O Ibovespa mudou de sinal no meio da tarde – com Petrobras se ajustando então, ainda que moderadamente, à retomada da commodity (Brent a US$ 73 por barril) vindo de recente tombo, enquanto Vale ON e bancos limitavam as respectivas perdas -, em movimento que precedeu a melhora observada também nos índices de ações em Nova York, em recuperação pelo terceiro dia. Ao fim, o índice da B3 mostrava leve alta de 0,17%, a 126.146,66 pontos, entre mínima de 125.416,39 e máxima de 126.427,65, saindo de abertura a 125.929,74 pontos nesta quinta-feira, 22, de giro ainda fraco, a R$ 26,1 bilhões. Na semana, com uma perda e três ganhos seguidos, acumula agora pequeno avanço de 0,15%, limitando a baixa do mês a 0,52% – em 2021, o Ibovespa sobe 5,99%.
No encerramento, com Petrobras sem sinal único (ON +0,14%, PN -0,22%), as siderúrgicas (Usiminas +1,22%, Gerdau PN +0,86%) mostravam desempenho positivo, apesar da queda de 5,66% na cotação do minério de ferro na China (Qingdao), a US$ 202,63 por tonelada, nesta quinta-feira, após o gigante asiático ter reduzido a meta de produção de aço – Vale ON virou no fim e fechou em alta de 0,26%, na máxima do dia, a R$ 114,70. Na ponta do Ibovespa, destaque para Locaweb (+5,49%), Marfrig (+3,34%) e Cosan (+3,19%). No lado oposto, Banco Inter (-2,49%), Pão de Açúcar (-1,95%) e IRB (-1,50%). Entre as ações de grandes bancos, as perdas ficaram entre 0,78% (Bradesco PN) e 1,48% (BB ON).
Com ganhos limitados a 0,36% (Nasdaq) no fechamento desta quinta-feira, 22, os índices de Nova York se equilibraram entre a safra positiva de balanços trimestrais e dados econômicos que “não inspiram muito otimismo sobre a economia”, como observa em nota Edward Moya, analista da OANDA nos Estados Unidos. Segundo ele, as “ações cíclicas” tiveram desempenho inferior na sessão, devido à “suavidade dos dados econômicos de hoje, as dificuldades na aceleração da conta de gastos em infraestrutura de Biden, e realização (de lucros)”, com o mercado ainda à espera de sinais mais claros de que não haverá aperto prematuro na política monetária.
Por outro lado, a manutenção da orientação na zona do euro, com a decisão e os comentários do Banco Central Europeu (BCE) nesta quinta-feira, trouxeram algum alívio, em semana que havia sido iniciada com retomada de temores sobre eventuais efeitos da variante Delta do coronavírus sobre a retomada econômica global. “O mercado local tem estado voltado para o internacional, acompanhando o que acontece lá fora. Hoje, contribuiu a decisão, a comunicação do BCE: o cenário ainda é de estímulos monetários e fiscais”, diz Alexandre Brito, sócio da Finacap Investimentos.
“Em julho, especialmente nos últimos dias, temos visto saída de recursos estrangeiros da B3 – que haviam sido, como de costume, fundamentais para a mais recente renovação de topo, no início de junho. Mas, mesmo com esta saída de recursos estrangeiros, o investidor doméstico, principalmente o institucional, tem segurado o Ibovespa, comprando”, acrescenta Brito. “Temos um cenário ainda de retomada econômica para o segundo semestre, mantida a vacinação. Não vejo o mercado colocando preço no que chega da política: em algum momento, vai começar a olhar para 2022, e o governo tem buscado formar um capital político pensando nisso.”
“O Ibovespa trabalhou hoje na região dos 126 mil pontos, após ter chegado a ficar abaixo dos 125 mil na semana – o dólar, por outro lado, tem mostrado alta no curto prazo, agora negociado na casa de R$ 5,20. Nos Estados Unidos, houve aumento nos pedidos de auxílio-desemprego na semana até 17 de julho, o que nos mostra a necessidade, ainda, de um certo grau de estímulos na maior economia do mundo”, diz Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos.
