Pioneira em pautar o empreendedorismo da população negra no Brasil, a Feira Preta completa 20 anos com um grande evento virtual que terá o Facebook como co-organizador. De 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) a 10 de dezembro, o público poderá acompanhar shows, workshops, espetáculos, intervenções artísticas e palestras pela rede social e também no Instagram, além da tradicional venda de produtos pelo marketplace oficial, lançado em maio, e nas plataformas dos parceiros.
Outras grandes empresas são parceiras da edição deste ano, como Mercado Livre, iFood e Instituto C&A, o que mostra o potencial do festival de empreendedorismo negro ao longo do tempo. O tema deste ano é “Existe um futuro preto e ele não se constrói sozinho”, fazendo alusão a todo o movimento de apoio por parte de pessoas e instituições privadas e públicas.
“A gente está fazendo da maneira que gosto, que é compartilhar, ter governança compartilhada com institutos de pesquisa, empresas, veículos de comunicação. É um festival robusto, com muita gente preta envolvida no roteiro, maquiador, artistas. É uma situação monetária grande em torno do festival com perspectiva de geração de renda”, celebra Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta.
Nessas duas décadas, mais de 200 mil pessoas, 3 mil artistas e 1,8 mil empreendedores já passaram pelo evento, que movimentou mais de R$ 6,5 milhões com a venda de produtos e serviços de afroempreendedores. Shows de Emicida, Péricles, Liniker e Afrocidade, por exemplo, estão confirmados.
A cooperação do Facebook se estende com a PretaHub, aceleradora e incubadora de empreendedorismo negro também liderada por Adriana Barbosa. Juntos, eles abrem as inscrições, nesta quinta-feira, 18, a partir das 14h, para a Aceleração de Negócios de Empreendedoras Negras, que vai selecionar 5o empresas que atuam em regiões periféricas ou comunidades de baixa renda em todo o País.
As escolhidas terão acesso a capacitação, consultorias, mentoria, serviços e produtos customizados de acordo com a demanda de cada negócio, além de um investimento de R$ 32 mil em cada uma. Os assuntos abordados envolvem controle administrativo e financeiro, ferramentas tecnológicas para automatização de processos, comunicação e marketing e uma trilha de conteúdo sobre finanças. O programa tem duração de seis meses e as inscrições vão até 19 de janeiro (https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeUF0ZQz0ffL9vinOGcLavkBmRdnQg0ukIk34n4bo1OV_o0YA/viewform). O resultado será divulgado em 8 de março de 2022.
Para participar do programa de aceleração, as candidatas vão passar por uma banca de avaliação composta pelo Instituto Feira Preta e rede de aliados, e os negócios serão avaliados a partir de critérios pré-estabelecidos disponíveis no edital. A parceria visa um objetivo latente para Adriana: transformar o empreendedorismo por necessidade, de subsistência, em empreendedorismo de oportunidade. Pesquisa do Sebrae mostra que 49% das mulheres negras começam a empreender por necessidade, ante 35% das mulheres brancas.
“A população negra vem empreendendo há muito tempo e, se o Brasil pudesse pensar em políticas públicas, mais estudos e pesquisas, se a iniciativa privada apostar no empreendedor negro como negócio, ele tem muita possibilidade de potencializar o PIB, porque estamos falando de mais de 56% da população e de um grande número de empreendedores negros no País”, diz Adriana Barbosa
Ela traça uma evolução do perfil empreendedor das pessoas negras, que tem como ponto de partida o fim da escravidão. Foi a partir dali que empreender começou a fazer parte dessa comunidade, pela necessidade de sobreviver após anos de opressão, violência e apagamento. Apesar disso, o racismo segue impondo dificuldades e, de acordo com uma pesquisa da Plano CDE em parceria com PretaHub, de 2019, 34% dos 1.220 empreendedores ouvidos (918 negros e 302 brancos) começaram o negócio por necessidade.
