Há algum tempo se sabe que o Facebook tem problemas – nos últimos anos, além de protagonizar o escândalo de violação de dados Cambridge Analytica, a rede social tem sido acusada de impulsionar conteúdos nocivos como discurso de ódio e desinformação. Nestas últimas semanas, porém, as falhas da empresa ficaram concretas e ganharam nova dimensão: Frances Haugen, ex-funcionária da companhia, detalhou publicamente como o Facebook repetidamente escolheu lucrar e não proteger a segurança de seus usuários. As regulações sobre gigantes de tecnologia, que já vinham sendo ensaiadas, ganharam ares de urgência.
Frances tornou públicas pesquisas internas do Facebook que mostram negligência da empresa com a moderação de conteúdo em suas plataformas. As revelações, feitas inicialmente pelo jornal americano , indicam que o Facebook aumenta o alcance de publicações de ódio, permite a circulação de conteúdos sobre tráfico humano e de drogas, trata celebridades e políticos com regras diferenciadas e não mantém o mesmo nível de moderação em países fora dos Estados Unidos. Há também detalhes sobre o impacto do Instagram na saúde mental de crianças e adolescentes: os estudos mostram que 1 em cada 3 meninas que se sentiam mal com o próprio corpo ficavam ainda pior ao acessar o Instagram.
Muitos desses problemas já eram apontados há anos por especialistas, mas as denúncias são impactantes: agora, há informações tangíveis, levantadas pela própria empresa, que corroboram as pesquisas. Ao mostrar os efeitos tóxicos dos algoritmos, a denúncia coloca em xeque o coração do modelo de negócios do Facebook – e, de certa forma, de toda a indústria da tecnologia do mundo atual.
“Finalmente estamos chegando em um momento histórico em que as gigantes de tecnologia estão na fronteira de serem questionadas em seus poderes econômicos. Isso demorou muito para acontecer desde a última grande onda de pressão, marcada pelo caso antitruste da Microsoft nos anos 1990”, afirma Paulo Rená, professor de Direito no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). “Nesse cenário, esse tipo de denúncia ganha força”.
No caso do Facebook, a ficha caiu para muita gente na última segunda-feira, quando todos os apps da companhia, incluindo WhatsApp e Instagram, sofreram um apagão por sete horas. Além de atrapalhar a comunicação entre usuários no mundo todo, a pane impactou empresas que dependem dos serviços para atender seus clientes – segundo o Facebook, 3,5 bilhões de pessoas usam os seus produtos no mundo.