Rádio União: Há 70 anos tocando o seu coração

Emissora comemora posto de pioneira mas se descobre inovadora ao garantir um lugar especial na casa de seus ouvintes

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Atualizado há 13 anos

Por Mariana Honesko

Ela é a companheira de quem sai e vai para o trabalho. Das donas-de-casa é a sintonia certa para saber mais sobre a novela preferida, sobre o que os astros revelam para o seu signo ou ouvir a música mais tocada. Ela é informação, investigação, é notícia. A Rádio União comemora 70 anos hoje. Ao longo de suas sete décadas, a emissora foi e é a porta-voz do povo, das lideranças políticas. É ela quem noticia e transforma histórias em fatos.

Muito mais do que boa música, a Rádio União, a eterna Rainha e Pioneira do Vale, conseguiu superar os avanços tecnológicos e encontrar nas casas, nos carros e nos escritórios, a preferência na sintonia. Ela é a mais ouvida, a mais querida e a mais comprometida. Nos seus 70 anos, a Rádio União sabe de suas virtudes mas não perde o foco: houveram avanços, mas muitos outros ainda virão.

Espírito pioneiro é marca da emissora

Caique AgustiniQuem sintoniza a ZYD-3 1070 talvez nem imagina o que acontece do outro lado do aparelho. Nos bastidores, 27 profissionais trabalham todos os dias para garantir a melhor transmissão. “Temos ainda outros dez colaboradores que não são nossos funcionários”, lembra o Diretor Executivo da emissora, Caique Agustini. Aos 30 anos, ele está há dois no comando de um dos veículos mais tradicionais do Paraná. O trabalho, garante Caique, não é fácil, afinal, são 18 horas diárias de programação: um roteiro e tanto para suportar a tentativa de sufocamento provocada pelas mídias que surgiram desde o nascimento da emissora.

Carlos AgustiniA sobrevivência não é feita apenas pelas atrações que se renovaram. “O espírito de pioneirismo continua”, define Caique. As recentes ações explicam o que o diretor disse. A Rádio União foi líder na transmissão de todos os jogos dos campeonatos esportivos locais. Além disso, as coberturas eleitorais, como a do ano passado, registraram incríveis índices de audiência. Para o diretor, o entrosamento de uma equipe tão plural mas capaz de encontrar oportunidades nas perdas, faz a diferença e atinge em cheio o que se fala atrás dos microfones. “As pessoas não vivem sem o rádio. Ele tem uma importância muito grande e a Rádio União, por toda sua história, agrada muito. Ela passou pelos momentos mais difíceis da sociedade e está vida”, avalia o diretor geral da emissora, Carlos Agustini. “A gente que sempre gostou de rádio, queríamos ver ela no topo e isso aconteceu mesmo”, sorri.

As nuances de uma emissora tão complexa foi o que especialmente chamou a atenção da jornalista, Karoline Ruaro. A história da Rádio União ganhou capa e editoração e se transformou em uma obra de referência. O material, produzido em 2007, é uma dos poucos registros que contam a história da emissora. Durante sua pesquisa, Karoline registrou depoimentos carregados de emoção, de pessoas que construíram sua história dentro da Radio União e que nela formaram sua família. “Percebi que as pessoas gostaram muito de trabalhar na emissora e sentiam-se como se fizessem parte de uma grande família. Os colegas, funcionários, diretores, sempre trataram as pessoas muito bem. Lembro-me de Airton Maltauro, que relatava suas histórias com muito carinho e com lágrimas nos olhos, pensava em um dia encerrar sua carreira na mesma rádio que um dia o acolheu”, conta a jornalista. Na verdade, Airton Maltauro ainda mantém o mesmo desejo. Em 2002, ele interrompeu sua carreira na emissora para abraçar novos desafios profissionais. No entanto, sua paixão por toda carreira construída nos microfones ainda o emociona.

