Ex-inquilina da casa onde no quintal o atual inquilino encontrou um caixão artesanal ao tentar fazer uma horta na tarde desta quarta-feira, 8, Dieine Ribeiro, confirmou ao JMais que praticava trabalhos espirituais no local.
O cartaz que anunciava os trabalhos de Dieine, exposto na fachada da casa que fica na rua 15 de Novembro, em Três Barras, está circulando nas redes sociais.

Dieine explica que deixou a casa há quase dois anos e lá morou por um ano. Apesar da expressão “Lúcifer 666” no topo do cartaz, ela afirma que nada tem a ver com satanismo.
“O que eu fazia era basicamente ler cartas, até porque nem tinha autorização para fazer mais que isso”, afirmou.
Dieine deixa claro que a a figura de Lúcifer na umbanda e na quimbanda, religiões que ela pratica, é frequentemente mal compreendida devido à associação com o conceito cristão de diabo, mas dentro das religiões afro-brasileiras, ele é visto de forma distinta.
“Lúcifer não é considerado o demônio do cristianismo, mas sim um mestre cósmico, frequentemente associado a energias de Sírio, que traz luz, sabedoria e conhecimento. Ele representa o poder da liberdade e da consciência espiritual”, afirma.
Conforme manuais de umbanda consultados pela reportagem, “Lúcifer é descrito como uma força de alto conhecimento, diferenciando-se do ‘anjo caído’ da tradição cristã”.
Os mesmos manuais explicam que o número 666 é, na tradição judaico-cristã, associado ao Apocalipse e ao “número da besta”. No entanto, a associação direta de 666 com a entidade Lúcifer na umbanda não é uma regra geral da religião.
“Enquanto o 666 é usado para representar o mal no cristianismo, a umbanda utiliza símbolos como a estrela de cinco pontas (pentagrama) para representar a luz interior e grandes mestres espirituais”, segundo O Livro Essencial de Umbanda, de Ademir Barbosa Júnior.
É nesse contexto que entra, também, Maria Padilha, citada no mesmo banner. “(Ela) representa a força feminina, sedução, inteligência e abertura de caminhos, especialmente no amor e nas finanças”, segundo o site museubajuba.org.
Dieine, que já foi contatada pela Polícia para prestar depoimento, conta que antes de ela morar na casa já havia um terreiro de umbanda no local, mas ela desconhece de quem seria. O responsável por este terreiro também será chamado a depor.
INVESTIGAÇÃO
O delegado Nadal Jr, que está à frente da investigação, disse ao JMais que “não temos muitas informações ainda. A perícia foi realizada no local, a ossada foi recolhida para análise forense e realizamos a coleta de material genético para tentativa de identificação. Agora temos que aguardar os laudos”.
Nadal disse que nenhuma hipótese está descartada e que todos os ex-moradores, independente de que atividade exerciam na casa, serão chamados a depor.

PERGUNTAS SEM RESPOSTAS
- De quem é a ossada? A Polícia deve partir de banco de dados de desaparecidos na região para chamar parentes a fim de fazer exame de DNA. Segundo reportagem, a comarca tem cinco pessoas desaparecidas somente no ano passado.
- Quem morou na casa? Além do atual inquilino, quais outras pessoas moraram na casa. Segundo o delegado Nadal Jr, todos serão chamados a depor, independente da atividade que realizavam no imóvel.
- A casa ficou quanto tempo desocupada? Há a possibilidade de alguém ter se aproveitado do fato de a casa estar abandonada para enterrar o corpo no local.
- Por que um caixão artesanal? ‘Desovas’ de corpos por envolvidos com crime organizado não costumam ser feitas desta forma com caixão e até mesmo um crucifixo. O modus operandi comum são covas rasas em áreas de mata. Para evitar prolideração de mau cheiro, os criminosos costumam jogar cal. Isso já ocorreu várias vezes em Três Barras, quando uma onda de violência desencadeada por uma facção local ceifou a vida de várias pessoas.
- Há algum indício de ritual satânico? A Polícia acaba de iniciar a investigação e ainda considera cedo fazer qualquer ligação da ossada com alguma espécie de ritual.