Dólar cai 0,34% no dia com emergentes e encerra agosto com perda de 0,73%

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Atualizado há 5 anos

O dólar à vista encerrou a sessão desta terça-feira, 31, a última de agosto, em terreno negativo, alinhado à maré positiva para moedas emergentes no exterior, movimento atribuído tanto a dados fracos dos Estados Unidos – como o índice de confiança do consumidor em agosto (113,8, ante expectativa de 123,1) – quanto à continuidade dos ajustes ao tom ameno do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, ainda na sexta-feira.

Afora uma alta pontual logo após a abertura do pregão, o dólar trabalhou em queda durante todo o dia, com perdas mais acentuadas pela manhã, em meio à disputa pela formação da Ptax de agosto, referência para contratos futuros e balanços corporativos.

Dados positivos da economia brasileira (taxa de desemprego até junho e déficit primário do setor público em julho abaixo das projeções) teriam contribuído para o fortalecimento o real na primeira etapa de negócios, servindo do suporte as operações de “vendidos” (que apostam na queda do dólar), que já se beneficiavam dos ventos externos favoráveis.

Ao longo da tarde, passada a batalha pela formação da Ptax, o que deixou o mercado tecnicamente mais leve, dólar desacelerou o ritmo de perdas. O impulso externo também já era menor, com o índice DXY, que chegou a operar em queda firme pela manhã, passando a trabalhar entre leve alta e estabilidade. Por aqui, a piora da Bolsa e o avanço dos juros futuros, em meio a ruídos políticos, teriam tirado parte do fôlego do real.

Em meio à divulgação do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) de 2022 e declarações de membros da equipe econômica, o dólar chegou a ser negociado momentaneamente na casa de R$ 5,18. Apesar de trazer uma redução na previsão de déficit para 2022, o PLOA considera o pagamento total de R$ 89,1 bilhões em precatórios e não prevê ampliação do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil. Não se sabe ainda como atender ao desejo do presidente Jair Bolsonaro de reajustar o benefício social e manter o pagamento dos precatórios sem furar, mesmo que informalmente, o teto de gastos.

Em coletiva para falar sobre o PLOA, o secretário especial do Tesouro e Orçamento do ministério da Economia, Bruno Funchal, afirmou que a proposta de parcelamento dos precatórios tem como “grande objetivo” compatibilizar o pagamento das dívidas com o teto de gastos, o que traz “credibilidade”.

No fim do pregão, o dólar voltou a ceder um pouco mais, para a casa de R$ 5,17. Com máxima a R$ 5,1978 e mínima a R$ 5,1167, a moeda americana fechou a R$ 5,1719, em queda de 0,34%, encerrando agosto com desvalorização modesta (0,73%), após ter subido 4,76% em julho. No pior momento deste mês, a moeda americana chegou a superar R$ 5,40, ao fechar a 5,4228, no dia 19.

A perda de força do dólar nos últimos dias veio na esteira de uma combinação de fatores domésticos e externos. Lá fora, o principal evento foi a sinalização do presidente do Federal Reserve de que a política monetária americana seguirá acomodatícia. Por aqui, contribuíram para o alívio declarações recentes de respeito ao teto de gastos de autoridades, como o presidente da Câmara, Arthur Lira. A busca por uma solução para o imbróglio dos precatórios em conjunto com o Judiciário diminuiu também os temores de um descontrole das contas públicas.

O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que o real tem tido um desempenho similar a de outras moedas emergentes, mas que ainda acumula uma desvalorização relevante na comparação com seus pares, como o peso mexicano e o rand sul-africano – fenômeno que ele atribui, sobretudo, aos problemas domésticos.

“O dólar já poderia estar abaixo do nível de R$ 5,00. A sensação é que o real se mantém desvalorizado por toda essa questão fiscal, dos precatórios e do Bolsa Família, e dos problemas políticos, com essa briga do presidente com o STF”, afirma Weigt, ressaltando que, a despeito das quedas recentes, o preço de commodities exportadas pelo Brasil, como minério de ferro e soja, ainda está em patamares elevados.

