Jovem armado invade creche e mata cinco em SC

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Atualizado há 5 anos

Um jovem de 18 anos, identificado como Fabiano Kipper Mai, matou três crianças, com idades entre 6 meses e 2 anos, uma professora e uma funcionária ao invadir uma creche armado com um uma adaga no município de Saudades, a aproximadamente 60 quilômetros de Chapecó, no oeste de Santa Catarina, na terça-feira, 4. Contido pela população, antes da chegada da polícia, encontra-se ferido em estado grave.

De acordo com o delegado Jerônimo Marçal Ferreira, da Comarca de Pinhalzinho, o jovem não tem passagem pela polícia nem histórico criminal. “Era um rapaz discreto que morava na cidade e trabalhava em uma empresa de vestuário”, disse à Rádio Bandeirantes. Solteiro, o criminoso cursava o 9º ano do ensino fundamental. Segundo um familiar, que não quis se identificar, era uma pessoa “normal” e trabalhadora.

Mai chegou à creche Pró-Infância Aquarela, no centro, por volta das 10 horas. Logo ao entrar na creche atacou uma professora de 30 anos que, mesmo ferida, correu para uma sala onde estavam quatro crianças e uma funcionária da escola, na tentativa de alertar sobre o perigo. O rapaz, então, teria atacado as crianças que estavam na sala e a funcionária da escola. Duas meninas de menos de dois anos e a professora morreram no local. Outra criança e a funcionária morreram no hospital.

Para o delegado, trata-se de ação planejada. “O crime foi premeditado, ele chegou de bicicleta na creche, com uma mochila nas costas. Aí, uma professora o abordou e ele começou a atacá-la com golpes de facão nas costas.”

A polícia ainda investiga algumas hipóteses sobre a motivação, sendo uma delas a possibilidade de o rapaz estar participando de algum tipo de desafio online. Segundo o delegado regional, Ricardo Casagrande, equipes de ao menos quatro cidades estão envolvidas na investigação.
Ao chegar à creche, o Corpo de Bombeiros encontrou o jovem já contido por populares. Segundo eles, o jovem teria tentado o suicídio, com a arma do crime. Tinha um ferimento profundo no pescoço e perguntava sobre quantas vítimas teria conseguido atingir. Ele permanece internado no Hospital Regional do Oeste em Chapecó, onde passou por uma cirurgia ontem.

A primeira vítima foi a professora Keli Aniecevski, de 30 anos, que tentou evitar que o jovem chegasse às salas onde estavam as crianças (mais informações nesta página) e morreu no local. Mirla Renner, de 20 anos, era agente educativa e foi atacada ao lado de quatro crianças – chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital.

A Polícia Civil ainda confirmou os óbitos de Sarah Luiza Mahle Sehn, de 1 ano e 7 meses; Murilo Massing, de 1 ano e 9 meses; e Ana Bela Fernandes de Barros, de 1 ano e 8 meses. Uma quarta criança permanecia internada ontem à noite no Hospital Regional do Oeste em Chapecó. O hospital informou que não divulgará boletins clínicos, por determinação legal.

O governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), lamentou o ocorrido. “Todas as energias das forças de segurança da região devem ser empregadas no esclarecimento desse trágico episódio”, afirmou no Twitter. “Minha solidariedade às famílias, à comunidade escolar e a todos os moradores da acolhedora cidade do nosso Oeste.”

Em sua página oficial, a governadora em exercício Daniela Reinehr também se manifestou. “Decreto luto oficial de três dias no Estado.” O time da Chapecoense, foco de uma tragédia recente, divulgou nas redes: “Nosso coração está com vocês! #FORÇASAUDADES”.

O caso lembrou a tragédia de Janaúba (MG), em 5 de outubro de 2017. Naquele dia, o vigilante do Centro Infantil Municipal Gente Inocente, Damião Soares dos Santos, de 50 anos, invadiu uma sala com crianças de 3 a 7 anos, fechou a porta, lançou combustível e ateou fogo ao local e a quem estava ali. Ao todo 14 pessoas morreram, incluindo dez crianças, funcionárias e o agressor.

