Artigo: Aniversário de União da Vitória?

Vamos comemorar conhecendo o significado social e econômico do trabalho dos carroceiros “no tempo das carroças”!

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Atualizado há 13 anos

Por Leni Trentim Gaspari

Comemorar o aniversário da cidade nos leva a refletir como a história foi construída em torno das necessidades, dos saberes e fazeres do homem interiorano. Entre as necessidades destacarei neste texto a importância de um meio de transporte que hoje pela evolução tecnológica pode parecer rudimentar, mas que no final do século XIX e século XX foi de imenso valor no cotidiano dos moradores do vale do Iguaçu.

Segundo Riesemberg (1973, p.124), a carroça foi para a produção industrial uma das contribuições mais interessantes do colono polonês para a cultura do vale destinada à condução dos gêneros coloniais. Além do incremento aos transportes a introdução das carroças determinou o traçado das estradas e o afeiçoamento do seu leito, preparando a região para o advento dos veículos motorizados.

O mesmo autor diferencia a carroça polaca da carroça russa. A primeira fazia itinerários curtos, destinando-se principalmente a transportes entre o lote rural e a sede da colônia ou às vilas próximas. Eram cobertas somente em dias chuvosos ao contrário das russas que tinham a cobertura com toldos fixa, pois percorria percursos mais distantes e constituía uma casa provisória para o carroceiro.

Outra peculiaridade a salientar é que a carroça fazia parte de todas as atividades de lazer e recreação dos colonos e apresentava feições pitorescas, pois:

Nas festas religiosas, nos casamentos e nos batizados, toda enfeitada de ramos verdes, os animais enlaçados de fitas coloridas, o comprido chicote do boleeiro a estralejar em salvas sucessivas, lá ia ela pelas estradas batidas, por entre as searas douradas, ao claro tilintar dos guizos como uma mensagem de vida nova a se propagar pelo vale. (RIESEMBERG, 1973, p.126)

Não só aos colonos, ela também favorecia a vida dos homens da cidade para deslocamentos em visitas a familiares, idas a missas e festas de igrejas, tendo em vista o número insuficiente de outros veículos dadas as condições financeiras da maioria da população de União da Vitória e Porto União lá pelo final do século XIX e inicio do século XX. No próprio contexto administrativo da cidade constata-se a prestação de serviços à comunidade pelo uso da carroça  destacado em Edital, no Jornal O Pharol de 1919, (Porto União) o qual transcrevemos na íntegra e grafia original:

EDITAL      

Fiscalização Geral da Superintendência Municipal

De ordem do snr. Superintendente Municipal e para que não alleguem ignorância, previno aos snrs. moradores das ruas Prudente de Moraes, 7 de Setembro, 15 de Novembro, Coronel Amazonas e Praça Major Mattos Costa que, a contar de hoje ficam expressamente prohibidos de lançar na frente de suas casas e no leito das ruas, ciscos, cascas de fructas, etc. E para evitar-se isto, as quartas feiras e aos sabbados a carroça de limpeza publica, percorrerá as ditas ruas e transportará o lixo, que deve estar collocado em caixões ou latas, nas portas das casas, sob pena de serem impostas aos seus infractores, as multas de acordo com a lei.

Fiscalização Geral da S.M de Porto União em 1-7-1919. Fiscal Geral Jaime Correia Pereira. (O PHAROL, 20 de julho de 1919, p.3.)

O Edital refere-se a cidade de Porto União mas acredita-se que à época o mesmo sistema fosse utilizado em União da Vitória. Outras situações favoreceram as oportunidades de trabalho com carroças garantindo certa estabilidade financeira aos carroceiros podendo ser chamado esse período de o “tempo das carroças”.

Segundo Armando Trentin, em entrevista, (2007) com a chegada dos trens em União da Vitória, os carroceiros eram chamados para conduzir as mercadorias que chegavam para as casas comerciais da cidade. Para o Armazém do Sr Petry, eram levados produtos alimentícios em geral. Os sacos de sal suavam e dificultava o carregamento até as carroças, ferindo os dedos dos carregadores. Para a fábrica de bebidas do Sr. Manfroni, chegavam cervejas as quais vinham embaladas em palhas para não quebrar e à Loja Gabriel Nemes chegava grande diversidade de utensílios.

