Desempenho recorde da balança comercial da China em outubro e expectativa positiva para aprovação da PEC dos Precatórios em segundo turno na Câmara dos Deputados, amanhã, contribuíam para que o Ibovespa, mesmo sem muito fôlego, ensaiasse continuar no positivo nesta abertura de semana, buscando estender a recuperação da anterior, quando acumulou leve ganho de 1,28%. No meio da tarde, contudo, o desempenho positivo das ações de commodities, em especial Vale ON (+5,44%, maior ganho da carteira na sessão), foi insuficiente para carregar o índice adiante, em dia negativo para o setor financeiro, o de maior peso no Ibovespa – destaque para perda de 2,30% em Bradesco PN e de 1,98% na ON do banco, ambas na mínima do dia no fechamento.
Assim, após ter chegado a oscilar de volta para o positivo, o Ibovespa fechou perto da estabilidade, mas em viés negativo (-0,04%), aos 104.781,13 pontos, entre mínima de 104.182,49 e máxima de 105.678,85 pontos, saindo de abertura aos 104.824,32 pontos. Fraco, o giro financeiro ficou em R$ 25,1 bilhões nesta segunda-feira. No mês, o Ibovespa acumula ganho de 1,24% – no ano, cede 11,96%. “Poucos negócios na sessão, com giro bem fraco, e rotação das ações domésticas, como as de varejo, para os cavalos mais robustos, como Vale e Petrobras (ON +1,65%, PN +1,04%). Ibovespa quase no zero a zero, ainda travado pelo fiscal apesar dos descontos na Bolsa”, diz Charo Alves, especialista da Valor Investimentos
“A decisão da ministra (do Supremo Tribunal Federal) Rosa Weber de suspender o pagamento de emendas de relator ao Orçamento – modalidade de transferência de recursos aos parlamentares usada pelo governo para negociar com a base de apoio – adiciona incertezas ao cenário”, aponta em relatório a equipe de research da XP, observando também que a liminar da ministra “será submetida ao plenário virtual da corte, com decisão esperada até o fim da terça-feira”.
Na tentativa de tentar fazer com que o tema avance, Lira agendou encontro no fim da tarde de hoje com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, para discutir o chamado “Orçamento secreto”, na esteira da suspensão temporária por parte da ministra do STF. Em entrevista nesta segunda-feira ao Papo com Editor, do Broadcast Político, o presidente da Câmara disse não acreditar que o Supremo Tribunal Federal irá paralisar a votação da PEC.
Contudo, a decisão de Rosa Weber de suspender as emendas do relator e cobrar por explicações da mesa diretora e do presidente da Câmara sobre a autorização para deputados participarem remotamente da votação em primeiro turno lança alguma dúvida no cenário, ainda que permaneça a expectativa de que o segundo turno venha a ser realizado amanhã, conforme programado por Lira.
Ainda em relação à PEC dos Precatórios, a XP aponta que “os principais riscos, em caso de atraso, vão na direção do fortalecimento de um plano B, alternativo à PEC que abre espaço no Orçamento de 2022, para assegurar o pagamento do Auxílio Brasil em dezembro, que poderia envolver outras modalidades de pagamento fora do teto de gastos”.
“O Brasil está numa bolha de problemas, então acaba se olhando muito para o que está acontecendo aqui dentro, e menos pra fora – nos Estados Unidos, as coisas estão calmas, com os índices refletindo os resultados corporativos, e nem a confirmação do ‘tapering’ assustou. Apesar da necessidade de se aprovar a PEC parecer óbvia, o governo tem encontrado dificuldades. Se falhar agora na PEC, o sinal será muito ruim em termos de governabilidade, sobre o que virá adiante, com enfraquecimento do governo (em relação à capacidade de condução da agenda)”, diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vítreo.
Pela manhã, a leitura do IGP-DI (+1,60%, vindo de -0,55%) mostrou aceleração da inflação no atacado em outubro (+1,90%), que havia mostrado retração (-1,17%) no dado do mês anterior – assim, os DIs curtos subiram, na semana em que o mercado aguarda a divulgação, na quarta-feira, do IPCA de outubro, outro fator acompanhado de perto pelos investidores.
“Muito do cenário sobre inflação e juros já foi para o preço dos ativos, mas a cada nova notícia, boa ou ruim, há algum ajuste. Houve um fluxo real de resgates e não há força compradora para uma retomada no momento, então o Ibovespa fica mais acomodado apesar dos preços baratos, que favorecem as aquisições com foco no longo prazo. Mas os juros estão subindo também, voltando a ficar mais atraentes”, dando opção ao investidor com menos exposição a risco, em momento de elevada incerteza, observa Knudsen.