airton-maltauroMaltauro começou mansinho, em 1964, sendo apenas técnico de som. Logo, em uma aposta da então diretora, Lulu Augusto, ganhou espaço na locução. “Na época, eu comecei a ajudar na narração das corridas de bicicleta que eram realizadas na cidade. Comecei ajudando na narração e a cuidar disso”, lembra. Bem antes disso, era um ouvinte assíduo e participativo dos programas de auditório. “Acabei desenvolvendo essa paixão pelo rádio”, sorri. “Eu entrei e me dediquei muito. Nele, passei por todas as etapas. Fui desde auxiliar, cobrador de assinaturas, fazia a redação do noticiário”, lembra. O radialista integrou uma equipe que precisou driblar as dificuldades técnicas. Na época, a transmissão externa, por exemplo, dependia de linhas telefônicas que eram disponibilizadas apenas se houvesse o pedido com antecedência de dois ou três dias. “Precisei romper uma vida profissional que me projetou muito. Gostaria muito de voltar”, diz, sincero. Airton “encerrou” sua carreira em 2002, após quase 50 anos por trás dos microfones.

A obra assinada por Karoline vai mais longe do que narrar os desafios da radiocomunicação vividos por Maltauro e outros tantos nomes consagrados. Ela defende a permanência das rádios, mesmo diante de tantos avanços. “Eles estão servindo para aperfeiçoar o veículo, que é indispensável no cotidiano da comunidade”, avalia. Além disso, a profissionalização dos funcionários – a produção é assinada especialmente por quem já concluiu ou cursa a academia de Comunicação Social – garante a sobrevivência. “Fazendo a qualidade das informações aumentar e isso o público também reconhece”, sorri.

Uma garotinha que sabia cantar

Um dos clássicos programas da emissora tem um cantinho especial no coração de Terezinha Wolff. Aos 78 anos, sua memória é nítida quando fala do passado. Quando a emissora nasceu, Terezinha já era uma garota e gostava de cantar tanto quanto hoje. Na época, as primeiras oportunidades de mostrar sua voz surgiu no memorável “Alerta Petizada”, um programada de auditório que reuniu crianças menores de 12 anos no primeiro endereço da emissora, na Rua Getúlio Vargas.

A participação ao vivo era disputadíssima: ao longo da semana, as crianças precisavam procurar o então gerente da Rádio União, Aristides Adam. Ele era o responsável por quase tudo, inclusive, pelas inscrições dos candidatos ao melhor “gogó”. “O programa era aos domingos de manhã, depois da missa”, lembra Terezinha. E lá estava ela. No final de semana, Terezinha e outros tantos cantores mirins diante de um microfone e de uma multidão. “O auditório era pequeno e as pessoas ficavam até na rua olhando”, sorri. À capela, o músico, Orlando Milis acompanhava as apresentações, e não raro era apoiado pelas finas notas do piano. Sim, na época, o instrumento também estava no auditório.

Muito mais do que cantar na emissora, Terezinha lembra da função que ela exercia como mecanismo de divulgação, cobertura e formação de opinião. A história da ferrovia, parte do processo de navegação no rio Iguaçu e as grandes reviravoltas econômicas e políticas foram narradas pela equipe da Rádio União. “Ela era cenário para as discussões políticas, para a transmissão dos jogos”, menciona.

Como entretenimento, a emissora foi palco para outras clássicas revelações. Além de orquestras, que visitaram os estúdios, auditórios e os anfiteatros alugados para ocasiões emblemáticas – o Clube Apollo, por exemplo, foi escolhido como cenário para a comemoração do primeiro ano da emissora – artistas populares também aproveitaram o ambiente. “Gregório Barrios, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, todos estiveram na cidade, na emissora”, lembra Terezinha.

Fã das transmissões, Terezinha não esconde sua preferência. Para ela, o pioneirismo é a grande propaganda da Rádio União e é por apostar em quem abriu portas na comunicação que o seu rádio está sintonizado no mesmo canal. “A União foi a pioneira e as pessoas mais velhas acostumaram a escutar ela. A gente sintoniza outras também, mas a que fica, é a primeira, é a Rainha do Vale”, sorri.

Eloir Martins: sintonia com quem está longe

Eloir MartinsA paixão pelo que faz é nítida. Dono de uma voz macia e amistosa, Eloir Martins comanda há dez anos o “Bom dia União”. A relação que mantém com o público garante elogios e replica-se em picos de audiência. O estilo “AM” de ser, estreita sua programação. Martins fala como se estivesse de frente para o ouvinte e, mesmo sem vê-lo, sabe o que ele gosta de ouvir. “É algo informal, mais próximo do ouvinte”, explica. Para ele, o trabalho na Rádio União é a realização de um sonho.