“A maioria das pessoas olham pelo lado vulnerável, pela sobrevivência, mas nos últimos anos vem transcendendo do empreendedorismo de necessidade para o empreendedorismo de oportunidade, foi longa história e processo”, completa Adriana. Quem empreende porque precisa também tem pouca percepção sobre a condição de empreendedor, porque não são formalizados, tem equipe pequena e não dispõem de espaço físico para a atividade.
Ainda segundo a pesquisa, 35% dos entrevistados empreendem por vocação, ou seja, tem familiaridade com a atividade e desejo de ser autônomo. Pode também ter passado por sistema de cotas e resolveram criar empresas. Já 22% dos empreendedores são do perfil “engajado” e empreendem para atender o consumidor negro.
“O mais importante é eles se reconhecerem como empreendedores. Quando se reconhecem, podem acessar o ecossistema de crédito, cultura, educação empreendedora, todos os mecanismos que têm para fortalecer esses negócios e dar guinada importante”, ela destaca. Esse processo, no entanto, é desafiador e tem como barreira adicional o racismo estrutural que interfere nos negócios.
“Se vou ao banco e a porta trava ou se vou fazer uma transferência e ficam meia hora para saber se sou a dona da conta é desafio diário para mim. Superar isso diariamente é cansativo, muito desgastante. A gente depende desse ambiente e é difícil para o empreendedor. Muitas coisas contribuem para o avanço ou não do negócio, mas com pessoa negra, a questão racial acrescenta uma camada a mais”, relata a empresária.
Para lidar com os desafios, Adriana indica, primeiro, investir na questão subjetiva de fortalecer a musculatura emocional, o que ela faz com terapia. Apostar no desenvolvimento pessoal, autoconhecimento, reconhecer as próprias limitações, competências e habilidades é fundamental para ter essa saúde emocional, diz.
O segundo ponto é investir continuamente em educação, por mais que o negócio esteja dando certo. Conhecer bem os clientes, saber onde eles estão e quais são as novidades do mercado em que atua são estratégias importantes para o crescimento da empresa. Por fim, o medo de dar o próximo passo sempre vai existir, mas não pode paralisar.
“Se tiver de recalcular a rota, faça isso quando for necessário. Errar, fracassar vai fazer parte da vida de um empreendedor, eu já tive vários erros, fracassei algumas vezes. Não é bolinho, o empreendedor é o primeiro que levanta e último que dorme, pensa em como comunicar, liderar e se você ainda acrescenta a dimensão do medo, você paralisa por não querer errar.”
Com 20 anos de experiência empreendedora, Adriana Barbosa diz que, atualmente, existe mais possibilidade de os pequenos negócios se destacarem junto a grandes corporações. As discussões sobre diversidade e inclusão têm facilitado essa aproximação, uma vez que as companhias se mostram mais abertas a culturas diversas. Isso permite parcerias e consolidação de negócios, em que o pequeno fornece para o grande.
Por isso, ela considera importante olhar para as empresas que têm esse apelo. “Você tem oportunidade de propor parceria, serviço. É o que a Feira Preta tem feito nos últimos três anos, de sentar com marca e propor.” Na hora de apresentar a proposta, é fundamental estar munido de informações e ter uma boa história, autêntica, para contar.
“Eu demorei para entender que precisava me dedicar para a parte visual, então aprendi com mentoras a fazer uma boa apresentação, com objetivos claros, sucintos. (É importante) ter embasamento, números, precisa produzir pesquisa, dados. Também ter bons profissionais no entorno e dar chance a outros para se completarem, fazer parceria, entender o que cada um pode fazer com qualidade”, orienta a empreendedora.
Para isso, nem sempre é preciso fazer investimento financeiro. Principalmente aos empreendedores que estão iniciando a jornada, geralmente sozinhos, fazer trocas é um caminho possível. A pessoa pode oferecer algum serviço em troca da elaboração de uma planilha, por exemplo. “É preciso reconhecer seus limites, o que você faz bem e o que não faz.”
Festival Feira Preta 2021
Data: de 20/11 a 10/12
Formato: online – via redes sociais da Feira Preta – @feirapretaoficial
Ingressos: Gratuito
Programação: festivalfeirapreta.com.br