Em meio a problemas de oferta e de demanda, a indústria brasileira amargou em agosto o terceiro mês seguido de perdas. A produção recuou 0,7% em relação a julho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal divulgada na terça-feira, 5, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado foi pior do que o estimado por analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam um recuo mediano de 0,4%. Dos oito primeiros meses de 2021, a indústria cresceu em apenas dois deles: janeiro e maio.
Na passagem de julho para agosto, houve perdas em 15 das 26 atividades investigadas pela pesquisa do IBGE, com destaque para os segmentos de outros produtos químicos, derivados do petróleo, veículos e farmacêuticos. Apenas sete atividades industriais se mantêm operando em patamar superior ao do pré-pandemia.
“Os obstáculos são de diferentes ordens: do lado da oferta, ainda há gargalos na obtenção de insumos e pressão de custos; do lado da demanda, a inflação corrói poder de compra da população em um quadro de elevado desemprego. Além disso, o ambiente de incerteza se mantém, renovando suas causas sob os riscos da crise hídrica e da tensão política”, enumerou o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
A gestora de recursos XP Investimentos prevê nova retração na produção industrial em setembro, de 0,5%, embora ainda aguarde informações para fechar essa estimativa. “As restrições na oferta de insumos, a crise hídrica e os patamares elevados das cotações de commodities energéticas (petróleo e gás) tendem a impedir uma recuperação consistente da indústria de transformação brasileira no curto prazo”, justificou o economista da XP Rodolfo Margato.
Para o economista-sênior do Banco ABC Brasil, Daniel Xavier, a queda de agosto seguiu a dinâmica esperada de impactos na fabricação de automóveis e eletrodomésticos devido à escassez de insumos. “Basicamente, um quadro de desarranjo das cadeias produtivas globais, escassez de insumos e aumento de custos também”, disse Xavier.
Com o desempenho negativo de agosto, a indústria opera atualmente em patamar 2,9% inferior ao de fevereiro de 2020, no pré-pandemia. Quando ainda crescia, em janeiro, a indústria alcançou um saldo positivo de 3,5% em relação ao pré-covid.
“Medidas do governo ajudaram o setor industrial a ficar positivo até janeiro de 2021”, apontou André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.
O setor industrial já acumula uma perda de 6,2% de fevereiro a agosto de 2021. Segundo Macedo, a interrupção no pagamento do auxílio emergencial e seu posterior retorno, mas com valor menor, ajudam a explicar essa perda de fôlego.
“O resultado de agosto não difere muito do panorama que a gente vem apresentando ao longo de 2021. Claro que tem efeitos da pandemia sobre o processo produtivo, com desarranjo das cadeias produtivas, escassez de insumos, encarecimento dos custos de produção. E, pelo lado da demanda doméstica, a gente tem aquelas dificuldades registradas há algum tempo no mercado de trabalho”, disse Macedo.
O pesquisador cita que o País ainda tem mais de 14 milhões de desempregados, massa de salários sem expansão, precarização do emprego e inflação corroendo a renda disponível das famílias. Com o avanço da vacinação da população contra a covid-19, o consumo de serviços ainda tem concorrido com a aquisição de bens industriais, lembrou Macedo.
“A demanda por bens tende a voltar um pouco para serviços, então era esperada uma redução desse crescimento da indústria”, corroborou a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória.