Artigo: O mundo nos pés

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Atualizado há 13 anos

Por Vanderlei Woytowicz 

Os pés molhados que andam pelas noites escuras procurando destino, são os mesmos pés que pisaram em folhas secas no jardim da cidade, sob estalos e vazios, que andaram sobre os raios do sol aquecendo-os em busca de luz, são os pés cansados de quem não desiste da caminhada. Pudera eu ter os pés de quem não desiste. Andamos sobre corda bamba e atravessamos o mar de possibilidades que existe sobre nós, um passo de cada vez, até que se chegue ao inesperado, onde a vida saboreia de perto o sopro que vem ao encontro dos pés guerreiros. Carregamos o peso de quem somos sobre eles, pés calejados que sangram, que descobrem rachaduras por onde passam, que veem o chão que pisam como morada temporária, não a direcionamento que se faça sem a pressão deles sobre a Terra.

Toda estrada é vedada aos olhos que não enxergam, dormimos em pé e vivemos tropeçando nas próprias pernas com pavor de andar só, mas as pedras continuam lá torcendo para que sejam notadas, ou a gente chuta ou as retiramos do caminho com cuidado pra que mais tarde elas não rolem sobre nossa cabeça e não esmaguem os pés que querem paz. Não te esqueces de que os olhos são cegos. A vida é mais do que você vê, e menos complicada do que você pensa. Eles seguem o som que os conduzem, cada passo dado é como um bater de assas em câmera lenta, caso eles fraquejem, as mãos seguram o mundo e não os abandonam, retomam o equilíbrio e o bater de asas é dado pela força de quem sopra pela felicidade dos outros. O apoio vindo das mãos que abraçam e tateiam a direção regida por eles: os pés que não desistem.

Olho para o alto, mas as árvores cobrem o céu, as sombras mancham a pele em forma de flor e os pássaros sobrevoam a chegada, é hora de rever aqueles sentimentos esquecidos, que toda a insegurança tenha sido deixada longe de mim, e que eu não a reencontre, não quero viver cego de amor mais nenhum minuto. Contemplar o destino dos pés, que nos levam às margens dos sonhos e ao alcance das realizações, próximo aos humanos capazes de ser estrada para o desconhecido tão esperado é poder viver sobre as estrelas e diante do sol, sobre chuva ou na companhia do vento. Não existe água que lave os pés vindos do chão, porque sempre haverá marcas do mundo carregado por eles.

Só haverá grandes vitórias, quanto mais profundas essas marcas forem, mesmo que doam a alma e escureçam os céus. Repousar e descansar as dores que viajam dentro de nós, e quando for hora a atadura dos olhos cairão sobre os pés, e os olhos terão a visão do mundo sem fragmentação, será hora dos olhos decidirem a próxima viagem. Que eles não os ceguem novamente, os humanos.

 

Vanderlei Woytowicz é acadêmico do curso de Psicologia da Fundação Universidade do Contestado – FunC Porto União

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