O mercado doméstico de câmbio foi atingido nesta quinta-feira pelo o que analistas costumam chamar de tempestade perfeita. Aos sinais inequívocos de que o governo Jair Bolsonaro está disposto a usar expedientes para driblar o teto de gastos, na tentativa de se cacifar para a corrida eleitoral, somou-se nesta quinta uma onda de fortalecimento global da moeda norte-americana que castigou divisas emergentes.
Em meio ao azedume com o aumento do risco fiscal, o dólar à vista já iniciou o dia em forte alta, rompendo o teto de R$ 5,65 logo nos primeiros minutos do pregão. Era evidente o mau humor com declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes,na quarta à noite, de que o governo pode pedir um “waiver”, uma “licença para gastar” além do que o teto permite para bancar o Auxílio Brasil. Tido outrora como fiador da austeridade fiscal, Guedes disse que a “política é quem decide”, admitindo a perda da queda de braço dentro do Palácio do Planalto.
“Guedes perdeu a credibilidade do mercado com uma série de decisões, como a taxação de dividendos, o aumento do IOF, a questão dos precatórios, que representa um calote, e agora o rompimento do teto. Ele já não tem mais condições de ancorar as expectativas do mercado”, afirma o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto.
O ministro da Economia também deixou escapar na quarta que o governo trabalhava com uma mudança no cálculo do teto de gastos – uma manobra com cheiro de contabilidade criativa. Reportagem exclusiva do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) revelou nesta quinta à tarde que as alas política e econômica haviam chegado a um acordo para alterar a fórmula do teto, o que, aliada à limitação do pagamento de Precatórios, abriria uma folga de R$ 83,6 bilhões no Orçamento.
Foi o que bastou para que o dólar, que havia arrefecido um pouco o ímpeto altista, voltasse a acelerar. O caldo entornou de vez com declarações do presidente Jair Bolsonaro, durante evento em Pernambuco, de que atenderia a demanda de caminhoneiros autônomos de auxílio para compensar a alta do diesel. Fontes ouvidas pelo Broadcast informaram que a tal ajuda aos caminheiros poderia ser de R$ 400 por mês (de dezembro deste ano a dezembro de 2022), em custo total estimado em cerca de R$ 4 bilhões.
Em resposta a mais um sinal de que o governo está disposto a abrir os cofres, o dólar chegou a superar a casa de R$ 5,69, ao tocar na máxima de R$ 5,6905 (+2,33%). A moeda americana desacelerou o ritmo de alta em meio à divulgação de detalhes do novo texto da PEC do precatório pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), amenizando um pouco o nível de incerteza sobre os planos do governo.
A intenção, como adiantado pelo Broadcast, é mudar, de fato, as regras do teto. Criado em 2016 e implementado em 2017, o teto prevê correção do limite de gastos pela inflação acumulada em 12 meses até junho. A proposta é alterar a correção para inflação de janeiro a dezembro – recalculando os limites desde 2016. Essa mudança proporcionará uma folga orçamentária e R$ 40 bilhões, que aliada à limitação do pagamento de precatórios – joga o espaço fiscal em 2022 para R$ 83,6 bilhões.
No fim da sessão, o dólar era negociado em alta de 1,92%, a R$ 5,6676, maior valor desde 14 de abril (R$ 5,6705). A moeda acumula valorização de 3,90% nesta semana e de 4,07% em outubro. Na B3, o giro com o contrato futuro de dólar para novembro – termômetro do apetite para negócios, era robusto, de mais de US$ 19 bilhões.
O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt observa que aumento de gastos cogitado até agora não altera de forma relevante a relação dívida/PIB, principal indicador da saúde fiscal do país. O que assusta o mercado, diz Weigt, é a incerteza em relação à magnitude das despesas e à manutenção da âncora fiscal. “A solução menos ruim seria colocar despesas pontuais extrateto. Não tem que mudar a regra do teto”, afirma Weigt. “O problema é que não se sabe quanto vai ser gasto. Falam de auxílio de R$ 400, mas pode ser R$ 500, R$ 600, e podem inventar outras despesas”, acrescenta o tesoureiro, dando como exemplo a notícia de que o governo pretende subsidiar o diesel para os caminhoneiros.
Não bastassem as pressões internas, o dia lá fora foi marcado por uma rodada de fortalecimento da moeda americana, com investidores adotando uma postura defensiva em meio aos problemas de solvência da incorporadora chinesa Evergrande. Também dava fôlego ao dólar o aumento das apostas de que o Federal Reserve pode começar a subir os juros ainda no início do segundo semestre de 2022. A onda de inflação global não mostra sinais de arrefecimento e pode ensejar uma mudança na política monetária nos países desenvolvidos mais cedo do que se imaginava.