Fã da emissora desde a adolescência, Martins passou de ouvinte participativo e menino de testes, para funcionário. “Comecei na programação da noite, depois nos plantões esportivos. Sempre fui apaixonado pela rádio. Eu participava, queria conhecer os locutores e desde os 16 anos vinha fazendo testes para trabalhar aqui”, conta.

Um dia, sua vez chegou. Uma das diretoras da época gostou da voz do jovem e logo o contratou. De lá para cá, já se passaram 18 anos mas o sentimento de alegria é tão vivo quanto nos primeiros dias de carreira. “É um prazer total. É paixão, é vida. Aqui esqueço dos problemas. Sempre digo que estou professor, já que leciono também, mas que sou radialista. Nada me faz mais feliz”, sorri.

Britão ousa e fala sem medo da verdade

Há 23 anos no ar, o programa Sem Medo da Verdade é outro grande líder em audiência. britãoDas 7 às 8 horas, Brittes Antônio Brittes dá seu “bom dia” com entusiasmo. Dinâmico, brincalhão e com uma voz mais alta que o convencional, “Britão” dá um tom mais suave para as notícias do cotidiano. “Não falo de desgraça, de notícias policiais. Prefiro fazer mais brincadeiras, ser alegre e feliz para que as pessoas saiam de casa assim também”, explica.

O radialista, preferência em um dos horários mais nobres para o rádio, sabe de seu potencial, mas se mostra reservado quando não está nos estúdios. Na emissora, porém, atribui à sinceridade à preferência do público. “Eu conto a realidade dos fatos. Eu até aumento, mas não crio. Eu divulgo a realidade do cotidiano”, explica.

Britão começou na Rádio Educadora. Logo, foi convidado para trabalhar na equipe da União. Em pouco tempo cativava o público. “A mãe me escutava e agora são seus filhos que me escutam”, sorri.

Um ano sem Jota Marcondes

Justamente no mês em que a Rádio União completa seus 70 anos, a emissora lamenta o primeiro ano de falecimento do radialista Juarez Marcondes. Considerado um gigante na comunicação, “Jota”, como era popularmente conhecido, morreu no dia 19 de outubro de 2012 e deixou uma legião de fãs, de ouvintes órfãos e de profissionais que se espelhavam em seu trabalho. Modelo de postura e amante rubro-negro, Jota marcou história, e fez a sua própria nas ondas do rádio.

No ar, a Rádio União!

rádio antigaEm uma época em que já exportava matéria-prima para diversos países, União da Vitória ainda não tinha uma emissora de rádio. Surge, portanto, no dia 10 de outubro de 1943, a Rainha do Vale. A Rádio União foi a segunda emissora do interior do Paraná e a terceira de todo o Estado. A pioneira tem como empreendedor, Abílio Holzmann e Manoel Machuca, de Ponta Grossa, como um dos fundadores. Era um momento de expansão dos negócios. Depois da inauguração da PRJ-2, emissora precursora em Ponta Grossa, as cidades vizinhas de União da Vitória e Porto União prometiam ser um celeiro de novas oportunidades, e os investimentos foram direcionados para as Cidades Irmãs. Ao longo de seus 70 anos, a União teve quatro endereços: na Avenida Getúlio Vargas, onde hoje está o Executive Center, na Manoel Ribas e na Visconde de Guarapuava. Hoje, se perpetua na Rua Dário Bordin, no centro de União da Vitória. Entre tantos diretores e profissionais que pela emissora já passaram, o grande destaque é atribuído ao nome de Aníbal Curi. Entre os anos de 1976 e 1999, a Rádio União fez parte das Organizações Curi, a qual Aníbal assinava a gerência. Mais tarde, um grupo de empresários comprou a estrutura e a integrou ao Grupo Verde Vale de Comunicação.

Rádio como objeto de estudo

O resgate de peças antigas, que marcaram a história da Rádio União estão disponíveis para o público. O acervo reúne discos de vinil, gravadores e muito outros equipamentos já ultrapassados pela tecnologia. A visita é uma volta ao passado e uma lição para quem gosta desta área. O material fica na emissora e pode ser visitado com agendamento. Outras informações, 3521 2050.

 

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