Por Mauro Festa
Qual a melhor maneira de fazer uma avaliação de vinhos? Novo sistema usado pelo Descorchados 2012 Volta a levantar essa questão polêmica.
Quando se fala em degustar vinhos para avaliações em geral, a primeira pergunta que vem à mente é: como eles foram degustados? Às cegas ou às claras, somente o degustador e o vinho ou de forma dirigida, na presença do enólogo e/ou produtor. Podem existir outras perguntas, mas, sem dúvida, essa é mais importante. Tanto uma forma de degustação quanto a outra têm seus prós e contras, mas a certeza é uma só, a de que esse assunto é muito polêmico.
Na degustação às cegas, por exemplo, nada se coloca entre o degustador e o vinho; não há nada para dispersar e sugestionar o avaliador, o que torna esse sistema de prova, teoricamente, mais justo e muito utilizado em concursos.
Já a degustação dirigida e às claras é muito utilizada em apresentações, dando ao degustador o privilégio de esclarecer dúvidas sobre métodos de plantio e de vinificação, por exemplo, tornando a avaliação mais consistente.
De fato, pode-se dizer que as qualidades de uma são os defeitos da outra. Enquanto na degustação às cegas, via de regra, não ocorrem sugestionamentos, a falta de alguma informação pode, de certa forma, comprometer a avaliação. Por outro lado, a degustação às claras possibilita a busca de dados que o ajudem a fazer uma melhor avaliação, mas também pode acabar por influenciá-lo, comprometendo sua análise.
Dentro desse embate, o que fica claro é que cada um dos dois métodos tem o seu lugar. O melhor mesmo seria imaginar uma degustação em que só as qualidades e as virtudes de ambas estivessem presentes, o que é praticamente impossível, já que o degustador é um ser humano que, ainda que de forma inconsciente, pode ser movido ou sugestionado, seja por seu gosto pessoal, seja pela ciência de que está experimentando um vinho renomado.
sÀs cegas, os degustatores não sugestionam, mas a falta de informação pode comprometer a avaliação.
Na prática
Foi dentro desses questionamentos que Patricio Tapia, idealizador e realizador do guia Descorchados, decidiu arriscar e inovar na edição 2012. Diferentemente do que aconteceu em anos anteriores, para esta edição Tapia e sua equipe degustaram os vinhos em duas etapas. A primeira, às claras e dirigida, e a segunda, às cegas.
“O Descorchados 2012 significou a mudança mais importante que este guia teve em seus 14 anos de vida”, aponta Tapia. “Há pelo menos duas edições tínhamos a inquietação de fazer uma mudança e sentíamos que essa mudança deveria ser na forma como fazíamos as degustações. Mas não sabíamos como mudar. A ideia de degustar às cegas nos parecia (e parece) uma excelente aproximação com o mundo do vinho, mas com o passar dos anos, começava a parecer incompleta. Daí nasce a ideia de convidar os produtores (enólogos e donos das vinícolas) para nos mostrar seus vinhos. O que nos interessava era conversar, discutir, aprender sobre as perspectivas individuais de cada enólogo, saber o que havia na garrafa além da uva fermentada. Uma conversa em torno do vinho. Foi isso que imaginamos. Porém, não queríamos abandonar completamente a degustação às cegas, então, depois de mais de 300 reuniões com os produtores da Argentina e do Chile, degustamos às cegas os vinhos com as melhores pontuações e assim conseguimos, creio, um melhor equilíbrio.
Em agosto de 2011, tive o privilégio de participar de todo o ciclo de degustações de vinhos argentinos para o Descorchados 2012, realizada no restaurante Siete Cocinas, em Mendoza. Durante duas semanas intensas, tivemos a oportunidade de degustar pouco mais de 1.100 amostras de vinhos argentinos das mais diversas regiões, variedades e estilos.
À vista
Na primeira etapa, os trabalhos foram feitos às claras, na companhia dos respectivos produtores e/ou enólogos de cada vinho, como se fossem degustações dirigidas. Assim, foram feitas reuniões com cada vinícola individualmente, nas quais os respectivos vinhos foram experimentados, sempre classificados por linha de produto ao invés do método usual – primeiro os brancos e depois os tintos etc. A escolha desse sistema possibilitou uma análise mais apurada da consistência de cada rótulo, tanto em termos de qualidade quanto de posicionamento de mercado.
Às claras, o degustador tem dados que ajudam a fazer uma melhor avaliação, mas isso pode influenciar seu julgamento
Nesses encontros, as conversas eram permeadas por um diálogo direto e aberto, de forma a esclarecer vários aspectos, como por exemplo: que tipo de madeira foi usada na vinificação – utilização de chips/tábuas durante a fermentação ou barricas propriamente ditas -; o motivo de se optar por um estilo de vinho de fruta mais madura ou de caráter mais elegante; o mercado que o produtor objetivava atingir com determinada linha de produto; a razão da escolha do rótulo ou do nome do vinho; se o preço escolhido era coerente com sua qualidade; ou, até mesmo, se dentro do estilo que o produtor optou havia coerência com o que estava sendo provado.
A troca foi intensa e rica. Por um lado, a equipe de degustação pôde obter informações detalhadas sobre safras, uvas, vinificação e demais particularidades de cada produtor e rótulo, esclarecendo-se dúvidas e aprofundando-se suas análises; por outro lado, os representantes de cada vinícola puderam presenciar as avaliações, fato que conferiu seriedade e confiabilidade ao resultado dos trabalhos.
Às cegas
Já na segunda etapa, os vinhos com melhor desempenho nessa primeira parte foram degustados às cegas dentro de suas categorias, a fim de se obter a classificação final para o guia Descorchados 2012.
Todo esse longo e trabalhoso processo possibilitou a cada degustador uma oportunidade única de construir um panorama consistente dos vinhos argentinos e chilenos, não só em um aspecto geral, mas também em relação a tendências de tipos e estilos de vinhos em suas diversas regiões.
Esse método foi muito bem recebido pelos produtores e possibilitou a todos os degustadores fazer uma análise mais completa do vinho em si, garantindo uma melhor avaliação. O trabalho foi, com certeza, muito mais árduo, mas o resultado compensou. “Como resumo, foi uma experiência desgastante, mas alucinante. Não acho que haja uma melhor maneira de aprender sobre vinhos do que esta”.
COMO OS VINHOS SUL-AMERICANOS MUDARAM ULTIMAMENTE?
“Acho que o vinho mudou de muitas maneiras. Talvez a principal, nos últimos anos, foi um foco maior no mercado, o que trouxe problemas pelo fato de que muitas vezes o gosto do mercado é tão diferente do que uma vinícola pode produzir que incorre em certos “travestimentos” enológicos para agradar o comprador. Mas isso é o ruim. O bom é que pouco a pouco o interesse que se cria pelo vinhedo e por descobrir novas regiões está gerando frutos. E hoje é alucinante ver a quantidade de bons vinhos em regiões que antes não tinham destaque ou que simplesmente não existiam.
Gosto também da ideia de que haja produtores que estejam fazendo vinhos de costas para o mercado, seguindo suas próprias intuições ou o que seu vinhedo dita, em vez de se escravizar a um gosto que não é o próprio. Isso levará, sem dúvida, os vinhos sul-americanos a um nível completamente diferente”.
Beba com moderação, se beber não diriga.
Enoabraços!!!!