Por Douglas Marques
As cartas manuscritas constituem, atualmente, uma forma antiquada de comunicação, e a dedicação necessária para manufaturá-las parece configurar, nessa época de velocidades ópticas, um deliberado atentado ao tempo. Por que alguém se daria ao insano trabalho de enfileirar palavras em uma folha de papel, quando um e-mail, SMS, ou uma simples mensagem via Facebook resolveria? Isso sem falar que ainda é preciso levá-las ao correio, colar-lhe os selos, e aguardar dias, às vezes até semanas para que o destinatário as receba. Não é algo conveniente. Não é prático.
Pensei nisso quando, dias atrás, recebi uma carta.
Não foi a primeira carta que recebi, mas, de modo semelhante ao poder evocativo dos aromas, ao pressionar o envelope branco de bordas amarfanhadas, antes ainda de saber quem era o remetente, e evitando sabê-lo, como quem adia sádica e absurdamente uma alegria certa, ele despertou-me, ou melhor, ressuscitou, no meu cérebro, diversas lembranças. E as cartas de despedida? Onde foram? E as comerciais, pessoais, de reclamação, do leitor, formais, informais? E as singelas cartinhas das meninas românticas? Epístolas perfumadas que, embora amassadas pelo nervosismo e pela inexperiência, exibiam, em caligrafia caprichosa e delicadamente bordada por desenhos, confissões nervosas e versinhos copiados, rimados. “Você é o sol, eu sou a lua. No eclipse do amor, a minha boca beija a sua”. Que meigo. Ainda fazem a brincadeira do correio elegante?
Essas lembranças foram, sem dúvida, deveras interessantes, mas depois de dispersada a breve névoa de encantamento proporcionada pelo desconhecido, e espantadas as memórias de outras cartas, o reconhecimento da caligrafia, no verso, levou-me para outro estado de emoção exaltada, de um matiz quase sobrenatural. O leitor acima da faixa dos vinte anos deve se recordar dessa súbita sensação de alegria, medo e excitação: uma queimação gostosa, em algum lugar entre a garganta, o coração e o estômago.
Com hesitação, puxei, apertei, rasguei as entranhas do envelope, e retirei do seu coração branco uma folha dobrada. Um sacrifício necessário. Com igual volúpia, desdobramos. E o contato áspero entre pele e papel, entre os dedos e as linhas de tinta da esferográfica que percorreram, em algum lugar do espaço e do tempo, aquelas linhas azuladas da folha, é como uma tentativa de capturar a reminiscência física de quem as escreveu – como acontece a certas pessoas apaixonadas, instantaneamente perdidas ou subitamente loucas que, consumidas pela saudade, agarram-se a objetos (uma almofada, uma camisa) que as fazem aliviar a dor de uma ausência.
Não tenho certeza, mas suspeito que ainda não me agarrei a nenhum e-mail.
Douglas Marques é acadêmico de Jornalismo