Acusado de tentar matar ex esfaqueada é condenado

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Atualizado há 7 meses

Acusado de tentar matar a ex-companheira, Jayne Thalia Julinski, em 22 de julho do ano passado, o pedreiro Cilomar dos Santos foi condenado a 16 anos de prisão.

O julgamento aconteceu nesta sexta-feira, 25, no Fórum da comarca de Canoinhas. Começou às 9 horas e se estendeu até às 19 horas. Cilomar, que já cumpria prisão preventiva, retornou ao Presídio Regional de Canoinhas para cumprir a pena.

Pela manhã foram ouvidas as testemunhas de defesa e acusação. A vítima também foi ouvida logo depois que o médico que cuidou dela no Hospital Santa Cruz e o policial que foi a primeira autoridade ao chegar ao local do crime prestaram seus depoimentos.

Jayne relatou que Cilomar a esfaqueou no seu local de trabalho. Eles iniciaram as tratativas para se separar cinco dias antes do ataque, com Cilomar concordando com o divórcio e, inclusive, falando em contratarem um só advogado para facilitar o processo. No dia do crime, ele teria ido ao mercado onde ela trabalha como auxiliar de escritório para pagar uma conta. Em seu relato, Jayne afirma que Cilomar pediu para ser atendido por ela.

No julgamento, ela descreveu o momento do ataque: “Ela tapou minha boca com a mão e senti algo quente no pescoço. Caí. Ouvia as pessoas pedindo por socorro. Perdi praticamente todo o sangue do corpo.”

Ela passou 16 dias na UTI e outros 12 no quarto do hospital, totalizando 28 dias de internação, incluindo uma cirurgia para a remoção do baço, que precisou ser refeita. Neste período, Jayne também enfrentou dor ao falar e episódios de taquicardia.

Sobre o relacionamento com Cilomar, Jayne classificou a relação como não saudável.

“Todo relacionamento tem seus momentos bons e ruins, mas tinha muitos xingamentos. Ele dizia que eu era um lixo de pessoa, uma vagabunda”, relembrou.

Ela se distanciou da própria família, já que Cilomar dizia que eles não prestavam. Além disso, Jayne mencionou que ele chegava em casa bravo e descontava isso nela, chamando até as duas filhas do casal de “filhas da p…”.

Apesar dos momentos de agressão, Cilomar também tinha atitudes que confundiam Jayne, como enviar flores e chocolates após as brigas.

“Ele dizia que fechava o pau comigo, mas no dia seguinte era só mandar presente”, contou.

Durante os 10 anos de relação, Jayne expressou o desejo de fazer faculdade e tirar carteira de habilitação, mas sempre ouviu que isso teria de esperar. Ao afirmar que um dia sairia de casa e não dependeria mais dele, Jayne relatou que ele a empurrou na cama, gerando muito medo. “Quando falava em separar, ele dizia que eu ia ver o que ia acontecer comigo”, disse.

Jayne disse que por várias vezes, Cilomar usava sua conta no mercado em que trabalha para comprar carnes e cervejas caras.

Tanto que agora que recebi meu salário integral pela primeira vez em oito anos de trabalho”.

Ela contou ainda que “Saí da casa com um fogão a gás e um colchão e fiquei com dívidas. Não tenho condições de dar o que elas (suas filhas) querem”, lamentou.

Jayne disse já ter ouvido do ex-companheiro que, se fosse preso por homicídio, ficaria apenas 24 horas foragido antes de se entregar, garantindo que, por ser réu primário, ficaria livre.

“As cicatrizes emocionais são mais profundas que as cicatrizes físicas”, concluiu Jayne ao responder a pergunta sobre as sequelas do ataque.

RÉU

O réu Cilomar Santos prestou depoimento e limitou suas respostas apenas às perguntas feitas por seus advogados, Alisson Camargo e Marlon Noernberg.

Durante o relato, ele contou sobre seu relacionamento com Jayne, que começou quando ele tinha 15 anos e ela, 12. Eles moraram juntos em Bela Vista do Toldo, onde construíram uma casa após um período morando com os pais dela e depois com os pais dele.

Cilomar mencionou uma situação que ocorreu na quarta-feira, cinco dias antes do crime, quando pediu a Jayne para comprar materiais para o seu trabalho. Ela telefonou dizendo que estava na casa do pai, mas ao Cilomar entrar em contato com o pai dela, ele afirmou que Jayne não estava lá.

Segundo o réu, a situação gerou uma discussão entre o casal, na qual Jayne disse que o pai dela havia mentido. Desconfiado, Cilomar foi a uma farmácia próxima ao mercado e pediu para ver as imagens das câmeras de segurança. As gravações mostravam Jayne descendo do carro de um colega de trabalho. Ao confrontá-la com as imagens, o réu afirma que Jayne confessou que o estaria traindo há quase um ano, o que levou à decisão de se separarem.

Após a separação, Cilomar levou Jayne de volta para a casa dos pais dela e conversou com uma cunhada sobre a traição. Na sexta-feira, discutiram a possibilidade de fazer um quartinho para Jayne no terreno do pai dela, e começaram a buscar um advogado em Joinville para formalizar a separação.

No sábado, durante uma festa junina das filhas, Cilomar ofereceu carona à Jayne. No domingo, um dia antes do crime, ele diz que eles conversaram e ele mencionou que iria ao mercado pagar algumas contas no dia seguinte. Depois, foi ao trabalho e, ao voltar, utilizou o carro do irmão para ir ao mercado.

Ao chegar, teria ouvido de Jayne a palavra “corno”, referindo-se a ele. “Desferi os golpes com o canivete. Quando voltei em si me assustei. Saí. Abandonei o carro na casa do meu irmão. Fiquei no mato até me apresentar na delegacia”, contou.

Cilomar afirmou que não planejava matar ninguém e que o uso do canivete era comum em seu trabalho, por isso trazia a arma branca no bolso.

Ele negou ser uma pessoa agressiva e expressou arrependimento pelo que aconteceu, pedindo desculpas à vítima. Ele também mencionou que estava em tratamento psiquiátrico no presídio e que os medicamentos o deixavam tremendo. Em suas palavras, ele reiterou que não tinha a intenção de causar mal a ninguém e que sua ação foi impulsiva.

TESES

Enquanto a acusação focou no ato de violência, exibindo, inclusive, o vídeo que mostra o momento do ataque, a defesa de Cilomar tentou apelar para o descontrole que seu cliente teria sofrido após ser ofendido pela ex-companheira, destacando seu arrependimento. A defesa de Cilomar disse, ainda, que “na dúvida, os jurados deveriam absolver o réu”.

“A defesa veio busca uma aplicação de pena justa, e esta analisando a possibilidade de recorrer da decisão”, disseram os advogados ao fim do julgamento.

Já acusação foi enfática ao apontar a crueldade do crime diante, segundo a versão do réu, de uma ofensa.

O julgamento foi presidido pelo juiz criminal, dr Eduardo Veiga Vidal.