Weig também lembra que os exportadores optam por manter os recursos no exterior, mesmo perdendo a remuneração oferecida pelos juros locais, cada vez mais elevados, justamente por causa da incerteza doméstica. “Olhando a liquidez grande lá fora, os fundamentos internos e as outras moedas emergentes, o real deveria se apreciar. Mas o clima de incerteza ainda é muito grande”, diz.

Em evento nesta terça pela manhã, o ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, afirmou que há fundamentos, como os termos de troca e a taxa Selic mais elevada, para apreciação do câmbio brasileiro, mas admitiu que “talvez não dê tempo” de alcançar a projeção de fim deste ano, de R$ 4,75. Mesquita observou que houve aumento do prêmio de risco, por causa das incerteza em relação à política fiscal, e que pode ocorrer uma antecipação de remessas de lucros e dividendos de multinacionais em meio à discussão da reforma do Imposto de Renda no Brasil.

A curva inclinou mais no período da tarde com a piora da percepção sobre a crise política e institucional e o risco fiscal no radar. As taxas curtas zeraram o viés de queda e terminaram estáveis e as longas subiram além dos 20 pontos-base. Depois da apresentação do PLOA de 2022, com redução drástica na previsão de déficit para 2022, chegaram a se afastar das máximas atingidas no começo da segunda etapa, mas no fechamento da sessão regular voltaram a acelerar.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 6,759% para 6,74% e a do DI para janeiro de 2023, de 8,405% para 8,48%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 9,95%, de 9,723% na segunda-feira.

O déficit do setor público consolidado em julho, de R$ 10,283 bilhões, veio abaixo da mediana das estimativas de saldo negativo de R$ 13,4 bilhões, mas não foi suficiente para se sobrepor às preocupações vindas de Brasília, com o mercado cada vez mais cauteloso com as manifestações programadas para 7 de setembro. Renan Sujii, analista de Investimentos, lembra que o mercado, que estará fechado naquela data, pode estar se antecipando a um eventual agravamento do quadro político uma vez que movimentos pró-Bolsonaro prometem “fazer barulho”.

A tarde já começou com taxas batendo máximas atribuídas à piora do clima institucional, dada a apuração do Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) de que a insatisfação do Senado com Guedes cresceu nos últimos dias e com isso também o risco de a pauta econômica patrocinada pelo governo “subir no telhado”. Também pesou a informação publicada pelo jornal de que o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, teria ameaçado bancos de perder negócios com o governo se assinassem nota da Fiesp.

Na última hora da sessão regular, houve a apresentação do PLOA 2022 e o mercado viu com bons olhos a redução da estimativa de déficit primário, de R$ 170,5 bilhões para R$ 50 bilhões, o que permitiu uma breve despressurização da curva. O secretário do Orçamento Federal, Ariosto Culau, disse que o governo está cada vez mais próximo do equilíbrio das contas, do déficit zero.

Diante de todo esse contexto, agosto terminou com ganho importante de inclinação na curva do DI em vários tipos de métricas. Na comparação entre o contrato mais líquido, janeiro de 2023, com o janeiro de 2027, melhor expoente da ponta longa, o spread abriu 24 pontos em relação ao fim de julho. Entre os DIs para janeiro de 2027 contra janeiro de 2022, o diferencial passou de 272 pontos em 30 de julho para 321 nesta terça.

De lá para cá o drama fiscal só cresceu pela questão dos precatórios e pressão política por expansão dos programas sociais que não encontram respaldo em receitas, pelo aumento das tensões entre Judiciário e Executivo e falta de consenso na reforma do imposto de renda. A crise hídrica, do mesmo modo, piorou, com níveis dos reservatórios baixando e exigindo acionamento das térmicas, cuja energia é mais cara.

O Ibovespa chegou ao fim da sessão e do mês estendendo as perdas iniciadas em julho, acumulando nesses dois últimos meses retração de 6,32%, em intervalo no qual o otimismo sobre a recuperação econômica e a relativa melhora das contas públicas deram lugar, rapidamente, a sinais de deterioração, puxada por perspectiva pior para o fiscal, pelo avanço da inflação e por ruídos políticos que se avolumaram, desembocando em crise institucional – situação que se agravou de forma a levar entidades empresariais a esboçar “manifestos” em defesa da harmonia entre Poderes, divulgados ou não, às vésperas do 7 de setembro.

