Apesar do viés otimista comumente associado à cirurgia, existe uma probabilidade nada desprezível de recidiva da obesidade. De acordo com estudos recentes, esse total pode superar os 25% e chegar a mais de 60%, dependendo dos critérios adotados, como tempo decorrido até a reavaliação e a quantidade de peso reganho.
Isso sem falar nas possibilidades de complicações, até mesmo letais, associadas a qualquer procedimento cirúrgico: tromboses (quando um coágulo se forma e bloqueia o fluxo sanguíneo para alguma parte do corpo), reação alérgica, sangramentos e infecções.
Koleski inclui no livro o triste caso de uma paciente de 40 anos que perdeu a vida após a bariátrica. Ela teve um sangramento intra-abdominal, o que gerou uma grave infecção. O cirurgião conta que as complicações mais graves costumam ser fístulas, aberturas entre o trato gastrointestinal e o interior do abdome, por exemplo causadas pela abertura de grampos que prendem o estômago ao intestino.
A paciente foi submetida a uma nova cirurgia, mas a fístula não foi encontrada. Passou por seguidos processos de diálise (filtração do sangue por uma máquina que faz o papel dos rins), mas não resistiu e morreu. “Foi em uma sexta-feira à noite. Lembro até hoje de seus familiares, marido e irmão, me aguardando na porta da UTI para saber o quadro clínico”, escreve.
“Mesmo um episódio como esse estando dentro das estatísticas, a dor de um cirurgião é imensa. O médico é um ser humano e sofre como qualquer outro”, afirma.
Segundo ele, o risco de morte hoje em dia está entre 0,2% e 0,3%, ou seja, de 2 a 3 a cada 1.000. É um risco relativamente baixo, mas longe de ser nulo. Daí a importância da boa indicação da cirurgia –quando os potenciais benefícios compensam os riscos.
De todo modo, a oportunidade de ter uma vida mais saudável, com diminuição ou desaparecimento de problemas como pressão alta, diabetes, gordura no fígado, apneia do sono, entre outros, muitas vezes é um argumento mais que suficientes para essa importante escolha, além do impacto psicológico positivo e da confiança social que vêm com as alterações corpóreas.
Um dos pacientes de Koleski passou a se relacionar intimamente com outras pessoas; outra deixou de sofrer com o controle excessivo de sua vida por parte do marido.
Mas nem sempre a história é tão simples. Uma paciente recusava-se a perder peso porque aos 12 anos começou a ser abusada por um tio que era sócio majoritário na empresa familiar. Com receio de prejudicar seus parentes, submetia-se ao abuso. Comer compulsivamente e ganhar peso eram a estratégia para tentar desestimular as investidas do tio. Koleski diz que casos como esse não são tão raros.
“É um quadro que exige tato e responsabilidade na condução por parte da equipe multidisciplinar, pois, embora tenha relação direta com o sucesso ou fracasso do tratamento no futuro, é sempre do paciente a decisão por revelar [esse histórico] ou não. Depois de um tempo de terapia, a paciente se sentiu confiante e decidida a operar.”
O cirurgião também traz relatos de como eram as cirurgias bariátricas no passado –podiam superar seis horas de duração–, com configurações que hoje caíram em desuso, como a Scopinaro, com uma trajetória mais curta da comida no intestino, o que resultava em muitas idas ao banheiro e fezes malcheirosas por causa da digestão incompleta. Felizmente isso melhorou com técnicas mais modernas.
A parte mais instigante do livro, entretanto, é a própria saga bariátrica de Koleski. Ele relata todos os estágios que percorreu: o desejo de operar, quando ainda não cumpria com os critérios recomendados, o momento da decisão, quando já sofria um com um conjunto de condições (colesterol e glicemia elevados, refluxo, gordura no fígado, ronco etc.), a tentativa de desencorajamento por parte de outras pessoas (“É só fazer uma dieta que resolve.”) e a hora H, quando foi para a mesa.
Depois vem toda a fase de readaptação do organismo à nova dieta, talvez para muitos um dos maiores desafios. Durante a pandemia, o médico relata, certas vezes, ter aberto a geladeira mesmo sem fome. Aí ele reforça o mantra: “Pra que isso? Não estou com fome”.
“De forma alguma quero fazer apologia à cura milagrosa da obesidade. Reforço que a cirurgia é uma etapa, talvez a mais difícil e com certeza o último recurso de um tratamento contínuo contra uma doença grave e incurável. […] devo permanecer com as mudanças de hábito, pois elas farão com que meu peso se mantenha. O mais importante não é ter uma meta de peso, um número para mensurar, mas sim o quanto ganhamos em qualidade de vida. E para mim fica a lição de como é estar do outro lado, […] entendo melhor as dúvidas, os medos e as angústias dos meus pacientes”, escreve Koleski sobre a própria experiência.
HISTÓRIAS DE PESO: A OBESIDADE COMO ELA É
Preço: R$ 39,90 (127 págs.)
Autor: Felipe Koleski
Editora: Vigia Editora
