O músico baiano Letieres Leite, um dos mais criativos e inspiradores artistas de seu tempo, morreu na quarta-feira, dia 27. A causa da morte ainda não havia sido anunciada até a tarde do mesmo dia. Letieres tinha 61 anos, era arranjador, compositor, instrumentista, debatia a música das ruas e dos terreiros do Brasil com conhecimento empírico e científico e comandava o Instituto e a Orquestra Rumpilezz, na Bahia.
Sua partida devastou duas áreas que o conheciam bem: a música pop baiana e a instrumental. Ivete Sangalo, que o teve em seu conjunto por 12 anos, escreveu: “Só aprendi coisas maravilhosas convivendo com você. A Deusa música nos uniu e me presenteou com essa alma linda que é a sua. Estou triste por sua partida”. Ed Motta chorou e escreveu: “Você era imenso, a natureza te recebe com todos os louvores que você plantou. Você é um capítulo único na música do mundo. Uma bênção ser seu amigo, e me sinto ainda mais protegido por você. Descansa na sua sabedoria eterna”.
Letieres deixou um álbum inédito que deve sair ainda este ano em formato de LP pela gravadora Rocinante. Trata-se da releitura que ele fez para a obra Coisas, do antológico compositor Moacir Santos, lançada originalmente em 1965. O sonho de ver Letieres tocando Moacir, uma espécie de sequência natural em uma rara linhagem de autores que observavam a música dos terreiros com critérios acadêmicos e a levava para a linguagem sinfônica, foi dos jornalistas Ramiro Zwetsch e Filipe Luna, que apresentaram a proposta a Letieres em 2017. O baiano escreveu os arranjos para sua Rumpilezz e se apresentou com ela no Sesc Pinheiros. Depois, levou o repertório para os estúdios da Rocinante.
Por seus 30 anos de carreira, Letieres se aproximou da música de forma autodidata, ainda adolescente. A partir de 1985, viveu na Áustria e estudou no Franz Schubert Konservatorium, em Viena. Foi quando conheceu músicos europeus renomados e participou de vários festivais na Europa e também no Brasil. Sua partida encerra a trajetória de um artista que olhava para a música sem encerrá-la em guetos. l