Na ponta do Ibovespa nesta segunda-feira, além da Vale ON, destaque para Usiminas PNA (+4,56%), Cogna (+4,48%), Cielo (+4,37%) e Gerdau PN (+3,84%). Na face oposta do índice, Banco Inter (Unit -7,30%, PN -7,29%), Americanas ON (-6,49%) e Banco Pan (-5,82%).
Em meio às expectativas para votação da PEC dos Precatórios em segundo turno na Câmara dos Deputados, investidores retomaram posições defensivas no mercado de câmbio doméstico nesta segunda-feira, 8. Em sessão de liquidez reduzida, a moeda americana fechou em leve alta, na casa de R$ 5,54, após ter encerrado a semana passada em queda de 2,19%.
As movimentações foram mais intensas na etapa matutina dos negócios, com o dólar correndo até a máxima de R$ 5,5973 (+1,35%), diante de temores de que a PEC pudesse emperrar na Câmara após a ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber decidir, na sexta-feira à noite, suspender o pagamento das chamadas emendas ao relator – tidas como principal moeda de troca do Planalto no Congresso – até apreciação do plenário da corte.
Depois da aprovação da PEC em primeiro turno na Câmara por margem estreita e a oposição de vários líderes partidários, cresceram as dúvidas em torno do sucesso da proposta. A PEC representa calote velado no pagamento de dívidas judiciais e altera a regra do teto de gastos, mas é vista como o mal menor diante da possibilidade de o governo recorrer a créditos extraordinários (fora do teto) para bancar o Auxílio Brasil.
A febre altista do dólar amainou um pouco ainda pela manhã, na esteira de declarações exclusivas do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), ao Broadcast Político. Lira garantiu que a votação da PEC em segundo turno ocorrerá nesta terça-feira (9) e disse acreditar em aprovação por um placar superior aos 312 votos do primeiro turno. “Não acredito numa paralisação por uma liminar que venha a obstaculizar a votação”, afirmou Lira, em referência a pedido de liminar de deputados ao STF para barrar a tramitação da proposta. Lira também revelou que se encontraria hoje com o presidente da Corte, ministro Luiz Fux, para tratar do “orçamento secreto”.
A partir daí, o dólar se acomodou e passou a ser negociado ao redor de R$ 5,55. As mínimas da sessão vieram à tarde, quando a divisa tocou momentaneamente na casa de R$ 5,53, ao descer até R$ 5,5373. No fim do pregão, a moeda americana fechou a R$ 5,5410, em alta de 0,33%. O giro com o contrato futuro de dólar futuro para dezembro – indicativo do apetite por negócios, – foi bem reduzido, abaixo de US$ 10 bilhões.
“O mercado fechou bem na semana passada com a perspectiva de aprovação da PEC, mas foi pego de surpresa pela decisão da Rosa Weber. Houve uma corrida na abertura, mas logo a taxa se ajustou porque a PEC já está precificada”, afirma o gerente da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, crítico da interferência do STF no pagamento de emendas parlamentares. “O mercado está arisco, mas tudo indica que o dólar não tem mais força para superar R$ 5,70 no curto prazo. Deve ficar rodando na banda entre R$ 5,50 e R$ 5,70 se não tiver notícia negativa de Brasília”.
Lá fora, o índice DXY – que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes – operou em queda durante todo o pregão, no limiar dos 94 pontos. A moeda americana também perdeu força frente a maioria de divisas emergentes e de países exportadores de commodities, incluindo os pares do real, como o rand sul-africano e o peso mexicano.
Seguindo o tom do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, na semana passada, dirigentes do Banco Central americano passaram hoje a mensagem de que não há pressa em subir a taxa de juros. Pela tarde, o presidente do Fed de Chicago, Charles Evan, afirmou que o período de juros baixos de persistir por algum tempo, mesmo com o termino do processo de estímulos monetários (tapering) em meados deste ano.
Nas mesas de operação comenta-se que, embora tenha subindo por aqui, na esteira das tensões fiscais e políticas, o dólar parece já não ter fôlego para altas mais robustas. A avaliação é a de que já houve uma “reprecificação” da taxa de câmbio ao cenário de um governo mais “gastador” e que o ambiente externo é menos avesso ao risco.
