Em sua melhor sequência desde o intervalo entre 21 e 23 de setembro, quando havia progredido 5.220 pontos em avanço de 4,79%, o Ibovespa costurou nesta quinta-feira a terceira alta consecutiva, algo que não ocorria desde a série entre 9 e 11 de novembro, quando o ganho foi de 2,68%, referente a expansão de 2.813,54 pontos no período. Hoje, o índice da B3 subiu 1,24%, aos 105.811,25 pontos, acumulando recuperação de 3,61%, em torno de 3,7 mil pontos desde o fechamento negativo da segunda-feira, com ganho até aqui na semana a 2,69% e a 2,23% em novembro – no ano, cede 11,10%. Com o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, sem mercado em Nova York, o giro ficou em R$ 26,6 bilhões.
“A votação da PEC dos Precatórios ficou para a próxima semana no Senado, e se permanecer conforme já foi indicado, pode abrir espaço para um pouco mais de recuperação, embora se tenha uma situação ainda de alerta (quanto ao fiscal)”, diz Wanessa Guimarães, sócia da HCI Invest, observando também que a retomada do Ibovespa nas últimas sessões foi muito condicionada pelo bom desempenho das ações de Petrobras e de bancos, com o mercado reagindo especialmente à sinalização sobre dividendos da estatal.
“O Conselho (da Petrobras) aprovou a revisão de sua política de remuneração aos acionistas e definiu remuneração mínima anual de US$ 4 bilhões para exercícios em que o preço médio do Brent for superior a US$ 40 o barril”, aponta em nota a Terra Investimentos, chamando atenção também para investimento de US$ 68 bilhões entre 2022 e 2026, “24% maior comparado ao período entre 2021 e 2025, mas ainda aquém dos US$ 75,7 bi para cinco anos anunciados no final de 2019, antes da pandemia”.
“A Petrobras estima que a distribuição de dividendos aos acionistas somará entre US$ 60 bilhões e US$ 70 bilhões até 2026, sendo US$ 20 a US$ 25 bilhões destinados à União”, diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. “O diretor financeiro da Petrobras, Rodrigo Araujo, disse que a antecipação da meta para o endividamento abre uma nova fase para a companhia, que a partir de 2022 deverá conseguir distribuir dividendos equivalentes a cerca de 60% do fluxo de caixa operacional após investimentos”, acrescenta.
Por sua vez, a demanda por ações de bancos nesta quinta-feira respondeu à apresentação, em Brasília, em cerimônia no Palácio do Planalto, do projeto de lei sobre o Novo Marco de Garantias, que pretende resgatar o uso de hipoteca como modalidade de garantia no mercado de crédito brasileiro. Hoje, segundo nota do Ministério da Economia, o mecanismo é usado em apenas 6% das operações de crédito imobiliário, em razão de insegurança jurídica, que o projeto pretende suprimir com o aperfeiçoamento legal.
Nesta quinta-feira, Petrobras ON e PN fecharam respectivamente em alta de 4,13% e 4,41%, enquanto os ganhos nas ações de grandes bancos ficaram entre 0,39% (Bradesco ON) e 5,19% (BB ON, na máxima do dia no fechamento). Destaque também para o setor de utilities, em especial Eletrobras (PNB +2,32%, ON +2,47%) e siderurgia (CSN ON +2,23%), enquanto Vale ON fechou em baixa de 0,68% após uma sequência de recuperação do papel, com a retomada recente no preço do minério de ferro – nesta quinta-feira, em leve baixa de 0,39% em Qingdao, na China.
Na ponta do Ibovespa, destaque para Gol (+9,69%), Banco Pan (+8,27%), CVC (+6,87%) e Eztec (+5,57%). No lado oposto, Marfrig (-2,86%), JBS (-2,45%) e Intermédica (-2,17%).
Na agenda macro desta quinta-feira, embora as indicações de ontem do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, lidas como “dovish”, tenham contribuído para acalmar o mercado, a prévia da inflação oficial de novembro, o IPCA-15, divulgada hoje a 1,17%, a mais alta para o mês desde 2002, coloca a variação acumulada em 12 meses a 10,73%, vindo de 10,34% no intervalo até outubro.
Em dia de liquidez bastante reduzida, dada a ausência do mercado americano, fechado por causa do feriado do Dia de Ação de Graças, o dólar emendou o segundo pregão seguido de queda, na esteira de valorização dos ativos domésticos, cujos preços estariam em patamares muito atraentes.
As mínimas da sessão vieram no início da tarde, quando a moeda americana tocou momentaneamente a casa de R$ 5,54 – movimento atribuído por operadores à forte venda realizada por uma instituição financeira. A desaceleração das perdas do dólar no restante da etapa matutina foi atribuída a ajustes técnicos naturais e realização de lucros.
Ainda paira no mercado, contudo, certa cautela em torno do andamento da PEC dos Precatórios no Senado, dada as pressões dos partidos por alterações no texto. Dessa forma, não caíram bem as declarações do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de que não pode garantir que o texto será votado na próxima semana. Mais cedo, havia ecoado positivamente no mercado a retirada da indexação do Auxílio Brasil à inflação da Medida Provisória que cria o programa, cujo texto-base foi aprovado hoje na Câmara dos Deputados.
Há quem avalie que a aprovação da PEC dos Precatórios sem grandes alterações, com desenlace da novela do Orçamento de 2022, pode levar a uma redução dos prêmios de risco e, por tabela, dar fôlego ao real no curto prazo.
Pela manhã, a alta de 1,17% do IPCA-15 em novembro, embora acima da mediana de Projeções Broadcast (1,14%), não chegou a ter grande influência na formação da taxa de câmbio, embora no mercado de juros tenham sido reduzidas as apostas em aceleração do aperto monetário, com alta da Selic em 2 pontos porcentuais em dezembro.
