplas e uma deverá representar o estado no ano que vem em Belo Horizonte, podendo chegar novamente à competição internacional.
“Não treinamos só a parte técnica dos estudantes, mas também o emocional. Eles precisam lidar bem com a pressão, sem perder a concentração”, explicou Belegante. Para a etapa estadual os treinos chegam a quatro horas diárias, mas aos sábados passa para oito horas ou mais. Ultrapassada esta etapa, os treinos passam a ocupar de oito a dez horas por dia dos competidores. “Não estamos aqui para fazer o óbvio, mas para buscar aquele algo a mais que pode fazer a diferença na competição. Por isso fomos exigidos e somos exigentes”, decreta.
Um dos competidores é Euler Adriano do Carmo, de 16 anos, que só teve acesso ao curso por causa do Pronatec. “Ele é muito dedicado”, descreveu Andrei Belegante. E explicou: “O Euler passa o dia no Senai, onde faz Aprendizagem em Eletrônica, Técnico em Mecatrônica e ainda está fazendo o Ensino Médio. Tudo isso ao mesmo tempo em que dedica horas seguidas ao treinamento para as Olimpíada”.
Questionado se pretende deixar o Brasil em busca de salários mais altos e melhor qualidade de vida, Belegante é taxativo: “Mesmo que eu vá, irei só para o meu desenvolvimento. Sinto que terei que voltar para ajudar o meu país. E quero sempre estar ligado à Olimpíada do Conhecimento. É como se fosse uma dívida”.
Capítulo 2 – O cheio de estilo
Rudimar Braga dos Santos tem 17 anos e há um ano está no Senai de Blumenau, também pelo Pronatec. Por ser o único a atingir o índice para competir na ocupação Sistema de Construção de Drywall, já tinha a medalha de ouro na medalha estadual garantida mesmo antes do início da competição.
Duas coisas diferenciam Rudimar: sua determinação e seu estilo pessoal. De acordo com seu avaliador líder, o engenheiro civil Mário Ramos do Nascimento, o jovem já foi orientado a cortar sua vasta e rebelde cabeleira. “Mas não adianta. Prefere continuar mantendo seu estilo”, ri o professor.
Mário conta que a participação de Rudimar na etapa nacional vai depender do índice que fizer na estadual. “É a primeira vez que Santa Catarina vai participar dessa modalidade e estou confiante. Pelo competidor que tenho, muito esforçado, e pela estrutura que a escola está oferecendo, é quase certo que estaremos em Belo Horizonte no ano que vem.”
Capítulo 3 – A visionária
Na área dedicada a ocupações da construção civil, muita organização, esforço físico, cálculo e suor. Três rapazes fazem provas de Construção em Alvenaria, um em Sistema de Construção de Drywall e dois competidores se empenham na Aplicação de Revestimentos Cerâmicos. E é nesta área específica que está a já universitária de Engenharia Civil Sabrina Stefani Felippi, de 18 anos. Diante de um sorriso quase permanente, vai perder quem apostar em sua fragilidade. Sabrina simplesmente não se assusta com os intrincados cálculos para corte das peças que comporão um painel, tampouco com ferramentas que mal cabem em suas mãos.
De Indaial, ela entrou no Senai de Blumenau aos 17 anos e já está formada no curso de Aprendizagem Industrial de Oficial de Edificações. Entretanto, permanece na escola, onde treina para as competições. “Eu me interesso muito pela área e como já queria fazer Engenharia Civil, achei que era importante para me especializar. Futuramente, como engenheira, vou saber como falar para o trabalhador o que quero e como deve ser realizado determinado trabalho.” Dedicar-se a uma ocupação ainda dominada por homens foi uma escolha pessoal e que teve total apoio da família. “Meus pais têm orgulho de mim.”
Capítulo 4 – Os mais aplaudidos
Durante a cerimônia de abertura, a entrada das delegações de cada cidade era intensamente aplaudida. Mas duas, as de Caçador e de Videira, chamaram a atenção por terem recebidos aplausos ainda mais entusiasmados. Na verdade, o público presente, formado em mais de 80% por estudantes e professores, estava dando uma grande demonstração de apoio às duas menores equipes participantes, cada uma com apenas um competidor. Para os professores líderes, uma vantagem, já que podiam dedicar atenção exclusiva a seus pupilos.
Anderson de Oliveira tem 33 anos, é formado pelo Senai em Engenharia de Controle e Automação e faz pós-graduação em Manutenção Industrial, também no Senai. É professor da instituição em Caçador e líder de Jonathan Todeschini, de 18 anos, competidor de Desenho em CAD. Já o engenheiro mecânico Marcelo Ramos, de 29 anos, coordenador de Curso Técnico do Senai de Videira, acompanhava Cristian Gomes, de 17 anos, competidor em Tornearia Mecânica. Em comum entre os dois líderes, a preocupação em manter elevada a confiança dos representantes de suas unidades, ambos estreantes na Olimpíada do Conhecimento.
