Por Mariana Honesko

Nem sempre o caminho de casa é mais tranquilo. No caso dos menores que moram na Casa Lar e na Casa Abrigo, o retorno vai muito além de saber o caminho de volta. “A volta depende de a família aderir ao que é proposto”, explica a assistente social Maria Singeski, a “Mari”, da secretaria de Ação Social de União da Vitória. Por isso, o trabalho é longo e nem sempre garante os resultados que a equipe espera. Nos bastidores do reencontro, uma equipe grande, formada por profissionais das mais variadas áreas, militam para o final feliz. Mari e o psicólogo Arnaldo Fermiano Coelho trabalham diretamente com os abrigados e com suas famílias. “Nosso trabalho é voltado para que essa situação que levou ao acolhimento seja resolvida”, explica Coelho.
Nos abrigos, os nomes são diferentes, mas as histórias replicam-se. Violência, negligência e abusos motivam a saída de casa. É justamente na tentativa de moldar o comportamento dos abusadores e ajudar quem é acolhido, que a equipe de profissionais atua. Ela só entra em ação quando os menores já estão nas casas de apoio. “Vão para o abrigo os menores que tiveram os direitos violados, baseados no Estatuto da Criança e do Adolescente”, lembra o psicólogo. “Quando ele chega ao abrigo é porque todas as outras possibilidades foram esgotadas”, completa Mari.
Nas casas temporárias, crianças e adolescentes entram na rotina de um lar normal, em funcionamento. Há horário do banho, refeições, tarefas escolares e do descanso. A adaptação é lenta e a maioria dos novos moradores sinaliza carência de afeto e atenção. “Elas querem abraços, colo. Elas respondem ao carinho que a gente dá”, sorri Mari. O trabalho com quem ficou do lado de fora também caminha a passos lentos. Em alguns casos é preciso ensinar muito mais do que valores: há famílias que não nutrem laços e desconhecem, inclusive, orientações simples de higiene pessoal. Existe pouco ou até a falta de aceitação exige adaptação da equipe. “Quando não há a possibilidade de os menores voltarem para casa, tentamos fazer esse retorno com a família extensa, que são os tios, avós e até com quem tem vínculos afetivos, como madrinhas, padrinhos”, conta Coelho. O resultado favorável ainda ocupa uma pequena parcela. De acordo com o histórico do trabalho da Ação Social, os abrigados tem mais chance quando colocados para a adoção.
Uma chance para ser feliz
Quem senta diante da equipe revela sentimentos semelhantes. Saudades do que não se teve, medo e angústia. Com raras exceções, porém, os menores abrigados não apresentam quadro de problemas psíquicos. Antes, maturidade precoce e senso de responsabilidade. Um dos casos mais recentes e tocantes envolve um menino, de apenas cinco anos. Mesmo com pouca idade, ele sentia-se responsável pelos dois irmãos mais novos. Para ele e para tantos outros, coube à equipe devolver o direito de brincar. “Todos eles têm toda chance de terem muito sucesso, de serem bem sucedidos, com um futuro bom pela frente”, sorri Coelho.
Para o psicólogo, encontrar um final feliz é fruto de uma corrente. O principal, garante, é o respeito pela história de cada um. “Temos que tratar as pessoas com respeito, sem julgamento, com sensibilidade à história de cada e o mais importante, criar vínculos”, ensina.
Quem volta para casa, não fica desamparado. O trabalho da equipe de apoio segue pelos seis meses seguintes ao retorno. “Ou acompanhamos por mais tempo, se necessário for”, sorri Mari.
O risco da situação
Dentro dos padrões estipulados pelas diretrizes do Serviço Único de Assistência Social (SUAS) – nos moldes do que o SUS preconiza – o abrigamento está no perfil de alta complexidade. Os de baixa são tratados no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e os de média no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). O abrigamento é algo excepcional, temporário, aplicado apenas em situações extremas.