A arte de servir bem

Carlos Brito é um dos garçons mais conhecidos na região. Aos 74 anos, já recebeu homenagem pelo trabalho e garante que não vai abandonar a bandeja

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Atualizado há 13 anos

Por Mariana Honesko

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Popular na região, Brito não enxerga sua vida longe dos restaurantes e festas

Ele é um homem educado. Do alto de seus 74 anos, sabe respeitar e aprendeu a ser respeitado. Carlos Brito, ou simplesmente o Brito, é garçom desde 1961. A profissão entrou em sua vida por acaso, mas conquistou seu coração. “Comecei como garçom para dar estudo para os filhos. Era um bico de final de semana. Na época eu trabalhava durante o dia em uma madeireira e a noite como garçom”, lembra. O então ecônomo do Clube Concórdia, Humberto Prendin, não sabia, mas tinha acabado de abrir as portas para um dos profissionais mais populares e queridos na região de União da Vitória.

A jornada dupla foi mantida por Brito durante 20 anos. O que começou como um “bico”, ganhou mais importância. Com a renda extra, garantiu a formação de seus oito filhos. Aposentado na madeireira, Brito também poderia ter encerrar sua carreira como garçom. Mas, este não é seu desejo. “Nem penso em parar. Se eu não fizer, sinto um vazio”, sorri, com simplicidade.

É por isso que mesmo com idade para ficar em casa, Brito cumpre horário. Ele é funcionário do Restaurante Carlinda, cuja proprietária é sua irmã. O garçom é exemplar: chega cedo, arrumas as mesas, cuida dos talheres, do Buffet e às 11h30, com seu avental vermelho, está pronto para atender os clientes. Com tato, sabe receber adultos e, com um sorriso, conquistar a confiança das crianças. Segundo ele, não há distinção entre quem está à mesa: o fundamental é manter a educação e ter humildade. “Um bom garçom precisa ser humilde. Ele também não pode ser fechado. Tem que conversar com o cliente, perguntar se ele está bem, saber o que ele precisa”, ensina.

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Pontual, o garçom trabalha todos os dias: rotina e sorriso no rosto são mantidos

Seus bons modos renderam elogios até de japoneses, na ocasião, convidados para um jantar particular na cidade. Além disso, o comportamento fino e elegante lhe concedeu alguns privilégios. Por várias ocasiões, Brito serviu grandes personalidades do cenário político e artístico. Até o “Rei”, rendeu-se ao capricho de Brito. “O Roberto Carlos, quando esteve aqui, comeu tudo muito simples. Ele, com a esposa, comeram bife acebolado, arroz e alface”, lembra. O jornalista Sérgio Chapelin, conforme Brito, também é um homem de modos simples. “Achei curioso apenas o fato dele querer comer mel. Ele estava em uma fazenda e o pessoal foi buscar uma lata para ele”, sorri. Outra curiosidade que faz o garçom rir é o paladar do então governador do Paraná, José Richa, pai de Beto Richa. “Ele comeu costela e pediu chocomilk para tomar”, ri. “Tinha uma caixa toda só para ele”, completa.

O ritmo tranquilo, exigido para servir bem os mais refinados, precisa ser adaptado para garantir o bom atendimento em festas maiores. Sozinho, Brito já garantiu bebidas e refeições na mesa para cerca de 70 pessoas. Mais do que habilidade, o garçom impressiona pela genialidade. Ao contrário da maioria dos profissionais da área, ele não anota sequer um único pedido. Tudo fica registrado na memória. “Nunca confundi os pedidos. Não anoto, mas lembro tudo de cabeça”, orgulha-se.

É justamente por ter este perfil que sua agenda é sempre cheia. Diante de tantos compromissos, Brito já precisou recusar uma infinidade de convites. Seus clientes, que fazem questão de sua presença, antecipam-se. “Uma vez uma pessoa me ligou nove meses antes, para reservar meu serviço em um almoço”, conta.

Um homem atrás do avental

Em casa, Brito não gosta de servir, tampouco de ser servido. O garçom mora há 17 anos em um apartamento anexo ao Clube Concórdia, endereço que já marcou a realização de centenas de grandes eventos e onde Brito, na maioria, esteve presente. Por lá, a vida é mais pacata, bem diferente da correria que sua agenda exige. Dono de hábitos simples, Brito ocupa o tempo livre com liberdade. Em casa, gosta de ver televisão e tem preferência pelas novelas. A cozinha é um ambiente pouco visitado. “Não cozinho. Se for para poucas pessoas, até me arrisco”, brinca.

Brito é natural da cidade de Água Doce (SC), mas teve seu registro de nascimento feito em Porto União. Filho de mãe solteira, o garçom foi criado pela mãe e apenas aos seis anos voltou para perto de sua genitora. Os vínculos familiares um pouco distorcidos para a época, jamais lhe causaram traumas ou qualquer sentimento ruim. “Fiquei com minha mãe até ela morrer”, sorri. Nenhum de seus filhos seguiu a mesma profissão. Apenas um deles, antes de ingressar na carreira militar, tentou o equilíbrio das bandejas. “Mas foi por pouco tempo”, pontua.

Solitário na missão, Brito não enxerga sua aposentadoria. Ela já seria possível, pelo tempo de carreira, mas o garçom não se vê longe dos clientes que já se tornaram parte de sua vida. “Me sinto bem. Muito bem”, sorri.

O melhor garçom

Em 2007, Brito foi eleito o melhor garçom de União da Vitória. A promoção, uma iniciativa dos empresários locais, lhe conferiu o título. “Me lembro que eles me chamaram para um jantar, para trabalhar, mas quando eu cheguei lá, o jantar era para mim. Os empresários me serviram”, conta, feliz.

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