Recentemente, no Brasil, a incerteza tem derivado até mais da política, estrito senso, do que da recuperação econômica, em andamento – mas, por enquanto, a atitude tem sido mais de observação do que de precificação. O mercado segue com atenção os desdobramentos em torno da reforma ministerial, em que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), cacique do Centrão, emerge agora, à frente da Casa Civil, como interlocutor entre o Palácio e o Congresso, em ministério considerado chave da Esplanada. De partida para um recriado Ministério do Emprego e Previdência, desmembrado da Economia, Onyx Lorenzoni abre espaço para o general reformado Luiz Eduardo Ramos, até então na Casa Civil, continuar no governo, na Secretaria-Geral da Presidência.
Apesar dos elogios públicos, hoje, do ministro Paulo Guedes (Economia) tanto a Onyx como a Nogueira, o mercado está atento à ascensão, no Planalto, do bloco de apoio parlamentar, pelo que significará em avanço na agenda de interesse dos investidores, como reformas e privatização, após o fim do recesso, em agosto, bem como por eventual custo político – na forma de gastos públicos, em momento no qual a arrecadação federal tem surpreendido positivamente, deixando para trás preocupações que prevaleciam nos primeiros meses do ano sobre a situação fiscal.
O noticiário político doméstico carregado, em meio à ampliação do espaço do Centrão no governo, e o ambiente externo menos propício ao risco fizeram o dólar interromper a sequência de dois pregões de queda para fechar em alta nesta quarta-feira, 22, com investidores recompondo posições defensivas.
Com máxima de R$ 5,2242, o dólar à vista encerrou a sessão negociado a R$ 5,2130, avanço de 0,41%. Com isso, a moeda americana acumula valorização de 1,74% na semana e de 4,82% em julho. O real ainda se recente de ter tido o pior desempenho entre as moedas emergentes na segunda-feira, dia 19, quando uma onda de aversão ao risco dominou os mercados e levou a divisa dos EUA a fechar em alta 2,64%.
Operadores e analistas atribuem parte da fraqueza da moeda brasileira ao clima de incertezas no campo político, em meio à perda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, alvejado pela CPI da Covid, e aos temores de antecipação do calendário eleitoral, com o governo abrindo a torneira do Orçamento.
Bolsonaro confirmou hoje a troca de cadeiras na Esplanada dos Ministérios, com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos próceres do Centrão, assumindo o Ministério da Casa Civil no lugar do general Luiz Eduardo Ramos – que pode assumir a Secretaria Geral da Presidência, hoje ocupada por Onyx Lorenzoni. Caberá a Onyx ocupar o Ministério do Emprego e Previdência, que será criado a partir do desmembramento do Ministério da Economia.
O ministro Paulo Guedes, da Economia, minimizou a perda da área de Emprego e Previdência, disse que a política econômica não muda e fez elogios tanto a Onyx quanto a Nogueira. Guedes também disse que já tem espaço no Orçamento para ampliação do Bolsa Família e voltou a defender a reforma do Imposto de Renda, com a taxação de lucros e dividendos.
Para Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, após uma trégua com o recesso parlamentar, o noticiário em Brasília voltou a contaminar a formação da taxa de câmbio. “Quando o dólar tenta dar uma melhorada, aparecem novos fatos que geram instabilidade. Agora existe essa percepção de que o presidente está fragilizado e busca uma recomposição com o Centrão”, afirma Galhardo. “Isso faz o mercado ficar muito arisco e buscar proteção no dólar enquanto não existe uma clareza do que vai acontecer”.
Pela manhã, o dólar até chegou a operar em queda e descer até a mínima de R$ 5,1694, em meio a muita volatilidade vinda do exterior, enquanto investidores absorviam dados ruins da economia americana e as declarações da presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, que garantiu a continuidade dos estímulos monetários – o que tende a tirar força do euro.