O índice DXY – que mede a variação da moeda americana frente a seis divisas fortes – operou em alta firme ao longo do dia, na casa dos 93. O dólar subiu com força também em relação a divisas emergentes e de países exportadores de commodities. Entre os pares do real, a valorização era de 1,60% ante o rand e superior a 0,40% frente ao peso mexicano. A maior valorização se dava na comparação com a lira Turca (+3%), reflexo da decisão do Banco Central Turco de cortar a taxa os juros (de 18% para 16%), após o presidente Recep Tayyip Erdogan ordenar a demissão de três dirigentes da autoridade monetária.
“O ambiente externo é de alta do dólar. A aversão ao risco aumentou novamente com preocupações de desaceleração da economia chinesa, que enfrenta crise energética e no setor imobiliário. Além disso, o Fed deve começar o tapering mesmo em novembro”, diz Netto, da Acqua-Vero Investimentos, que não vê espaço para o dólar voltar a ser negociado abaixo de R$ 5,50 no curto prazo. “Se as condições se deteriorarem, podemos ver o dólar batendo em R$ 5,70. O BC não entrou hoje, com esse estresse todo. Isso mostra que ele vai atuar apenas para dar liquidez no momento em que houver fluxos relevantes de saída.”
Os juros futuros dispararam nesta quinta-feira, com a parte intermediária da curva sendo, a exemplo dos últimos dias, a mais penalizada pela deterioração de risco fiscal. O endosso da equipe econômica ao rompimento da teto de gastos para pavimentar o programa Auxílio Brasil catapultou as taxas e reforçou a expectativa de um aperto monetário mais agressivo. A precificação nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) mostra apostas majoritárias em alta de 1,5 ponto porcentual da Selic para o Copom da semana que vem, enquanto nos Departamentos Econômicos já surgem previsões de que a taxa básica estará novamente em dois dígitos ao fim do ciclo.
A taxa do contrato de DI para janeiro de 2023 fechou em 10,48%, de 9,913% no ajuste e 10,16% no fechamento de quarta. A do DI para janeiro de 2025 encerrou a 11,49%, de 10,906% (ajuste) e 11,14% (fechamento), e a do DI para janeiro de 2027 subiu de 11,274% (ajuste) e 11,48% (fechamento) para 11,80%. E o DI para janeiro de 2029 bateu em 12,00%, de 11,622% no ajuste anterior e 11,69% no fechamento.
O avanço foi maior ante os ajustes do que em relação ao fechamento da sessão de quarta, uma vez que na etapa estendida os DIs esticaram o fôlego na esteira das declarações do ministro Paulo Guedes, admitindo a necessidade de uma “licença para gastar” R$ 30 bilhões fora do teto. Dados os estragos no mercado e para não configurar desrespeito à regra, o governo nesta quinta propôs mudança na fórmula de correção do teto, que vai abrir um espaço de R$ 83,6 bilhões para despesas adicionais em 2022, ano em que o presidente Jair Bolsonaro buscará sua reeleição.
Mas a alteração não “colou”. “Do ponto de vista legal, tudo bem. Do ponto de vista fiscal é que é muito ruim, tanto é que o mercado reage a isso”, avaliou o secretário de Macroavaliação Governamental do Tribunal de Contas da União (TCU), Alessandro Caldeira.
“O furo ao teto avalizado pela Economia mostra que as máscaras caíram e isso tudo às vésperas do Copom”, disse o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito.
Ele ainda espera alta de 1 ponto da Selic na próxima reunião, mas disse que o quadro fiscal agora foi “profundamente” alterado justificando uma deterioração no balanço de riscos para a inflação e consequente aceleração do ritmo de aperto. “Será uma das reuniões mais desafiadoras dos últimos tempos”, disse.
A curva do DI não só apagou as apostas de aumento de 1 ponto na Selic como agora mostra expectativa majoritária de elevação de 1,5 ponto para o Copom de outubro. A Greenbay Investimentos informou que a precificação nesta tarde apontava 70% de chance de alta de 1,5 ponto contra 30% de chance de aumento de 1,25 ponto.
O impacto do furo do teto sobre a curva ainda foi amplificado à tarde, levando as taxas às máximas depois que o presidente Jair Bolsonaro anunciou a criação de um benefício a caminhoneiros, que ameaçam paralisação a partir de 1º de novembro.
O pacote de bondades sendo costurado pelo governo foi recebido pelo mercado com uma apreensão: a de que o manche foi assumido de vez pela ala política para viabilizar a reeleição em 2022.
Assim, no pior momento, com dólar perto de R$ 5,70 na máxima do dia, o Ibovespa mergulhou 4,58%, a 105.713,81 pontos, menor nível intradia desde 20 de novembro de 2020.
