Artigo: Aprendendo com os Cães

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Atualizado há 13 anos

Por Douglas Marques 

Algumas das reconhecidas qualidades positivas inerentes aos cães, e que foram fundamentais para que eles se tornassem o primeiro animal domesticado e um dos mais amados pela humanidade, são a fidelidade, a sociabilidade, o companheirismo e o amor incondicional. Todas essas características, por permitirem uma existência menos conturbada, são desejáveis para a maioria dos seres humanos, de tal modo que podemos dizer, sem o risco de sermos alfinetados por alguma associação humanista, que seria ótimo se fôssemos mais canídeos e menos primatas.

Além de Marley & Eu, existe, é claro, uma vasta infinidade de material que aborda esse assunto. Como declarou Goethe, “Tudo já foi dito”. Mas creio que existe uma característica dos cães em particular que, apesar de facilmente observável e fantasticamente útil, é pouquíssima comentada. Essa habilidade tem relação direta com a forma que os cães interagem com o ambiente e com a maneira que selecionam as informações circundantes: é a sua capacidade de constantemente se deslumbrar com coisas absolutamente banais.

O escritor Graciliano Ramos ilustrou com maestria essa habilidade, em seu livro Vidas Secas, na cena em que Baleia, a cachorra, fica maravilhada com a chuva de estrelinhas que Sinhá Vitória faz levantar da fogueira com um abano.  A cachorra já havia visto muitas fogueiras, havia visto as fagulhas, mas ainda assim, e quiçá pela centésima vez, foi capaz de se surpreender.  Se algum cão já teve o prazer de ter como companhia o leitor, o Leitor deve ter reparado na cena clássica do cão perseguindo o rabo.  Ora, a cauda sempre esteve ali, desde que ele nasceu, mas, de súbito, ela lhe aparece como uma coisa estranha, um brinquedo, merecedor de latidos, rosnados, merecedor de atenção e até, quem sabe, de umas boas mordidas.

A cena acima contém a chave para essa habilidade. Explico. É a atenção. O cão só percebe a existência do rabo porque, efetivamente, repara na existência do seu rabo. Isso parece óbvio demais, eu sei, mas não é. Humanos, em geral, não costumam fazer isso – refiro-me à atenção, não ao rabo. Se estivermos em um momento de descanso, lendo este jornal, por exemplo, com a espinha confortavelmente disposta ao longo de um espaldar estofado, não nos surpreenderemos se, ao virarmos a página, repararmos que na ponta de nossas mãos existem dedos. “Oh! Olhem aqui, que coisa absurda! Vou morder!”.

Precisamente porque nossa atenção funciona de uma maneira diversa da dos cães. Nós selecionamos apenas as informações do ambiente que são vitais para o que estamos fazendo no momento. Ao virar a página, nosso foco pode até não estar no jornal, mas nossa consciência já decretou quais informações do ambiente chegarão até nós. Tudo que nos é familiar e não tiver contundência, como o choro de uma criança ou uma luz forte, será arbitrariamente obliterado. A cientista cognitiva Alexandra Horowitz, escreveu, a propósito, um fascinante livro sobre o tema, “On Looking: Eleven Walks with Expert Eyes” (Amazon).

Mas não só de morder o rabo vivem os cães. Uma caminhada pela cidade é, para eles, sempre uma nova aventura, mesmo que a rota seja a mesma. Parecem crianças. Sempre estão revirando tudo, correndo de um lado ao outro, tentando fazer o dono ora acelerar o passo, ora parar para admirar uma fascinante moita, ou um fabuloso chinelo abandonado, ou um formidável pneu, uma poça, um degrau, um poste, uma lata, a calçada, enquanto humanos os obrigam, aos puxões, a seguirem em frente. E os humanos adultos, esses seguem correndo, sem reparar, como se usassem cabrestos, sem mais se deslumbrarem com coisas banais.

Douglas Marques é acadêmico de Jornalismo      

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