Afora uma leve alta logo na abertura, o dólar trabalhou em queda durante todo o pregão, respeitando a correlação tradicional com o Ibovespa, que subia mais de 1%, escorado, sobretudo, nas ações de Petrobras, que teve seu plano estratégico para os próximos anos bem recebido pelo mercado.
Com máxima a R$ 5,5983 e mínima de R$ 5,5490 (-0,82%), o dólar à vista fechou a R$ 5,5650, em queda de 0,53% – o que leva a um recuo de 0,78% na semana e de 1,44% em novembro. Na B3, o volume negociado do contrato de dólar futuro para dezembro foi de R$ 5,69 bilhões, bem abaixo da faixa vista normalmente, de US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões.
Lá fora, a moeda americana tem comportamento misto frente a emergentes, embora avance frente ao peso mexicano e o rand sul-africano, principais pares do real. Já o índice DXY – que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes – tem ligeira baixa após ter tocado ontem nas máximas desde julho de 2020, impulsionado pelos sinais de que o Federal Reserve, cuja ata mais recente foi divulgada ontem, pode acelerar o ‘tapering’ e antecipar a alta de juros.
A despeito do alívio recente no câmbio, o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, não vê espaço para uma rodada de apreciação do real. Ele argumenta que a sinalização do Banco Central de que pode manter o ritmo atual de alta da Selic, em 1,5 ponto porcentual por reunião, e a ausência de um fluxo cambial forte dão certa rigidez à taxa na faixa de R$ 5,50. Além disso, há a pressão vinda de fora, com a moeda americana ganhando terreno. “Há possibilidade de o Fed de acelerar o ritmo de redução das compras de títulos no primeiro trimestre de 2022, com um sinal de que o aperto dos juros nos EUA poderia ser até junho”, afirma Velho.
Pela manhã, o BC divulgou que o resultado das contas correntes ficou negativo em US$ 4,464 bilhões em outubro, pouco abaixo da mediana de Projeções Broadcast (US$ 5 bilhões), mas acima do esperado pelo próprio BC (US$ 4,2 bilhões). Já os Investimentos Diretos no País (IDP) somaram US$ 2,493 bilhões no mês passado, abaixo da mediana das projeções (US$ 4 bilhões)
Na avaliação do economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flavio Serrano, os últimos meses mostraram piora na margem da conta corrente. Ele pondera, contudo, que os ingressos de recursos têm sido suficiente para financiá-la. “No horizonte mais longo, o déficit em conta corrente na casa de 1,7% do PIB e o IDP em 3,1%. É tranquilo do ponto de vista de financiamento estrutural do balanço de pagamentos”, afirmou.
Os juros futuros fecharam a quinta-feira em queda nos vencimentos de curto prazo e em alta nos longos. As taxas mostraram recuo firme ao longo da quinta-feira, mas perderam fôlego na reta final da sessão regular, em postura atribuída a uma realização de lucros após o alívio de prêmios visto nos dois últimos dias. A despeito do IPCA-15 de novembro ter superado a mediana das estimativas, o sinal de baixa prevaleceu, ainda em meio à sinalização do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, dada ontem e lida como dovish e também o leilão de prefixados com risco menor para o investidor. O mercado reduziu as apostas num Copom mais agressivo e, tanto na curva dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) quanto nas opções digitais da B3, a percepção de que o ritmo de alta da Selic será mantido em 1,5 ponto ganhou terreno.
A taxa do DI para janeiro de 2023 terminou em 12,095% (regular) e 12,07% (estendida), de 12,146% ontem no ajuste. Na mínima, chegou a furar os 12% (11,995%). O DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 11,86% (regular) e 11,85% (estendida), de 11,835% ontem, e a do DI para janeiro de 2027 subiu de 11,733% para 11,81% (regular) e 11,78% (estendida).
Na maior parte do dia, o tom geral do mercado foi de queda. “Poderia ser influência do feriado lá fora, mas também vale destacar a interpretação dos investidores para a fala do presidente do BC, Roberto Campos Neto, de que a perseguição à meta de 2022 teria menor peso na tomada de decisão do Copom”, afirmam os economistas do Banco Original, em relatório.
Com as declarações de Campos Neto ainda ecoando, o mercado aceitou sem traumas o desvio para cima do IPCA-15 (1,17%) em relação à mediana das estimativas (1,14%), parecendo ver como “lucro” o fato de que, ao menos, o índice não estourou o teto das expectativas, de 1,23%. “O mercado estava preparado para um desastre, mas veio só ruim”, atesta um gestor. De todo modo, qualitativamente, a leitura do indicador foi negativa, com núcleos e índice de difusão pressionados. A taxa desacelerou ante outubro (1,20%), mas foi a maior para meses de novembro desde 2002 (2,08%) e em 12 meses avançou a 10,73%, mais que o dobro do teto da meta de inflação de 5,25% de 2021.
Na avaliação da equipe de Macro & Estratégia do BTG Pactual, no curto prazo, o balanço de riscos deve ser mais negativo para o mercado local. “A deterioração da percepção de risco no Brasil, decorrente das incertezas do cenário fiscal e político, somada às expectativas de um aperto monetário mais célere nos EUA devem manter o dólar em patamar elevado, o que seguirá deixando o preço de bens comercializáveis em nível alto”, afirmam os profissionais da instituição.
O bom comportamento da curva ao longo da quinta-feira também teve contribuição do Tesouro, que reduziu o lote de prefixados mais longos, que normalmente puxam para cima o risco da operação. O DV01 do leilão foi 5% menor, segundo a Necton Investimentos. O Tesouro ofertou 650 mil NTN-F, ante 1,5 milhão na semana passada, mas vendeu apenas 300 mil.