
Uma página de classificados de União da Vitória e Porto União foi palco de grandes discussões sobre racismo na quarta-feira, 11. O motivo foi que ao final da tarde um usuário da página na rede social Facebook postou um anúncio o qual supostamente estaria vendendo negros a R$ 1. Na foto publicada estavam duas crianças negras fazendo sinal de positivo, e embaixo da imagem o anunciante enumerava as funcionalidades do produto. A imagem já foi utilizada em outras postagens que incitam o racismo e a discriminação na internet.
Em poucos minutos, após o anúncio, usuários da página denunciaram o rapaz que havia feito a postagem, porém, tratava-se de um perfil falso. E na manhã do dia seguinte o conteúdo já havia sido removido pelos administradores do classificado. “Quando observamos o fato o usuário foi banido e sua publicação excluída”, afirma um dos três administradores da página, Alison Fernando Gontarek.
Conforme Gontarek foi feita uma busca pelo usuário e constatado que o perfil estava registrado como morador do Tocantins. “Abomino totalmente esse tipo de publicação. Inclusive alguns usuários do grupo sugeriram rastrear o IP do usuário que publicou, porém não tivemos sucesso.”
Contudo, o caso não ficou apenas no mundo virtual, a publicação tomou dimensão e várias pessoas, inclusive Alison, denunciaram o ocorrido para a Polícia Civil e Ministério Público de Porto União. Segundo o delegado civil, Wellington Spiacci, casos como esse são complexos, pois a internet é uma rede mundial e qualquer pessoa pode utilizar a ferramenta. “Mas na internet tudo que é feito deixa um rastro, um número de IP, tem um caminho que foi feito. Não é tão difícil encontrar o autor, mas a gente depende de autorizações judiciais que levam algum tempo.”
Spiacci relata que para investigações mais aprofundadas serão necessárias autorizações judiciais para a quebra de sigilo. “Dependemos dessa autorização, pois todo o cidadão tem direito ao sigilo, então nós precisamos de uma autorização judicial para quebrar o sigilo.”
De acordo com o Técnico do Ministério Público local, Gilson da Silva, o caso também pode seguir para investigação a nível federal. “Ainda não está concluída a investigação, mas o Ministério Público já tomou conhecimento sobre isso. Várias denuncias foram feitas aqui e na Polícia Civil, porém estamos analisando o caso com muita atenção, para saber em qual crime se encaixa. E o assunto pode ser levado para a Polícia Federal.” Mas, Silvio adianta que há casos que os criminosos não foram encontrados.

Porém, se o responsável pela publicação na página de classificados das Cidades Irmãs for encontrado, ele poderá responder pelo crime de racismo, injúria racial e até mesmo crime cibernético. “A princípio há a pratica de crime de racismo, que ofende toda uma coletividade”, aponta Spiacci.
Em uma entrevista concedida no programa Tribuna do Povo na Rádio União, Ilton Cesar Martins, doutor em História do Brasil e coordenador do projeto CAPES/PIBID História da África e da Cultura Afro-brasileira, práticas como essas, muitas vezes são alvos de piadas, em especial na internet. “A pessoa faz um comentário e muita gente vem depois e acha graça, ri. Esse é o problema de racismo no Brasil, muitas vezes ele é tomado como brincadeira. Mas não existe racismo, preconceito específico contra negros, porque o brasileiro também faz piadas contra gaúcho, homossexual. Tratamos como se tudo fosse uma grande brincadeira. A piada não é de negros é contra negros”, condena.
E para mudar essa situação, Ilton, que também denunciou a publicação ao Ministério Público de Porto União, coordena um projeto que tem por objetivo trabalhar com crianças sobre questões africanas, nas contribuições do povo, seja sob a perspectiva cultural ou na formação da sociedade brasileira. “O que nós pretendemos com o projeto é trabalhar desde cedo com crianças para que no futuro como adultos possam tratar das diferenças sem hierarquizar, e sem fazer dessas diferenças um motivo de chacota.”
Anúncios de vendas de negros são recorrentes no País. O último denunciado foi em janeiro deste ano. O autor foi identificado e de acordo com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, do Governo Federal, ele poderá cumprir pena de dois a cinco anos, além de pagar uma multa por induzir o preconceito da raça, etnia, religião ou procedência nacional.
Outro caso recente foi a de um adolescente de 16 anos, que por não ter passado no vestibular de uma Universidade Federal, acusou as cotas para negros como um dos motivos por não conseguir a vaga. Por esse motivo o jovem postou um anúncio racista na internet.
Próximos passos
A partir de segunda-feira, 24, de acordo com Wellignton Spiacci a Polícia Civil vai entrar em contato com autoridades de Tocantins para apresentar a situação. As investigações do Ministério Público também estarão concluídas na segunda-feira. Nesta data as autoridades vão definir os passos para serem seguidos até encontrar o autor da publicação.
Acompanhe a entrevista completa com Ilton Cesar Martins: