O dólar iniciou a semana em alta e voltou a ser negociado acima do nível de R$ 5,50, a despeito de nova rodada de injeção de recursos do Banco Central no mercado via operações de swaps cambiais. Em dia de apetite reduzido ao risco, o real liderou as perdas entre as divisas emergentes, castigadas em meio à escalada da inflação global resultante da crise energética e à decepção com dados fracos das economias da China e dos Estados Unidos.
Pesam contra a moeda brasileira a deterioração contínua das projeções econômicas (de inflação e crescimento), ratificadas pelo Boletim Focus desta segunda-feira, e as indefinições na área fiscal, dadas as negociações para a extensão do auxílio emergencial e a expectativa para votação da PEC dos Precatórios esta semana na Câmara. Além disso, há um clima da cautela diante da espera pelo relatório final da CPI da Covid e da ameaça de greve dos caminheiros a partir de 1º de novembro, embora a maior parte do mercado não acredite em um movimento amplo de paralisação por parte da categoria.
O Banco Central realizou nesta segunda pela manhã três leilões de swaps cambiais, no valor total de US$ 1,950 bilhão, mas na operação que representa injeção nova de liquidez, realizada às 9h30, reduziu a oferta à metade, para US$ 500 milhões. Nos três pregões anteriores, havia ofertado US 1 bilhão por dia.
Apesar da atuação do BC, o dólar à vista não apenas rompeu novamente o patamar de R$ 5,50 como chegou a flertar com o nível de R$ 5,55, ao correr até a máxima de R$ 5,5425 (1,61%). A escalada a moeda norte-americana chegou a levar parte dos agentes a cogitar uma nova intervenção do BC, hipótese que não se concretizou.
Ao longo da tarde, com a melhora das Bolsas americanas, acompanhada pelo Ibovespa, e diminuição das perdas demais divisas emergentes, a moeda norte-americana desacelerou o ritmo de alta por aqui. No fim da sessão, o dólar à vista subia 1,21%, a R$ 5,5205. Com os ganhos desta segunda, a moeda acumula alta de 1,36% em outubro e avança 6,39% no ano.
A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, observa que o dia foi marcado por cautela externa, com perdas das divisas emergentes, em meio a dados mais fracos na China. “O real está se desvalorizando mais que pares pela percepção de piora local com contínua revisão de crescimento para baixo e a expectativa pela votação dos Precatórios, e consequentemente, do novo Bolsa Família. E com isso a gente tem um cenário de aversão ao risco”, afirma Consorte.
O Boletim Focus trouxe nesta segunda queda na expectativa para o crescimento do PIB neste ano (de 5,04% para 5,01%) e para 2022 (de 1,54% para 1,50%). As projeções de inflação se deterioraram tanto para este ano (de 8,59% para 8,69%) quanto para o ano que vem (de 4,17% para 4,18%). Foram mantidas as estimativas para a taxa Selic no fim de 2021 (8,25%) e de 2022 (8,75%).
A conjunção de inflação em alta e crescimento baixo faz crescer os temores de medidas populistas por parte do presidente Jair Bolsonaro, que já acenou com a mudança na bandeira tarifária de energia (contrariando recomendação técnica) e enfrenta nova ameaça dos caminhoneiros. Tudo isso se dá em meio ao impasse do Orçamento de 2022, dada à indefinição das fontes de financiamento do Auxílio Brasil, o programa de que vai substituir o Bolsa Família.
O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), demonstra otimismo com a aprovação da PEC dos Precatórios – que vai liberar espaço no orçamento para o novo programa social – na Câmara nesta semana. Já a reforma do Imposto de Renda, outra fonte para o Auxílio Brasil, segue empacada no Senado.
É nesse cenário que se cogita a expansão do auxílio emergencial, via crédito suplementar. Em evento em Minas Gerais, Bolsonaro afirmou que a questão do auxílio emergencial será resolvida esta semana. Segundo o presidente, o novo valor do benefício (hoje de R$ 150 a 375 mensais) já teria até sido decidido no fim de semana em reunião com os ministros Paulo Guedes (Economia) e João Roma (Cidadania).
“O dólar não vai ter uma tendência de queda internamente enquanto não resolverem a questão fiscal, ainda mais com essa piora das expectativas de crescimento”, afirma Hideaki Iha, operador da Fair Corretora, ressaltando que a instabilidade política provoca volatilidade da taxa de câmbio, o que inibe os investidores e faz com que os exportadores esperem para internalizar recursos.
Para Iha, BC errou ao diminuir ao reduzir o valor da oferta de swap extra, de US$ 1 bilhão para US$ 500 milhões, já que é grande a demanda por proteção diante do ambiente interno conturbado e das preocupações com a saúde da economia mundial, em meio à inflação alta e temores de desaceleração da atividade na China. “Se o BC não entrar mais forte no mercado, não vejo como o dólar possa recuar. A tendência é continuar bastante pressionado”, afirma.
Os juros fecharam em alta, pressionados preocupações com a estagflação global, alta no rendimento dos Treasuries e no dólar, além de pessimismo com o cenário fiscal. O petróleo subiu em parte do dia, ajudando a adicionar cautela, mas depois inverteu para queda e contribuiu para que as taxas locais reduzissem o fôlego, também na esteira da desaceleração do avanço do dólar e das taxas do Tesouro norte-americano. A movimentação de caminhoneiros para uma possível paralisação traz ruído adicional, mas por ora não se vê risco de evoluir para o que houve em 2018.
O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou com taxa de 9,355%, de 9,29% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 10,27%, de 10,205% no ajuste de sexta, e a do DI para janeiro de 2027 subiu de 10,583% para 10,66%.
A desaceleração da China além do previsto trouxe mau humor aos mercados, ampliado depois pela queda inesperada da produção industrial nos Estados Unidos. Aqui, saiu mais uma Pesquisa Focus com piora nas estimativas de inflação e PIB.
As curvas globais têm sido afetadas pelas perspectivas de aperto nas condições de liquidez e no Brasil não é diferente, em meio aos desafios de domar a inflação, mesmo com sinais preocupantes para atividade. Não passa despercebido que diretores do Banco Central já começam a redirecionar o discurso sobre a próxima reunião do Copom. Recentemente, três deles lembraram que a ideia inicial é a de manter o ritmo de aperto da Selic em 1 ponto porcentual, mas que este nunca foi um compromisso fechado da autoridade monetária.
Ao longo do dia, aversão ao risco arrefeceu, abrindo espaço para melhora na curva, mas não capaz de reverter a alta das taxas por completo. O estrategista-chefe da CA Indosuez Brasil, Vladimir Caramaschi, disse que a desaceleração da China foi uma das poucas novidades do dia e que os DIs seguiram reagindo aos mesmos temas de antes, destacando que a pesquisa Focus “não foi boa”. “Há ainda expectativa com as decisões fiscais da semana, que não se sabe se serão muito ruins ou só ruins”, comentou.
Os principais focos em Brasília são a PEC dos Precatórios, que pode ser votada nos próximos dias na Câmara, onde o presidente da Casa disse esperar uma vitória tranquila. O problema é à frente, no Senado, onde o governo enfrenta mais resistência. Lá também está aguardando discussão a proposta de reforma do imposto de renda aprovada pelos deputados. “O Senado é o principal entrave para o progresso na agenda da PEC dos precatórios, reformas administrativa e tributária”, disse o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.
Quanto à decisão dos caminhoneiros, que declararam estado de greve no sábado e ameaçam parar o País a partir de 1º de novembro caso o governo federal não atenda às suas reivindicações, o mercado está cético de que a situação possa evoluir para algo que comprometa a economia. “Fica no radar e é motivo de desconforto, mas seria uma surpresa se fosse algo como o de maio de 2018”, comentou Caramaschi, para quem dessa vez não há tanta coordenação em relação às pautas e adesão dos profissionais.
Em dia misto em Nova York, com S&P 500 (+0,34%) e Nasdaq (+0,84%) no positivo, o Ibovespa conseguiu neutralizar ainda no começo da tarde as perdas que se impunham desde a manhã, em que as leituras abaixo do esperado sobre o PIB da China no terceiro trimestre e a produção industrial do país em setembro pressionaram, em especial, Vale (ON -0,94%) e o setor de siderurgia (CSN ON -4,13%, Usiminas PNA -3,02% no fechamento).
Assim, o Ibovespa não encontrou força para dar sequência à recuperação da sexta-feira, quando havia avançado 1,29%, a 114,6 mil pontos, apesar do bom desempenho de bancos (BB ON +1,99%, Bradesco PN +1,74%) nesta segunda-feira, e da performance estelar de Getnet, que chegou a superar 80% nesta sessão de estreia na B3 e também no Ibovespa – cindida de outro ativo (Unit do Santander) que já fazia parte da carteira teórica. Destaque também para Lojas Americanas (+20,72% no fechamento), impulsionada por noticiário da empresa sobre a estrutura societária.
Nesta segunda, o índice de referência fechou em leve baixa de 0,19%, aos 114.428,18 pontos, entre mínima de 112.840,52, pela manhã, e máxima de 114.926,85 pontos, à tarde, saindo de abertura a 114.646,73 pontos. No melhor momento da sessão, o Ibovespa foi mais uma vez ao maior nível intradia desde 16 de setembro (115.061,97). O giro financeiro foi de R$ 33,1 bilhões nesta segunda-feira e, no mês, o índice avança 3,11% – no ano, cai 3,86%.
“Ainda há um embate entre o micro, positivo, e o macro, que causa ruído e traz preocupação, na economia e na política. Na semana que vem, teremos resultados corporativos e, ao que tudo indica, tendem a ser favoráveis. Hoje, os dados da China também não ajudaram”, diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos.
“O dia foi bastante pesado pela manhã, com relação à China, em que os dados ficaram abaixo do esperado, e, no Brasil, o risco de mobilização dos caminhoneiros para uma possível greve no dia 1º”, diz Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos, chamando atenção também para os mais recentes desdobramentos em torno do Auxílio Brasil, futuro substituto do Bolsa Família – a princípio “mais caro e com maior abrangência” do que a do programa antecessor, o que mantém o foco do mercado sobre o cenário fiscal.
Em Brasília, o líder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), afirmou ao Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que o auxílio emergencial poderá ser prorrogado por 60 dias com um valor menor enquanto o Executivo discute a viabilidade do Auxílio Brasil. Pouco antes, em evento em Minas Gerais, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o Executivo vai resolver a extensão do auxílio emergencial ainda nesta semana. Segundo disse, o valor do benefício, não explicitado pelo presidente, foi decidido em reunião no último sábado com os ministros Paulo Guedes, da Economia, e João Roma, da Cidadania.
O mercado também acompanhou de perto o noticiário corporativo, com destaque para Lojas Americanas. “A companhia anunciou que está fazendo estudos para eventualmente unificar as três classes de ações (LAME3, LAME4 e AMER3) no Brasil, antes do processo de listagem lá fora. Com isso, essas três classes seriam concentradas no Novo Mercado – com ações ordinárias, 100% de ‘tag along’ -, ou seja, o melhor nível de governança corporativa”, diz Danniela Eiger, head de varejo e co-head de Equity Research da XP. “Este é um ponto que os investidores sempre buscaram e questionaram na companhia, a principal frustração sobre a forma como a fusão foi feita no início deste ano; então há uma visão muito positiva (agora)”, acrescenta. “Além disso, neste cenário, seria eliminada a estrutura de holding. Hoje, a Lame tem uma participação de cerca de 39% na Americanas (AMER3), e isso deixaria de existir, o que é outro ponto positivo porque hoje as ações refletiam desconto de holding, de mais ou menos 25%, que na nossa visão é o principal motivo para essa diferença entre Lame e Amer.”
“Ainda é um estudo preliminar, não se sabe a relação de troca das ações, algo que é preciso esperar para se ter opinião mais embasada sobre o impacto econômico para os acionistas. Mas, de forma geral, é algo positivo porque simplifica a estrutura societária e eleva a companhia ao melhor nível de governança da Bolsa”, conclui a especialista da XP.
Na ponta do Ibovespa nesta segunda-feira, bem atrás da estreante Getnet (+63,57%) e de Lojas Americanas PN (+20,72%), destaque para Americanas ON (+4,33%) e para Locaweb (+4,26%). Na face oposta do índice, Pão de Açúcar (-6,46%), Banco Inter (PN -4,74%) e CSN (ON -4,13%).