O índice encerrou esta quinta-feira um pouco mais “acomodado”, em queda de 2,75%, a 107.735,01 pontos, mínima de fechamento desde 23 de novembro (107.378,92), sem condição de notar a máxima histórica intradia do S&P 500, renovada à tarde e confirmada também no encerramento. O CDS de 5 anos, medida de risco-país, foi ao maior nível desde o fim de março, com a deterioração da perspectiva fiscal doméstica. Na semana, as perdas do Ibovespa chegam agora a 6,03%, com as do mês a 2,92% – no ano, o índice cede 9,48%.
Na B3, apenas três ações da carteira Ibovespa conseguiram escapar da correção: Suzano (+1,65%) e BB Seguridade (+0,80%), com Klabin sem variação no fechamento desta quinta-feira, após chegar a sustentar algum ganho. As perdas em Petrobras foram a 3,38% no fechamento (PN), com queda de 1,64% em Vale ON, de até 5,41% na siderurgia (Usiminas PNA), até 6,95% em utilities (Cemig PN) e de até 4,24% (BB ON) entre os grandes bancos. Na ponta do Ibovespa, segundo dia de forte realização de lucros para a recém-estreante Getnet (-19,76%), seguida por Americanas ON (-10,76%) e por Banco Inter (Unit -10,70%).
Fortalecido, o giro financeiro foi a R$ 49,0 bilhões no encerramento, com o Ibovespa saindo de abertura a 110.767,14 pontos, correspondente por certo à máxima do dia – entre o pico e o piso da sessão, a variação foi de 5.053,33 pontos, ainda maior do que a de terça, quando o Ibovespa conseguiu conter perdas após o cancelamento de última hora da cerimônia em que seria feito o anúncio do Auxílio Brasil, em sinal percebido então como de força da equipe econômica na queda de braço com a ala política. Na quarta, pelo contrário, o índice quase zerou os ganhos no fechamento, com a reação inicial ao aceno do ministro Paulo Guedes (Economia), no fim da tarde, de que a política é quem tem voto e, portanto, a palavra final sobre o aconselhamento técnico – uma reviravolta recebida nesta quinta como traição no mercado.
Seja como excepcionalidade – ‘waiver’ no termo usado na quarta por Guedes – ou como antecipação da revisão do teto de gastos, prevista para 2026, as palavras de quarta do ministro já contribuíam para firmar a percepção de que a política estaria ganhando a disputa contra a recomendação técnica, à medida que se aproxima a batalha eleitoral de 2022. Os desdobramentos desta quinta levaram esta percepção um pouco mais adiante.
“O impacto foi imediato, acentuando piora que já vinha do começo da semana, com os juros futuros impactados, em elevação muito rápida na curva – os prazos de 5, 6 anos, batendo acima de 12% ao ano, patamar que há três meses a gente jamais imaginava que fosse chegar. Obviamente, toda essa situação, de perda do alicerce fiscal, recoloca o Brasil em ciclo antigo, já conhecido, com relação à inflação e aos juros”, diz Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos.
“Para o mercado, o que mais surpreende é que o que sempre tinha ali era a equipe econômica, o Paulo Guedes tentando segurar o ímpeto populista do governo, que pensa em eleição. Ontem, aparentemente ele jogou a toalha, tirando o time de campo com relação ao teto, ao falar que a política é quem manda. Aversão a risco total”, acrescenta Marcatti, observando que a Bolsa tende a sofrer um pouco menos do que o câmbio e os juros, mas ainda assim realizando, pelo aumento da aversão a risco.
“EWZ (ETF de Brasil em Nova York) caindo praticamente 6% enquanto Ibovespa cedia 4% à tarde. Governo vendeu a alma para o Centrão, e perde a credibilidade que ainda tinha com o mercado financeiro brasileiro. Muito estresse na curva de juros, o principal termômetro da tensão no mercado, com o dólar também se valorizando, apesar da presença do BC nesta semana. O mercado é soberano, e esta semana pode ser um grande divisor de águas”, diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.
“Movimentação vista nos últimos dias no governo já vinha sendo ensaiada, já vinha amadurecendo há algum tempo. Tanto o presidente como Guedes vinham abandonando o discurso de responsabilidade fiscal, sob pressão do Legislativo também. Até pela queda de popularidade de Bolsonaro, era de esperar que isso se intensificasse mesmo, com a proximidade das eleições”, diz Paulo Duarte, economista-chefe da Valor Investimentos. “Mercados muito nervosos hoje, e se não houver uma correção de rumo pelo governo, a tendência é de que a reação se intensifique”, acrescenta.