Nesta terça-feira, moderando a correção perto do fim do dia, o Ibovespa fechou em baixa de 0,80%, aos 118.781,03 pontos, acumulando perda de 2,48% em agosto, a qual, no pior momento do mês, havia chegado a superar o recuo de 3,94% colhido ao longo de julho.

No ano, o Ibovespa voltou a mostrar nesta terça perda, de 0,20%, e retração de 1,57% acumulada até aqui na semana, em duas sessões negativas após o entusiasmo da última sexta-feira, desde o exterior, com o discurso ‘dovish’ do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, no simpósio anual de Jackson Hole. Vindo de duas sessões de volume enfraquecido, o giro financeiro foi a R$ 42,5 bilhões neste 31 de agosto.

Na mínima, o Ibovespa chegou nesta terça aos 117.910,97 pontos, à tarde, saindo de máxima pela manhã aos 120.156,94 pontos, com abertura a 119.737,95 pontos. No pior momento do mês, aos 114,8 mil pontos no intradia de 19 de agosto, tocou o menor patamar desde 29 de março. O nível de fechamento, nesta terça, foi o pior desde o último dia 26.

“Há cinco fatores que explicam as coisas, como temos visto desde julho: a variante Delta e a ameaça de outras variantes no futuro, que podem afetar a cadeia de suprimentos; a regulação na China, com o presidente Xi Jinping interferindo diretamente em setores da economia para consolidar ainda mais o poder; o barulho sem fim em Brasília; o enfraquecimento da confiança do consumidor americano, frustrado com os aumentos nos ‘big ticket items’, como casas e veículos; por fim, a incerteza ainda grande sobre o Fed e o ‘tapering’ – dependendo da leitura do payroll desta sexta-feira, se for forte, pode levar o Fed a fazer o anúncio em setembro, sobre o começo e o prazo (de efetivação da retirada de estímulos)”, diz Scott Hodgson, gestor de renda variável na Galapagos Capital.

“Há um imbróglio complexo entre política e fiscal, um não desenrolando o outro, e com STF e passeata (de 7 de setembro) no meio. E as reformas, sem avanço, assim como a definição sobre como ficarão o futuro Bolsa Família e o pagamento de precatórios. O exterior segue positivo e líquido, com o S&P 500 renovando por 12 vezes máximas históricas ao longo de agosto. Hoje, tivemos dados da China que não ajudaram, mas está faltando também um ‘trigger’ que leve o Ibovespa ao preço justo de 130 mil, para buscar, quem sabe, os 150 mil pontos. Há espaço para subir, tem gringo comprando por ‘valuation’, está barato”, diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vítreo.

“O mercado mais uma vez estressado, também com o Orçamento, que parece que não para de pé, já bem próximo de deadline. O mercado segue preocupado com o fiscal: andamos, andamos, e sempre voltamos para o mesmo assunto, o perigo fiscal no Brasil e a discussão do Orçamento, que não para de pé, o que se reflete não só na Bolsa, mas também em estresse nos DIs”, diz Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos.

Nesta última sessão de agosto, leitura desfavorável sobre o nível de atividade na China manteve as ações de commodities sob pressão, com perda de 1,37% para Vale ON e de 3,92% para Petrobras PN – em dia negativo para o Brent e no qual o presidente Bolsonaro voltou a manifestar preocupação com o preço de combustíveis -, e recuo de até 4,99% (CSN ON) no setor de siderurgia. O efeito foi em parte contrabalançado pelo desempenho majoritariamente positivo do setor financeiro na sessão, recuperado no fechamento, com ganhos de 0,56% (Bradesco PN) a 1,57% (Unit do Santander) entre as maiores instituições.

Na ponta do Ibovespa, destaque para alta de 5,60% em Braskem, à frente de Copel (+4,11%) e de Hypera (+3,49%). Na face oposta, CSN (-4,99%), Americanas ON (-4,24%) e Petrobras PN (-3,92%).

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