Os impactos do tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, para as exportações brasileiras, têm afetado diretamente alguns setores do Planalto Norte.
O setor moveleiro, por exemplo, que tem grande relevância nos municípios de São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre foi especialmente afetado por conta da sobretaxa de 50%, a ponto de diversas empresas terem de recorrer a férias coletivas, redução de jornada de trabalho e, em alguns casos, demissões de funcionários.
ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL
A microrregião composta por São Bento do Sul, Campo Alegre e Rio Negrinho é a que mais exporta móveis em todo o Brasil.
De acordo com o presidente da Associação Empresarial de São Bento do Sul (Acisbs), Gabriel Weihermann, os EUA são o país que mais importa produtos do setor moveleiro de São Bento do Sul. “Basicamente, 60% do volume das exportações de móveis do município é para os EUA, por isso essa questão das tarifas aplicadas pelo país tem refletido bastante na indústria local”, destacou.
Weihermann afirmou ainda que, além das férias coletivas e da redução de jornadas que tem sido aplicadas por algumas empresas do setor em São Bento do Sul, também há a tentativa de redirecionar a produção para outros países.
“Nós sabemos que as empresas não querem chegar ao ponto de demitir funcionários, mas se não houver nenhuma negociação ou melhora nesse sentido, o cenário pode piorar e chegar às rescisões de contrato de trabalho”, explicou.
O polo moveleiro de São Bento do Sul, segundo Weihermann, emprega mais de 7 mil pessoas diretamente, além de toda uma cadeia que atende a essas indústrias. O presidente afirmou ainda que a Acisbs está atenta à situação e tentando contribuir da melhor forma possível.
No ano passado, as empresas da região exportaram o correspondente a US$ 123,4 milhões (os EUA responderam por 62% do total).
SINDICATO DA INDÚSTRIA, CONSTRUÇÃO E MOBILIÁRIO DE SÃO BENTO DO SUL
O presidente do Sindicato da Indústria, Construção e Mobiliário de São Bento do Sul, Luiz Carlos Pimentel, alega que alguns anúncios de auxílios já foram emitidos por parte do Governo do Estado, Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) e pelo Governo Federal, mas em geral são financiamentos com carência.
Pimentel destaca, no entanto, que para as empresas que trabalham com alta concentração de exportação para o mercado americano, a situação é muito mais crítica.
“Nós temos uma falta de previsibilidade de fluxo de caixa nestas indústrias, então, muitas vezes é difícil para que elas recebam qualquer tipo de auxílio que visa somente um financiamento, mesmo que seja com custo subsidiado, mas a uma taxa que pode chegar a 8% ao ano, o que não é uma taxa baixa”, explicou.
Para Pimentel, existe a possibilidade de um encolhimento no setor, principalmente no que diz respeito à exportação. “As empresas que não têm alta concentração de exportação para o mercado americano estão conseguindo concentrar seus esforços para o mercado interno, ou para outros mercados, como o europeu ou o próprio Mercosul, mas as demais vão ter de repensar suas operações”, enfatizou.
O Sindicato da Indústria, Construção e Mobiliário de São Bento do Sul, segundo Pimentel, contratou uma banca de advocacia para realizar uma defesa fundamentada com dados e informações do setor, para levar à câmara do comércio americano. “Entendemos que estamos descobertos de representatividade neste momento, e este é um setor muito importante para o Estado de Santa Catarina, mas ao que parece talvez não tenha a mesma relevância para o Governo Federal, então precisamos nos unir com as demais entidades para termos representatividade”, finalizou.
Nesta terça-feira, 26, o Governo Federal anunciou a compra da produção de castanha, açaí e pescado para ajudar setores afetados pelo tarifaço, mas nada falou do setor madeireiro.
Em Canoinhas, onde há madeireiras como a Procopiak e a Energia, o Sindimadeira representa o setor, mas seu presidente, o empresário José Fuck, tem se recusado a revelar dados do setor. Há um apagão de informação, também, sobre Três Barras, onde a FComp exporta quase 100% de sua produção, assim como a Brasnile.
Papanduva, onde há várias madeireiras, também sofre os efeitos do tarifaço.
SUL DO PARANÁ
No sul do Paraná, a situação também é crítica. A Randa, fábrica de portas de Bituruna, molduras e compensados de madeira que exporta para os Estados Unidos há 20 anos, por exemplo, anunciou férias coletivas, em rodízio, a todos os seus 800 trabalhadores – 400 entraram no dia 8 de agosto e os outros sairão quando o primeiro grupo voltar.
Com isso, paralisou metade da sua produção. De tudo o que fabrica, 55% são destinados aos Estados Unidos.
A Randa é a maior empresa de Bituruna e foi diretamente impactada pelo tarifaço. A empresa estima que 80% da economia do município gire em torno da indústria, somando os empregos diretos e indiretos, fornecedores e o consumo no comércio local.
A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), da qual o CEO da Randa, Guilherme Ranssoli, é vice-presidente, contratou um escritório nos Estados Unidos para subsidiar o setor e fazer lobby com autoridades americanas.
As respostas que têm vindo, porém, são de que só haverá algum avanço com uma negociação direta entre os governos do Brasil e dos EUA.
DESTARIFAÇO
A Fiesc fará nesta quinta-feira, 28, a apresentação do programa Destarifaço, com medidas de apoio às indústrias e aos trabalhadores afetados pelas tarifas dos Estados Unidos. Pela manhã, a entidade apresenta o programa em primeira mão para sindicatos. No período da tarde, faz o lançamento para a imprensa, a partir das 15h, na sede da Fiesc em Florianópolis.
QUANTO O PLANALTO NORTE E REGIÃO EXPORTARAM EM JUNHO/25 PARA OS ESTADOS UNIDOS
Canoinhas: R$ 740 mil – Madeira e móveis: madeira serrada.
Porto União: R$ 331,2 mil – Madeira e móveis: madeira compensada, obras de carpintaria para construções;
Santa Cecília: R$ 1,35 milhão – Madeira e móveis: madeira compensada e outros móveis;
Timbó Grande: R$ 909,19 mil – Madeira e móveis: madeira compensada;
Três Barras: R$ 2,81 milhões – Madeira e móveis: madeira compensada.
Itaiópolis: R$ 854,74 mil – Equipamentos elétricos e máquinas e equipamentos: refrigeradores, motores elétricos, outros produtos de ferro, aparelhos de controle.
Mafra: R$ 762,97 mil – Madeira e móveis: madeira compensada, outros móveis, obras de carpintaria para construções, outros artigos de madeira.
Papanduva: R$ 442,74 mil – Madeira e móveis: madeira em forma, madeira serrada.
Rio Negrinho: R$ 4,35 milhões – Madeira e móveis: madeira em forma, outros móveis, madeira serrada.
São Bento do Sul: R$ 4,2 milhões – Madeira e móveis, cerâmico, têxtil, confecção, couro e calçados, automotivo, indústria diversa: outros móveis, louças de cerâmica, roupas de cama e toucador de cozinha, assentos.