Profa. Marilucia Flenik, Dra.
Damasco e as armas químicas. Obama e a decisão de “atacar” ou não a já tão castigada população síria
Nessa semana acompanhamos a evolução de mais um episódio de conflito no Oriento Médio, desta vez envolvendo a Guerra Civil da Síria e o uso de armas químicas. Quem sofre com isso são os civis, as crianças que morrem asfixiadas, as famílias que fogem apavoradas e armam uma pequena barraca no campo de refugiados, sem saber se haverá pelo menos um copo d’água para matar a sede.
Guerras e conflitos armados sempre existiram. Após o armistício, tal qual a fênix que ressurge das cinzas, a população que sobreviveu retoma a sua vida e reconstrói os seus lares. O problema atual diz respeito ao fato de que foram desenvolvidas armas tão letais que, se utilizadas, acabam com a espécie humana e seu nicho ecológico, que é este pobre e espoliado Planeta Terra.
A era contemporânea tem como marco inicial a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagazaki, no ano de 1945. Desde então somos a sociedade do risco.
Sempre se acreditou que as pessoas seriam capazes de distinguir o “certo” do “errado” mediante o alcance das regras e padrões morais pré-existentes, cuja validade decorre da lei divina ou natural. Essa pressuposição de certeza manifesta nos mandamentos morais foi colocada em cheque mate quando se descobriu que tanto a existência da humanidade, como do Planeta encontra-se em perigo pelas consequências do agir humano inconsequente e irresponsável.
A época moderna, que teve em Descartes (1596-1650) seu marco inicial, descobriu a razão humana e se caracterizou pela certeza, estabilidade, respeito à tradição, tempo linear, consenso. Por sua vez, a época contemporânea se caracteriza pela incerteza, complexidade, indeterminação, instabilidade, tempo urgente, quebra da tradição, novidade permanente, ritmo acelerado de consumir bens e descartá-los em tal velocidade que o ambiente não consegue absorver o lixo acumulado.
No seu livro Sociologia del Riesgo, Niklas Luhmann observa que o risco é um problema universal, inerente a toda e qualquer decisão, elemento primário da comunicação, operação pela qual a sociedade como sistema social se produz e reproduz por si mesma, sendo que o risco surge tanto para aquele que toma a decisão, como para os outros que são afetados pela decisão.
Para desenvolver sua teoria social dos sistemas, o autor utiliza a expressão “autopoise”, criada pelo biólogo Maturuna para os sistemas vivos, característica de unidades fechadas, produtos de si mesmas, distintas do meio circundante por meio de sua própria dinâmica interna.
Na brincadeira de roda entre as crianças, dadas as mãos, a teoria de sistema pode distinguir entre a forma da relação, a roda, como sistema, e o ambiente, as crianças. Tal distinção permite entender o caráter suprassubjetivo do social, uma vez que o sistema precede o sujeito.
O social não se reduz a mera soma de consciências individuais, sendo algo que “aparece” com suas peculiaridades, verdadeiras “leis” internas que constituem a organização do próprio sistema. O modelo autopoiético é circular, por isso não há sentido em se falar de causas e efeitos, sendo que tudo o que ocorre no sistema encontra-se determinado pela sua organização. É uma engrenagem que funciona inexoravelmente e colhe o indivíduo de roldão.
Obama exita… não “ataca” a Síria imediatamente como fez Bush quando atacou o Iraque (afinal a Síria não tem petróleo, como o Iraque, e nem ficou comprovado que o Sadan Hussein tivesse mesmo armas letais)… enfim… “eles” decidem e escrevem a História.
A possibilidade de dano é consequência da própria decisão, diante da complexidade e contingência em que transcorre a vida humana, sendo que na sociedade atual o futuro se apresenta como risco. O que acontecerá jamais dependerá de um acontecimento somente. Sempre há um enlace de circunstâncias de maneira que a inseguridade de multiplica e o futuro somente pode ser percebido no meio da probabilidade do mais ou menos provável ou improvável.
Nesta era da sociedade do risco e das massas, as pessoas são simples dentes dessa engrenagem globalizada, completamente afetadas pelas decisões daqueles que detém o poder. Luhmann é cético, sendo trágica a sua afirmação acerca dos protestos dos afetados pelas decisões, dizendo: “igual que los perros que ladran” pouco se pode fazer diante da engrenagem da política mundial.