No dia em que o Brasil registrou mais 3.158 mortes pelo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez pronunciamento na terça-feira, 23, em cadeia de rádio e televisão afirmando que o governo nunca foi contra a vacinação e prometendo que não faltarão doses para imunizar toda a população. A fala, repleta de distorções, foi acompanhada de panelaços em diversas cidades do País.
O discurso de ontem, de cerca de quatro minutos, marca um recuo no tom negacionista do alcance da pandemia e foi provocada pelo desgaste político causado pelo aumento no número de casos e mortes causadas pela doença. “Quero destacar que hoje somos o quinto país que mais vacinou no mundo”, disse o presidente, usando um dado que representa apenas o número absoluto de vacinas aplicadas e não o proporcional em relação ao tamanho da população do País.
Bolsonaro ainda usou a narrativa de que seu governo tomou ações para garantir vacinas “logo no início da pandemia”. Durante meses, Bolsonaro duvidou da eficácia das vacinas e chegou a barrar a decisão de comprar a Coronavac, mesmo depois que o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, decidiu adquirir a vacina.
No discurso, que foi redigido com o auxílio do ministro das Comunicações, Fábio Faria, e com o chefe da Secom, almirante Flávio Rocha, Bolsonaro assume a promessa de que as vacinas serão garantidas a todos os brasileiros. “Quero tranquilizar o povo brasileiro, e afirmar que as vacinas estão garantidas. Ao final do ano, teremos alcançado mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população”, disse. “Muito em breve, retomaremos nossa vida normal”. No fim de sua fala, o presidente se solidarizou “com todos aqueles que tiveram perdas em suas famílias”. “Que Deus conforte seus corações. Estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros”.
Para tentar acentuar essa mudança de comportamento, Bolsonaro fechou o pronunciamento de pouco mais de quatro minutos dizendo “Somos incansáveis na luta contra o coronavírus. Essa é a missão e vamos cumpri-la”.
A mudança adotada por Bolsonaro é estratégica para reduzir os danos políticos a sua imagem. Ela acontece na véspera do seu encontro com representantes dos outros Poderes, que cobram uma ação mais organizada do governo no combate à pandemia. Na hora da fala do presidente, panelaços aconteceram em algumas das principais cidades do País. Os protestos ocorreram sob os gritos de “Fora Bolsonaro” e “Bolsonaro Genocida”, e foram registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Goiânia e Belo Horizonte, e outras cidades.