Por Mariana Honesko

No alto de seus 47 anos, Miriã Lopes Tonkio esbanja vitalidade. Suas expressões tão joviais e serenas quase anulam suas histórias, marcada por perdas, uma aposentadoria precoce e, mais recentemente, um transplante renal. Miriã encara o passado com um sentimento feliz e garante que foi com o artesanato que encontrou mais força e uma ocupação saudável para a mente. “Isso já vem de berço. A vó fazia trançados com canudos, fazia bolsas. A mãe fazia bordados, pintava. Eu aprendi com minhas amigas, em cursinhos e sempre tinha vontade de fazer”, sorri. A vontade era tanta que mais jovem, ainda em idade escolar, Miriã reprovou por se dedicar com exclusividade ao que aprendia nas aulas de crochê.
A artesã mora em uma aconchegante casa de madeira, no Bairro São Francisco, em Porto União. Boa parte do tempo fica na cozinha. A mesa onde faz as refeições com o marido, é também seu local de trabalho. Tudo é muito organizado e limpo. As peças chamam a atenção mesmo de longe. “Procuro colocar qualidade em tudo o que faço”, diz. O empenho é a resposta ao incentivo que recebeu de quem, há muitos anos, percebeu seu dom natural para os trabalhos manuais. “Minhas amigas me ajudaram muito e compraram os novelos de lã quando eu participava do Clube de Mães, em Santa Rosa. Minha primeira blusa de lá é uma das minhas principais produções”, lembra.

Tricô, crochê e bordados são apenas algumas das habilidades. Com as mãos, Miriã é capaz até de arriscar-se em trabalhos até então desconhecidos. Foi o que aconteceu quando, de repente, uma tela à óleo saiu de suas mãos. “Confesso que não gostei muito da técnica porque gosto de ver os resultados logo e a pintura tem seu tempo, exige mais paciência”, diz, com modéstia diante de um quadro que poderia passar facilmente pelo julgamento dos críticos da área.
A artesã, que tinha o amor pelo trabalho manual apenas como passatempo, encontrou nele sua força. Há seis anos, quando precisou parar de trabalhar por conta de uma complicação renal, ocupou o tempo e os pensamentos com as tramas de fios, agulhas e tintas. “Aposentada, em casa, comecei a fazer mais artesanato”, conta. O empenho já lhe deu bons frutos. Algumas de suas peças viajaram para muito longe. “Tenho um jogo de toalhas indo para Nova Iorque e um pano de prato de Natal foi para o Japão”, diz, com orgulho. Mais do que beleza, Miriã garante que coloca em cada traço sua paixão pelo que faz. “Eu adoro e sempre tenho vontade de aprender mais, de conhecer outras técnicas, de fazer outras coisas”, afirma.
Mudança de conceito
As complicações renais também trouxeram lições para Miriã. Contra a doação de órgãos, ela precisou de um transplante para devolver ao organismo suas condições normais. “Eu tinha até escrito nos documentos que não era doadora e um ano depois, precisava de um rim”, conta. Até receber a doação, Miriã enfrentou semanalmente as sessões de hemodiálise. Em três anos, teve seu perfil compatível com um doador. “Recebi o rim de uma pessoa já falecida. Fiquei 23 dias no hospital e acabou dando certo”, sorri.
A artesã é hoje uma das ativistas em prol da doação de órgãos e garante que o período hospitalar e a dependência do próximo para ter melhores condições, mudaram sua maneira de encarar a vida.
Onde encontrar os produtos?
Além de atender encomendas, as peças de Miriã estão na Arte do Porto, na Rua Sete de Setembro, em Porto União.