Na avaliação do diretor de estratégia da Inversa Publicações, Rodrigo Natali, não há fatos novos para alimentar uma nova rodada de depreciação do real. “É ruim furar o teto. Mas, dado o salto na arrecadação e o momento difícil da economia, é razoável ter um benefício para as pessoas. O governo vai gastar de qualquer jeito. A PEC, por mais que seja ruim, mantém de alguma forma o teto de gastos”, afirma Natali, ressaltando, contudo, que o mercado opera ainda com um nível elevado de estresse e que a volatilidade deve seguir dando o tom aos negócios.
Além das negociações em torno da PEC, também jogaram contra a moeda brasileira hoje a piora das expectativas econômicas reveladas pelo Boletim Focus e a alta 1,60% do IGP-DI, acima da mediana das projeções Broadcast, de 1,28%. No Focus, foi revisada para cima a projeção para o IPCA deste ano (de 9,17% para 9,33%) e de 2022 (de 4,55% para 4,63%). As expectativas para a Selic em 2022 subiram de 10,25% para 11% – o que representa um aperto adicional de 3,35 pontos porcentuais em relação ao nível atual (7,75% ao ano).
Em encontro por videoconferência com integrantes do Banco Central, analistas do mercado financeiro disseram, segundo apurou o Broadcast, que a combinação entre a tensão fiscal e eleitoral no País e o aperto monetário global em 2022 pode fazer com que o dólar ultrapasse a barreira de R$ 6,0 em alguns momentos do ano que vem.
Os juros futuros fecharam em alta nos vencimentos curtos e em baixa nos longos, numa reação clássica ao aumento da expectativa de aperto na Selic combinado à esperança de que a Câmara vote, e aprove, amanhã em segundo turno a PEC dos Precatórios, o que afastaria o cenário fiscal mais temido pelo mercado – créditos extraordinários e novo estado de calamidade. A trajetória ascendente da ponta curta teve respaldo das novas revisões em alta para o IPCA e Selic na pesquisa Focus e entrevista do diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, admitindo que, se necessário, o aperto da Selic pode ser maior do que o de 1,5 ponto porcentual indicado na ata do Copom. Na precificação da curva, a aposta em elevação da taxa básica em 2 pontos porcentuais na reunião de dezembro já é praticamente consenso.
O contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023, fechou com taxa de 12,21% (regular) e 12,25% (estendida), de 12,055% no ajuste de sexta-feira. A do DI para janeiro de 2025 subiu de 12,126% para 12,16% (regular) e 12,13% (estendida). O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa em 12,02% (regular) e 11,98% (estendida), de 12,093%.
Na primeira parte as taxas chegaram a subir 40 pontos-base em alguns trechos, em reação às revisões na Focus e ameaças à votação da PEC depois que a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber, decidiu suspender temporariamente repasses do governo a parlamentares da base aliada por meio do orçamento secreto e que teriam assegurado a aprovação da PEC em primeiro turno. A princípio, o imbróglio poderia emperrar a tramitação, na medida em que um julgamento no plenário virtual vai revisar a ordem liminar amanhã, data em que estava prevista a votação dos destaques e o segundo turno.
O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), buscou o STF para conversar com o presidente da corte, Luiz Fux, sobre o assunto. Ao Broadcast Político, Lira disse não acreditar em paralisação da votação em função da liminar de Weber. “Os poderes se respeitam e sabem das suas atribuições e competências”, disse. Foi a senha para a inversão da ponta longa que passou a cair.
Ao mesmo tempo, outro incentivo para a curva perder inclinação veio de uma entrevista do diretor do BC, Bruno Serra, ao veículo japonês Nikkei Ásia. Segundo ele, uma nova aceleração do ritmo de alta da taxa Selic não está descartada. “Se for necessário aumentar a taxa em mais de 1,50 ponto porcentual, nós precisaremos fazer isso”, disse Serra, em entrevista concedida na última quinta-feira (4), mas divulgada hoje.
A aceleração no ritmo de aperto está amplamente contemplada na precificação da curva, de alta de 199 pontos-base, ou praticamente 100% de chance de aumento de 2 pontos no Copom de dezembro, segundo cálculo do estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. “Continuamos sem ver quando será o pico da inflação, que era esperado para o meio do ano, mas ainda estamos esperando arrefecer”, disse.
Na pesquisa Focus, a mediana para o IPCA de 2022 subiu de 4,55% para 4,63%, já mais perto do teto de 5% do que do centro (3,5%) da meta de inflação. A mediana de Selic para o fim de 2022 também foi ajustada, passando de 10,25% para 11%.