Um levantamento inédito realizado entre os meses de janeiro e fevereiro de 2025, envolvendo moradores, pescadores, comerciantes e representantes do poder público de União da Vitória e Porto União, revelou ampla preocupação com a presença do peixe dourado (Salminus brasiliensis) no Rio Iguaçu.
A pesquisa foi conduzida pelo biólogo e professor Iago Vinicios Geller, doutorando pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com apoio das secretarias de Meio Ambiente de União da Vitória e de Cultura e Turismo de Porto União.
O estudo integra um dos quatro capítulos da tese de doutorado do pesquisador, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Durante o período da consulta, foram coletadas 249 respostas — 234 consideradas válidas. A pesquisa foi feita presencialmente em pontos estratégicos e locais públicos como praças e terminais de ônibus. Os participantes foram:
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172 moradores da população geral
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36 pescadores esportivos ou amadores
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15 donos de lojas de materiais de pesca
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11 vereadores de União da Vitória
O dourado: nativo ou invasor?
Mais de 70% dos participantes afirmaram saber que o dourado não é uma espécie nativa da bacia do Rio Iguaçu. Essa informação é essencial para compreender o impacto ambiental que o peixe pode causar.

Segundo o professor Iago, embora o dourado seja nativo da Bacia do Paraná, as Cataratas do Iguaçu funcionaram historicamente como uma barreira natural, impedindo que a espécie chegasse até a bacia do Iguaçu por conta própria. Sua presença, portanto, é fruto da introdução humana — o que o torna uma espécie invasora na região.
Dourado é visto como ameaça
A pesquisa revelou que:
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65% da população considera o dourado uma ameaça a outras espécies do rio;
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80% dos pescadores também acreditam que o peixe prejudica a fauna local;
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73% dos lojistas e 63% do poder público compartilham da mesma preocupação.
População apoia a liberação da pesca
Apesar dos riscos ambientais, a maioria dos entrevistados defende a liberação da pesca do dourado na bacia do Iguaçu:
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79% da população é favorável;
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80% dos pescadores apoiam a medida;
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60% dos lojistas e 54,5% do poder público também concordam com a proposta.
Atualmente, uma lei estadual (Lei 13.789/2005) protege o dourado como espécie nativa, o que, segundo o pesquisador, é incorreto e precisa ser revisto.

Tese traz alerta ambiental
A tese do professor Iago Geller também propõe ações para conservação de espécies nativas, como o lambari, peixe tradicional da região que faz parte do patrimônio cultural e econômico local.
“A introdução do dourado pode causar prejuízos ecológicos, econômicos e culturais. Uma invasão bem-sucedida pode ameaçar espécies endêmicas e até comprometer festas e tradições ligadas ao lambari”, afirmou o pesquisador.
O levantamento identificou 93 espécies de peixes nativas no Rio Iguaçu, sendo 17 delas ameaçadas de extinção, segundo a Lista Vermelha da IUCN.
Projeto de Lei busca liberação controlada
Como desdobramento da pesquisa, o deputado estadual Goura protocolou um Projeto de Lei na Assembleia Legislativa do Paraná que busca alterar a atual legislação e permitir a pesca do dourado apenas na bacia do Iguaçu, onde ele não é nativo. A espécie continuará protegida nas bacias onde é originária.
O professor Iago finaliza ressaltando que seu trabalho não é político ou financeiro, mas ambiental. “A vida de uma espécie pequena como o lambari tem o mesmo valor da de um peixe de grande porte como o dourado. O equilíbrio ecológico deve ser prioridade”, conclui.
O estudo completo estará disponível na biblioteca da UEL e já foi entregue ao Ministério Público e ao Instituto Água e Terra como subsídio técnico para futuras decisões ambientais.