Colóquio, um dedo de prosa: Black Block vândalos ou revolucionários?

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Atualizado há 13 anos

Marilucia Flenik

        

Os mascarados e os protestos no Brasil

Black Block um movimento mundial de pessoas que cobrem os rostos e partem para a violência

Assistimos estarrecidos o fenômeno que tem ocorrido, especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde mascarados quebram agências bancárias, lojas, e destroem equipamentos públicos.

Os professores do Rio de Janeiro, que lutaram por melhorias nas condições do ensino e na valorização da classe, por mais de setenta dias, tiveram como “sombras” esses mascarados que agem com violência e se infiltram no meio das pessoas que protestam.

Quem são eles? O que querem? São pessoas que não estão satisfeitas com o modelo capitalista atual e querem promover uma revolução. Declaram não ter liderança, pois não aceitam quaisquer regras. No entanto, se articulam rapidamente pela internet e comparecem em grupos agindo como vândalos.

Um desvio comportamental? Um cancro social? Não seguramente. Convém prestar atenção na mensagem que estão passando. Cobrir os rostos significa não assumir a figura do sujeito de direitos e deveres do Estado de Direito. Eles querem mudar as estruturas políticas e jurídicas. A sua existência é um sinal importante para se reavaliar a adequação das instituições políticas aos tempos atuais, ditos pós-modernos porque carentes de compreensão.

A Modernidade foi a era da certeza, cujo modelo tinha na física de Newton o padrão. Existem leis universais e necessárias que regem o Universo. A sociedade podia ser comparada a um relógio de corda com sólidas engrenagens, que bem azeitadas funcionariam tranquilamente. Hoje é o tempo da física quântica. A matéria é resultado do equilíbrio de energias. O ser humano aprendeu a fissura do átomo e construiu a bomba atômica. O equilíbrio precário de forças pode a qualquer momento desestabilizar. Passo a palavra para o cientista Ilya Prigogine:

“Seguindo o segundo princípio da termodinâmica, os fenômenos irreversíveis criam entropia. Perto do equilíbrio, a termodinâmica descreve um mundo estável. Se existe flutuação, o sistema responde regressando ao seu estado de equilíbrio caracterizado pelo extremum da entropia ou de qualquer outro potencial termodinâmico. Mas, coisa bastante surpreendente, esta situação muda radicalmente quando nos colocamos longe do equilíbrio. As flutuações podem dar então origem a estruturas espaço-temporais novas. É portanto necessário que as leis da evolução sejam não lineares – o que nos conduz às estruturas dissipativas, que correspondem a novas organizações supramoleculares. [..] Todas estas novas estruturas se reproduzem em pontos de bifurcação. É aí que a antiga estrutura se torna instável e que nascem novas estruturas. É o nascimento do complexo. [..] Os conceitos de bifurcação, de auto-organização e de estrutura dissipativa, penetram cada vez mais em todas as ciências, incluindo as ciências humanas. [..] No início do século XXI temos a convicção de que chegamos a um ponto de bifurcação. Em exemplos simples, estudados em física ou em química, a bifurcação é precedida por fortes flutuações: não estamos a vê-las à nossa volta? Em que domínio se irá empenhar o século XXI? Que futuro terá o futuro?” (PRIGOGINE ILYA. Flecha do Tempo e Fim das Certezas. In: UNESCO. As chaves do século XXI. Lisboa: Instituto Piaget, 2002. p. 25-27)

Fica a pergunta: os mascarados brasileiros são bandidos, ou heróis revolucionários? Sua existência basta para sinalizar que as coisas não estão correndo a contento.

Um olhar na História nos leva para o dia 28 de junho de 1914, quando o cortejo do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria e sua esposa deixou o Paço Municipal de Sarajevo, e o motorista errou o caminho, que era protegido militarmente, entrando em uma rua secundária. Um jovem anarquista se deparou com o herdeiro do trono do Império Austríaco, sacou de sua arma e assassinou o Duque e a Duquesa. O resultado dessa ação foi o início da 1º Guerra Mundial (1914-1919), que redesenhou o mapa da Europa e preparou o terreno para a 2ª Guerra Mundial. O ato do jovem anarquista foi a “gota d’água” para deflagrar o conflito armado. O precário equilíbrio político existente foi rompido pela ação do anarquista.

Portanto, convém prestarmos atenção na ação dos atuais Black Blocks brasileiros. Alguma coisa eles estão querendo dizer e a evolução nem sempre é para melhor. Pode muito bem ocorrer um retrocesso no precário equilíbrio de forças do Estado Democrático brasileiro.

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