Lá fora, o DXY – que mede a variação da moeda americana em relação a seis divisas fortes – chacoalhou bastante, mas passou a trabalhar em alta ao longo da tarde. Em relação a divisas emergentes, o desempenho do dólar foi misto, com leve baixa em relação ao peso mexicano e alta firme ante o rand sul-africano após o Banco Central do país manter a taxa básica de juros em 3,5% ao ano.
Para Rodrigo Friedrich, head de renda variável da Renova Invest, escritório plugado ao BTG Pactual, a despeito dos dados mais fracos da economia americana, o mercado segue muito assustado com a inflação e a possível reação do Fed. “Temos a safra de balanço nos Estados Unidos agora e, em todos os comentários de resultados de instituições financeiras, aparece essa preocupação com a inflação”, diz Friedrich, que vê acredita em dólar na casa de R$ 5,30 no curto prazo.
Em nota a clientes, Richard Rytenband, economista e CEO da Convex Reserch Independente, afirma que uma “nova onda” de valorização do dólar “está em andamento” , em meio a um cenário de muita fragilidades da economia global e com a inflação alta nos Estados Unidos, o que pressiona o Fed.
Para Rytenband, o Brasil tem fragilidades, com o cenário político instável, taxas de juro ainda pouco atraentes, apesar do ciclo de aperto monetário, e provável reversão da dinâmica das contas externas, hoje favorável, com a retomada do crescimento econômico.
Os juros fecharam a quinta-feira, 22, com viés de alta nos vencimentos curtos e de queda nos longos. Em mais um dia sem condutores capazes de dar dinâmica clara às taxas e de agenda esvaziada, o mercado especulou com o exterior, a política e um eventual IPCA-15 de julho mais forte amanhã, o que ajuda a explicar a desinclinação da curva. O movimento de reforço das apostas de aperto de 0,75 ponto porcentual da Selic no Copom de agosto visto nos últimos dias estancou e o mercado voltou a ficar mais dividido em relação à possibilidade de aceleração no ritmo para 1 ponto porcentual. O leilão do Tesouro contribuiu para a volatilidade, embora com volumes e risco da operação (DV01) menores do que a anterior.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou a sessão regular em 5,82%, de 5,79% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 7,128% para 7,185%. O DI para janeiro de 2025 fechou a 8,11% (de 8,125% ontem) e o DI para janeiro de 2027 a 8,55%, de 8,573%.
Nas mesas de renda fixa, profissionais acreditam que o recuo no nível de inclinação possa ser resultado de um posicionamento mais conservador dos agentes para o IPCA-15, combinado à expectativa de manutenção dos estímulos de liquidez pelos principais bancos centrais em função de dados mais fracos hoje de atividade nos EUA e sinalização neste sentido do Banco Central Europeu (BCE) mais cedo. Hoje, saíram números de pedidos de auxílio desemprego americano acima do esperado e de forte recuo no índice de atividade do Fed de Chicago. Já o BCE indicou que terá de manter sua política monetária em níveis estimulativos diante das ameaças da variante delta sobre a economia.
A instabilidade externa trouxe volatilidade para a curva, reforçada pelo leilão do Tesouro. Em relação ao anterior de mesmos vencimentos, os lotes foram menores, com o de LTN passando de 11,5 milhões para 10 milhões e o de NTN-F, de 1 milhão para 450 mil. Com isso, o DV01, segundo a Renascença, caiu 28,6% ante a operação do dia 8. À tarde, passado do leilão, as taxas longas começaram a cair em sintonia com a aceleração da queda do rendimento da T-Note de dez anos. Nos EUA, o Tesouro também fez leilão, de US$ 16 bilhões em títulos atrelados à inflação (TIPS) de 10 anos registrou yield (retorno) de -1,016% e demanda abaixo da média.
Na política, sobre o desmembramento do Ministério da Economia para voltar a acomodar a área de Emprego e Previdência, o mercado viu com bons olhos o fato de que o atual secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, será o número 2 da pasta, como “secretário geral” de Onyx Lorenzoni.