A professora Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, se prontificou a atender um estranho que apareceu na creche Pró-Infância Aquarela. Em Saudades, cidadezinha pacata no oeste de Santa Catarina, quem imaginaria uma tragédia? Pega desprevenida, foi atacada a golpes de facão e, mesmo com ferimentos graves, correu para alertar os demais sobre o agressor e tentar proteger os meninos e meninas, todos de 6 meses a 2 anos. Não houve tempo sequer para socorro médico: ela foi a primeira a ter morte confirmada.

“Keli foi uma verdadeira super-heroína. Conseguiu proteger várias crianças mas perdeu a própria vida”, diz a prima Silvana Ester Helfer, de 29 anos. As duas eram amigas desde a infância, quando a família de Keli se mudou de uma área afastada para um casa mais perto do centro. Neta mais velha, a professora era solteira, tinha um irmão e ainda morava com os pais.

Na verdade, Keli era formada em Sistemas de Informação, mas se dava bem mesmo com criança. Podia passar horas brincando ou cuidando delas. Tanto que conseguiu um emprego fora da sua área e já era professora da creche havia mais de cinco anos. “Eu tive uma filha, recém-nascida, que só viveu 2h30 e Keli seria a madrinha dela. Mas a nossa família nunca viveu nenhuma tragédia parecida com a de hoje”, afirma Silvana, que é mãe de outro menino. “Ele adora a tia. Na semana passada, até me perguntou quando a gente iria para a casa dela brincar.”

No seu perfil no Facebook, Keli costumava compartilhar mensagens positivas e campanhas beneficentes. Recentemente, publicou imagens de uma visita a um lar de idosos em Pinhalzinho, cidade vizinha. Também há posts de quando deixou o cabelo crescer para doá-lo. “Era uma pessoa muito alegre, espontânea e carismática. De uma luz interior incrível”, descreve Silvana, que foi para a casa dos tios, ampará-los, após o ataque. Com população estimada de 9,8 mil habitantes, é comum que as pessoas sejam próximas em Saudades. No entanto, a família de Keli diz nunca ter ouvido falar do criminoso – Fabiano Kipper Mai, de 18 anos.

Silvana conta que até acordou animada na manhã em que ocorreu a tragédia. Pôs uma música e começou a tirar as roupas da máquina de lavar, quando o telefone tocou. Era a mãe. “Filha, está sentada? É melhor sentar”, disse. “Levei um susto. A notícia chegou como uma bomba. Keli era uma pessoa tão boa que ninguém está acreditando ainda. Não há muito o que dizer. Já tentei deitar, puxar os olhos, dizer que é mentira. Queria muito que fosse mentira.”

Antes de trabalhar na creche em que aconteceu a tragédia, Mirla fazia trabalho voluntário no Rotaract Club de Saudades, uma divisão do Rotary voltada para jovens. Ali participou de campanhas pela doação de sangue, sendo ela mesma uma das doadoras. Em 2019, ela já atuava na escola municipal, onde se dedicava exclusivamente a uma aluna de 9 anos, portadora de necessidades especiais.

“Ela era muito dedicada, querida, meiga, estudiosa e toda delicada. Não consigo pensar em uma coisa ruim sobre ela”, conta a amiga Jamile Muller, de 32 anos. Ela conheceu Mila na Emef. Filha única, a moça era bem próxima da mãe, a quem se dedicava enquanto o pai viajava a trabalho.

Jamile lembra que Mila ficou próxima da aluna da qual cuidava – costumava até pintar as unhas da estudante. Concursada, a professora estudava inglês à noite e estava solteira havia poucos meses. “Ela sempre me dizia que não tinha nascido pra trabalhar com escolas, que o que ela gostava mesmo era de bebês. Por isso que ela estava na creche, porque estava fazendo o que gostava.” (Colaborou João Ker)

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