Com risco fiscal, Ibovespa cai 0,89%, menor nível do ano

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Atualizado há 5 anos

A cautela quanto à situação fiscal doméstica voltou a se impor à trajetória do Ibovespa no meio da tarde desta segunda-feira, 22. Após a referência da B3 ter chegado aos 104.613,07 pontos no começo da etapa vespertina, então na máxima do dia, passou a perder fôlego até chegar, gradualmente, aos 102.122,37 pontos, em baixa de 0,89% no fechamento, correspondente à mínima da sessão e também de encerramento no ano – menor nível desde o fechamento de 6 de novembro de 2020 (100.925,11).

No meio da tarde, os juros futuros e o câmbio também oscilaram com a revisão, pelo Ministério da Economia, do efeito da PEC dos Precatórios na disponibilidade do governo para gastos. A projeção de folga no teto em 2022 ficou maior, passando de R$ 91,6 bilhões para R$ 106,1 bilhões, segundo informou o secretário Especial do Tesouro e Orçamento, Esteves Colnago, em audiência no Senado.

Nos piores momentos desta segunda-feira, a referência da B3 não conseguiu se distanciar das mínimas observadas nas três sessões anteriores, voltando a ficar perto de testar os 102 mil pontos, para baixo. No mês em curso, acumula agora perda de 1,33%, estendendo a série negativa iniciada em julho, que coloca a retração no ano a 14,20%. Na sessão, o giro ficou em R$ 30,0 bilhões.

“O mercado continua com o pé atrás, muito cauteloso com relação ao fiscal, e hoje este recálculo sobre o teto fez preço, foi o fator de maior peso no dia, na abertura de semana que, na prática, será mais curta, com o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos”, diz Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos.

Mais cedo, o bom desempenho das ações de commodities, em especial de Vale ON (+5,56%; mais cedo, acima de 7%), e em menor medida de Petrobras (ON +0,92%, PN +1,00% mo encerramento), mantinha o sinal positivo do Ibovespa, em sessão na qual o desempenho dos grandes bancos passou de positivo, em avanço superior a 1% até o início da tarde, a negativo, no meio da etapa vespertina, com destaque para Bradesco PN (-1,70% no fechamento). Vale ON segurou a ponta do Ibovespa ao longo da sessão, à frente de Bradespar (+4,46%) e de Usiminas (+2,94%) no encerramento.

Recente retomada, ainda que parcial, nos preços do minério de ferro deu suporte ao setor de siderurgia como um todo (CSN ON +1,92%, Gerdau PN +2,58%), em meio a sinais mais favoráveis sobre o setor de construção civil na China, grande demandante de matérias-primas como o aço. A retomada do minério veio após o banco central chinês “sinalizar novas medidas para estimular a economia, além das notícias da última semana, de melhora do setor de construção, ponto crítico para o desempenho da commodity neste último trimestre”, observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Na face oposta do Ibovespa, destaque nesta segunda-feira para Banco Inter (Unit -14,11%, PN -12,65%), Locaweb (-9,24%) e Méliuz (-7,30%).

Ajuste técnico aliado a uma entrada de recursos na parte da manhã, fizeram o dólar ir na contramão dos outros ativos do mercado financeiro e se manteve em baixa frente ao real. O movimento ocorreu ainda que a divisa americana estivesse fortalecida no exterior ante outras moedas fortes e também emergentes.

O dólar à vista encerrou o pregão em queda de 0,27%, cotado a R$ 5,5936, ainda assim, no topo do range estimado pelo chefe de câmbio na Terra investimentos, Vanei Nagem, que é entre R$ 5,45 e R$ 5,60. “E este já é um nível alto, que tem impacto em várias questões, como a inflação”, disse.

“O governo não fez a lição de casa e, por isso, infelizmente tem muita coisa para o lado pessimista. Terá dias de pequenos refrescos, como hoje, mas o mercado está mais pessimista em relação a tudo”, afirmou Nagem, ressaltado que hoje, especialmente, o volume de negociações foi mais fraco.

Na parte vespertina do pregão, no exterior, o dólar ampliou ganhos em meio à escalada dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano que subiram em dia no qual o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, indicou a recondução para um segundo mandato de Jerome Powell à frente do Federal Reserve (Fed). Para a vice-presidência, foi indicada a economista Lael Brainard.

Em discurso, Powell e Binden ressaltaram que uma das prioridades da autoridade monetária é conter a inflação. A recondução de Powell, na avaliação de Fabrício Gonçalvez, CEO da Box Asset Management, dá previsibilidade aos agentes de mercado sobre o que pode ocorrer na política monetária.

O índice DXY, que mede a variação do dólar ante uma cesta de seis rivais fortes, subia 0,53%, a 96,540 pontos, um pouco antes do fechamento do segmento à vista no Brasil.

“O Fed irá acelerar o tapering e anunciar o aumento dos juros, Caso isso aconteça, teremos um dólar mais forte principalmente em relação às moedas emergentes”, ressalta o diretor de câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante.

Hoje, com a subida mais forte do dólar no exterior e, em meio ao anúncio pelo Ministério da Economia da revisão do impacto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios, com ampliação da folga no teto de gastos de R$ 91,6 bilhões para R$ 106,1 bilhões, o sinal chegou a inverter no mercado interno de câmbio, mas apenas pontualmente.