Carroças e carroções foram fundamentais tanto para transporte de pessoas como para conduzir cargas, numa época em que havia poucos caminhões e as estradas muito difíceis para transitar. Era comum as viagens dos carroceiros que se deslocavam para Palmas levando sal e trazendo charque para vender nos armazéns locais. Outros produtos foram transportados como madeira, erva mate, animais de pequeno porte e vários tipos de alimentos.

O transcorrer das viagens apresentava inúmeras dificuldades que tornavam o trabalho dos carroceiros desgastante pelos perigos que enfrentavam pelas estradas. Essa convivência diária com o perigo fez com que eles se organizassem em grupos para viajar e assim protegiam-se mutuamente. Ao anoitecer paravam próximos a uma fonte de água, faziam uma pequena fogueira, aqueciam seus alimentos e tinham uma boa “prosa” com os companheiros fortalecendo os laços de amizade e solidariedade.

Cleto da Silva (1920, p. 189) comenta em seu livro o Contestado diante das Carabinas, que encontrou “…no trajeto Horisonte e Taipinha, seis carroças carregadas de herva matte e couros que se destinavam a União da Victória. Os condutores sesteavam e os animais estavam largados ao pasto”. Eram momentos de conversas, descanso, tocar gaitinha de boca, tomar um chimarrão e de lembrar da família cuja saudade apertava tendo em vista que as viagens eram demoradas.

A sociedade foi se modificando, os costumes e normas a serem seguidas também e surgiu a determinação para que os condutores de carroças tivessem Carteira de Habilitação. Nos documentos oficiais do Arquivo Municipal de União da Vitória encontrei o Livro de Termos de Exames de Condutores de Vehiculos de 1931-1941, no qual constatei que na década de 30 foram concedidas 35 autorizações para conduzir carroças a pessoas de União da Vitória, Porto União, Cruz Machado e Colônia Amazonas. Dessas, trinta e quatro foram para homens e uma para mulher. Vejamos a pioneira nessa conquista na  transcrição integral e grafia original do documento,:

“Termo de Exame de Habilitação

Aos dois dias do mês de Setembro de mil e novecentos e trinta e um, nesta cidade de União da Victoria, Estado do Paraná no local designado pelo Snr. Dr. Prefeito Municipal e perante o Snr. José Serafini, Fiscal Municipal, comigo Evaldo Burmeister, Secretario Interno da Prefeitura, compareceu a senhora Dª Dorothea Scheibe, allemã, com 46 anos de idade, casada, filha de Nicolau Scheibe, residente nesta cidade, declarando que queria se habilitar na forma da lei para condusir carroça. A qual foi examinada e julgada apta pelo que se lhe expediu a competente carteira de habilitação. Do que para constar foi lavrado este termo que vae assignado.”

José Serafini

Conforme pesquisa no Livro acima citado, nesse período apenas uma mulher tinha autorização, mas muitas eram condutoras de carroças, principalmente as mulheres imigrantes que vinham do interior trazendo seus produtos rurais para vender: feijão, verduras, requeijão, manteiga, ovos, pinhão milho, abóboras e até lenhas. Algumas já tinham freguesia certa em determinadas residências mas a maioria se dirigia aos armazéns de secos e molhados. Faz parte das minhas lembranças o transitar dessas mulheres notáveis com suas carrocinhas, principalmente as sextas feiras quando chegavam no Armazém do meu progenitor para estabelecer comércio: vender os produtos rurais e comprar o que não havia na colônia, tais como querosene, sal, tecidos, café, armarinhos e açúcar. A postura dinâmica dessas mulheres que enfrentavam esse desafio além de todo o trabalho nas chácaras mostra que elas partilhavam ao lado dos homens das atribuições cotidianas mas deixando transparecer certa independência.

Escrevi este texto (que não está concluído) para homenagear um segmento de trabalhadores e trabalhadoras que ajudaram a construir a história de União da Vitória e muitas vezes são esquecidos. Mas quero parabenizar a todos os  homens e mulheres do passado e do presente, os quais com sua força de trabalho e dignidade  tornaram esta cidade um espaço acolhedor para os filhos desta terra e para os filhos que chegam de outros lugares. Parabéns União da Vitória!

 

Leni Trentim Gaspari é membro da ALVI

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