Por Mariana Honesko

Criado na década de 70, o orelhão perdeu o seu perfil. Ao longo dos anos, ele foi deixando de ser preferência e as filas para utilizá-lo é coisa do passado. A criação do celular e a facilidade de ter um aparelho destes à mão – eles já somam 270 milhões em todo o Brasil e já maior, inclusive, que a população – contribuiu para que o orelhão fique às moscas. Conectada, a adolescente, Samira Valer, de 16 anos, afirma que não lembra quando chegou perto do orelhão pela última vez. “Nem lembro mas sei que foi antes de ter o celular”, diz.

A pouca demanda também reduz a venda dos cartões telefônicos. Com pelo menos três opções de créditos, eles deixaram de ser tão procurados. “Antes eu vendia uns 80 cartões por mês. Hoje não passa de 30”, comenta a comerciante, Rosa Kowalski. A demanda baixa, segundo ela, não é fruto apenas da criação da telefonia móvel. “Tem muitos que compram mas vem devolver porque não encontraram nenhum orelhão ou encontraram ele quebrado, sem funcionar”, conta.

De fato, o número de aparelhos públicos já foi maior. Nas Cidades Irmãs, entre os anos de 2001 e 2007, eles somavam 3.500 unidades. Hoje, União da Vitória e Porto União oferecem bem menos: são cerca de 2.300 orelhões disponíveis. “Na época que tínhamos mais, a Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações) dizia que precisava haver um aparelho a cada 300 metros”, explica o supervisor do escritório da ARM Telecomunicações em União da Vitória, Rafael Keller. A redução veio por ajustes na resolução do órgão e também pela iniciativa popular. “Os moradores pedem para tirar os aparelhos por não ter demanda, por não estar em um bom lugar ou para que ele seja recolocado”, pontua Keller.
A manutenção dos aparelhos esbarra ainda no vandalismo. Por semana, a ARM recolhe várias unidades danificadas. “Eles são arrancados, incendiados, tem os cofres quebrados. Toda semana tem aparelho para trocar”, conta o supervisor. A substituição custa e é obrigatória. A Anatel determina que 90% dos aparelhos precisam estar em funcionamento. A exigência vai na contramão dos dados divulgados pelo presidente do órgão: quase a metade dos orelhões realizam menos de duas chamadas por mês. “ Mas não vejo a extinção. Nenhuma telefonia é totalmente segura. Se alguma delas falhar, tem o outro”, sinaliza.
A avaliação foi recentemente confirmada. Em outubro de 2012, durante o Furacão Sandy, quando faltou luz em Nova York e a parte mais baixa da cidade foi inundada, o uso dos telefones públicos multiplicou por dez. Ao contrário dos celulares, eles funcionaram bem. Fenômeno similar ocorreu no Japão, em 2011, durante o Tsunami. Hoje, o telefone também cumpre um papel social, como alternativa de comunicação para os mais pobres e para as áreas mais distantes do centro.
Modernização
Na contramão do perfil dos orelhões, que começou tímido, funcionando com fichas e mais tarde com cartões, a renovação tecnológica promove mudanças. O prédio de quatro andares que abrigava a Telepar, em União da Vitória, tornou-se um imóvel fantasma. Hoje, apenas metade de apenas um andar é usado. “Logo, nem isso será necessário”, avalia o supervisor da ARM.

No prédio, todos os números de telefone fixos disponíveis nas cidades, estão conectados. Em uma trama repleta de códigos, há cerca de 15 mil ligações. A partir do ano que vem, o número cresce e deve chegar aos 20 mil. O corte na infraestrutura, porém, não subestima a capacitada dos orelhões. “Já estamos vendo com a Oi para reativamos a venda dos cartões telefônicos”, sorri Keller. As empresas não devem mais manter um aparelho em cada esquina mas o orelhão, ao que parece, ainda tem vida.
Extinção é global
A redução continua dos aparelhos segue como tendência. Nos Estados Unidos, havia 2,1 milhões de telefones públicos em 2000. Agora, apenas 425 mil. Na Inglaterra, a tradicional cabine vermelha está se transformando. Muitas viraram minibibliotecas. Na última década, 30 mil cabines já foram removidas e o que sobrou é deficitária.