Para Cavalcante, os agentes de mercado aguardam atentos aos capítulos da “novela” PEC dos Precatórios. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), reafirmou hoje a intenção de votar a Proposta ainda nesta semana na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e na próxima semana no plenário do Senado.

Ainda pela manhã, o Banco Central vendeu a oferta integral de US$ 700 milhões em swap cambial para suprir demanda de overhdege de bancos para o final deste ano. O real se fortaleceu frente ao dólar ainda com os investidores menos pessimistas após declarações do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), garantindo o compromisso para aprovar a Reforma Tributária e o Refis.

E em entrevista ao Broadcast, o relator do Projeto de Lei Cambial, senador Carlos Viana (PSD-MG) disse que decidiu passar o texto primeiro pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, mas a expectativa é a de que a apreciação pelos parlamentares se encerre amanhã mesmo. O PL visa criar um novo marco para o segmento, modernizando a lei original que tem quase um século. O governo tem pressa em agilizar a aprovação para ter mais entregas na área econômica pensando na reeleição.

Viana enfatizou que o novo marco simplificará e reduzirá custos de investidores estrangeiros, turistas, expatriados e imigrantes que estejam no Brasil. Não apenas porque haverá mais flexibilidade para lidar com moeda estrangeira no País, mas porque há a perspectiva de que aumente a concorrência no setor. “É uma lei que atende a todos”, garantiu o senador que nos últimos meses se reuniu com diferentes interlocutores potencialmente afetados por mudanças na legislação. Ele afirma, no entanto, que o Banco Central continuará a ter condições de controlar, supervisionar e regular o setor.

As incertezas em torno da PEC dos Precatórios e a disparada dos juros dos Treasuries acentuaram nesta tarde o movimento de alta dos juros locais, que fecharam a sessão regular nas máximas em vários pontos da curva, mesmo num dia de queda do dólar. A pressão era maior sobre os vencimentos curtos e do miolo, refletindo a leitura do mercado de que a piora do cenário fiscal e o impacto negativo de um aperto monetário antecipado nos Estados Unidos sobre os ativos domésticos terão de ser compensados via ajuste da Selic.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 12,33% (regular) e 12,34% (estendida), de 12,066% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 11,936% para 12,17% (regular) e 12,11% (estendida). A do DI para janeiro de 2027 fechou em 12,01% (regular) e 11,96% (estendida), de 11,843%.

O mercado de juros operou descolado tanto do alívio no câmbio quanto do desempenho positivo, até o meio da tarde, da Bolsa, com taxas em alta desde cedo em função do cenário fiscal e dos números do Boletim Focus. À tarde, entraram em cena as máximas dos yields dos Treasuries para fortalecer a pressão na curva.

O impacto positivo da possibilidade de fatiamento da PEC dos Precatórios, que ajudou os ativos no fim da semana passada, se esvaiu e o mercado voltou a olhar para os aspectos negativos. Um deles é a sinalização do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de apoio à imposição de um caráter permanente ao Auxílio Brasil sugerida para a PEC.

Além disso, Esteves Colnago, secretário Especial do Tesouro e Orçamento, em audiência no Senado, disse que em função da PEC o governo revisou a projeção de abertura no teto para R$ 106,1 bilhão em 2022. Dessa folga, há necessidade de direcionar R$ 48,6 bilhões para despesas primárias “sem opção de escolha” e outros R$ 56,4 bilhões para despesas previstas “com opção de escolha”, resultando em saldo final de R$ 1,1 bilhão.

Colnago fez um apelo pela aprovação como veio da Câmara em dois pontos centrais, na mudança da regra de cálculo do teto e na limitação do pagamento de precatórios a partir do próximo ano. Se aprovada na versão atual, o Ministério da Economia recalculou o impacto da PEC para um déficit primário de -1,5% do PIB em 2022. Sem a PEC, o resultado seria de -0,5% do PIB.

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a preocupação é com a possibilidade de em um ano eleitoral a questão social ser transformada em argumento para o estouro do teto. “O mercado teme que, por ser 2022 um ano eleitoral, mesmo que tudo vá por água abaixo, o governo não volte atrás e declare outro estado de calamidade”, disse.

Quanto mais se estende a indefinição, mais o mercado vê necessidade de a Selic subir para conter inflação, com as expectativas para os preços já contaminadas também nos prazos mais longos. Na Focus, as medianas para 2023 e 2024 começaram a ficar desancoradas em relação às metas de 3,25% e 3,0%, tendo atingido 3,42% e 3,10%, respectivamente. A meta de 2021 (3,75% no centro e 5,25% no teto) é considerada um caso perdido, com a mediana da Focus atingindo 10,12%. A meta de 3,5% para 2022 também corre risco, com a mediana batendo em 4,96%.

Com as especulações em torno da PEC já trazendo volatilidade desde cedo, à tarde o exterior começou a pesar também sobre a curva, com a taxa da T-Note de dez anos atingindo 1,63% nas máximas, em meio aos discursos do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, da diretora da instituição Lael Brainard e do presidente dos EUA, Joe Biden, alertando sobre a necessidade de combater a inflação. Powell foi indicado por Biden para mais um mandato no comando do Fed, enquanto Brainard foi indicada para a vice-presidência, o que só reforça os receios do mercado sobre o risco de antecipação de um aperto monetário esperado para o segundo semestre de 2022.

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