Capítulo 5 – O entusiasta
O diretor regional do Senai-SC, Sérgio Roberto Arruda, está desde 1998 à frente da instituição e vem comandando todo o esforço para a expansão da rede de escolas e do número de vagas. “Investimento em tecnologia e educação não termina nunca. E uma questão fundamental da educação é a dos recursos humanos. Um bom professor, um bom instrutor, se motivado, dá aula até sem equipamento. Agora, se tiver laboratório, dará aulas ainda melhores.”
Os planos do Sistema Fiesc para o Senai-SC são de investimento de R$ 300 milhões no período de 2011 a 2015. Os equipamentos usados pelos competidores, por exemplo, resultaram de R$ 60 milhões de aplicações para a modernização dos laboratórios do Senai.
Arruda é um entusiasta a Olimpíada do Conhecimento. Como a competição tem as vertentes nacional e internacional, em sua visão é uma oportunidade para avaliar como está Santa Catarina frente ao restante do país e como está o Brasil diante dos demais países. “Nossa educação formal, propedêutica, tem grande dificuldade. O Brasil fica muito mal no ranking em avaliações internacionais. Em contrapartida, na educação profissional, representada pelo Senai, temos ficado entre os melhores do mundo. No WorldSkills de Londres, em 2011, ficamos atrás somente da Coreia, país que é destaque internacional em educação técnica”, comparou.
Segundo o diretor regional, o Senai-SC tem trabalhado conceitos de educação por competência, que não privilegia o simples conhecimento, mas o desenvolvimento de habilidades a partir do conhecimento. A educação por competência busca desenvolver também o que Arruda denomina de habilidades sócio-emocionais. “Muitas pessoas são demitidas das empresas não por falta de competência técnica, mas por falta de competência de se relacionar, de trabalhar em grupo.”
Em consequência desse trabalho, o nível dos estudantes catarinenses do Senai tem melhorado. Prova disto está na própria Olimpíada do Conhecimento 2013, cujo número de participantes aumentou em pelo menos 30% sobre a edição anterior. “Como para participar é necessário atingir um determinado índice, o aumento no número de participantes indica que mais alunos atingiram e superaram este índice”, comemora.
Capítulo 6 – O observador
O coordenador da Olimpíada do Conhecimento do Departamento Nacional do Senai, Luiz Leão, veio de Brasília para acompanhar o primeiro dia de competições. Um de seus objetivos é verificar se as etapas estaduais estão alinhadas com a nacional. “Muitos estados, caso de Santa Catarina, estão preocupados em utilizar as referências da competição nacional para garantir o alinhamento técnico e de estrutura. Todos têm em mente o desafio maior, que é integrar a delegação brasileira que vai para o WorldSkills.”
No torneio internacional de 2013, realizado em Leipzig, na Alemanha, o Brasil foi representado por quase 40 competidores que trouxeram o melhor resultado já obtido pelo país, com medalhas de ouro, prata, bronze e títulos de excelência. Com isso, o Brasil ficou em quinto lugar no quadro geral de quase 60 países concorrentes.
Leão contou que os estados estão investindo cada vez mais na preparação dos professores e dos alunos. “Mas o grande diferencial que observei aqui é que Santa Catarina conseguiu realizar uma Olimpíada com padrão nacional na etapa estadual. Ultrapassaram outros estados por conseguirem replicar o modelo nacional da competição. E isso será uma vantagem para os competidores que seguirem para a próxima etapa.”
Ele avalia que a Olimpíada é uma vitrine para atrair os jovens para o ensino técnico e profissionalizante e acredita que o “momento é especial”. Isso porque a parceria com do governo federal com o Senai tem proporcionado uma maior oferta de vagas. Em nível nacional, o Senai deve passar dos 2 milhões de matrículas em 2011 para 4 milhões em 2014. O incremento passa por vagas dedicadas a estudantes do Pronatec e pela instalação dos institutos de Tecnologia e de Inovação, que classificou como uma ação estruturante. “Santa Catarina receberá três institutos de Inovação e sete de Tecnologia. No país, serão 24 de Inovação e 63 de Tecnologia. É um grande projeto, financiado pelo governo federal via BNDES. Os investimentos em Educação, em Tecnologia e em Inovação levarão a indústria brasileira e o próprio país a uma melhor condição de competitividade. Em uma década o Brasil já terá uma face diferente no cenário internacional.”